Vítor havia escolhido uma sala de reuniões no escritório onde administrava imóveis da família.
Quando Haroldo chegou com Vera, encontrou o irmão diante de uma pasta marrom e uma xícara de café intocada.
Não havia mais funcionários no local.
Vera pediu que a porta permanecesse aberta e anunciou que tomaria notas da conversa.
— Não precisa transformar tudo num julgamento — reclamou Vítor.
— Então fale com clareza — respondeu Haroldo.
— Aquelas cartas existem?
Vítor retirou dois envelopes da pasta.
O primeiro trazia o endereço antigo da loja e um selo de vinte anos antes.
No segundo, Ana escrevera o nome completo do pai com uma letra que Haroldo reconheceu imediatamente.
Ele estendeu a mão, mas Vítor puxou os envelopes de volta.
— Antes, preciso de sua palavra de que vai retirar a contestação da venda.
Vera interrompeu.
— Não haverá troca de documentos por desistência de direitos.
Se essas cartas são autênticas, devem ser preservadas.
Vítor sorriu sem alegria.
— Você sempre teve alguém para resolver seus problemas, Haroldo.
Primeiro o nosso pai, depois eu, agora a advogada.
Haroldo não respondeu à provocação.
Olhou apenas para as cartas.
— Você sabia que ela estava viva.
— Eu sabia que ela escrevia — corrigiu Vítor.
— Não era a mesma coisa.
— Por que não me entregou?
Vítor desviou os olhos pela primeira vez.
Falou da época em que a loja tinha dívidas, das decisões que tomara sem consultar o irmão e do dinheiro perdido num investimento.
Disse que havia usado registros de consignação para esconder a falta de algumas peças enquanto tentava recompor o caixa.
Quando Ana percebeu, temeu que o irmão a ouvisse.
— Eu só precisava de tempo — insistiu.
— Você tomou vinte anos — disse Haroldo.
Vítor bateu com a palma da mão na mesa.
— Ela podia ter voltado!
Ninguém impediu que ela entrasse pela porta.
— Você entregou a ela uma carta fingindo ser minha.
Ela tinha dezoito anos e acreditou que eu a expulsara da família.
O silêncio que se seguiu foi mais difícil de suportar do que a discussão.
Vítor não negou a entrega da carta.
Também não explicou como surgira a assinatura no termo que apontava Ana como responsável pelas joias.
Vera pediu uma declaração por escrito sobre os documentos antigos, mas ele se recusou.
Em seguida, ela orientou Haroldo a não discutir possíveis crimes ou indenizações sem acompanhamento jurídico.
A prioridade naquele momento era preservar as cartas e impedir novas movimentações patrimoniais sem autorização.
— Se continuar assim, vai perder tudo — ameaçou Vítor.
Haroldo levantou o rosto.
— Já perdi uma filha por acreditar em você sem ouvir o lado dela.
Não vou repetir isso para proteger um prédio.
Vítor empurrou os envelopes pela mesa com um gesto brusco.
— Leve, então.
Veja se essas cartas resolvem o que você deixou acontecer.
Vera fotografou os envelopes antes de guardá-los e registrou que haviam sido entregues pelo próprio Vítor.
Haroldo não os abriu ali.
Queria que Ana decidisse se estava pronta para rever aquelas palavras.
Ao sair, recebeu uma ligação do contador.
A análise preliminar apontava pagamentos recentes à empresa de Vítor sem documentação suficiente para justificar parte dos serviços.
Seria necessário aprofundar a auditoria, conferir contratos e permitir a manifestação de todos os envolvidos.
Haroldo autorizou a continuação do trabalho.
Nos dias seguintes, Vera comunicou formalmente a revogação das autorizações que ainda permitiam a Vítor representar Haroldo, observadas as exigências legais.
Também informou que o pedido judicial relacionado à venda havia sido apresentado com documentos e indícios de risco.
O processo não estava decidido, mas a incorporadora suspendeu as tratativas ao tomar ciência da disputa.
Haroldo não considerou aquilo uma vitória.
Era somente a primeira vez que não entregava ao irmão o controle da situação para evitar uma briga.
Ana foi transferida para um quarto comum depois de apresentar melhora clínica.
Ainda se cansava ao falar, mas já conseguia sentar para conversar com Lia, que levava desenhos e notícias da pensão.
A menina queria saber quando poderia voltar a dormir perto da mãe.
Ela também perguntou se o avô ficaria bravo caso Ana não quisesse morar na casa dele.
Haroldo respondeu que não, que a mãe dela tinha direito de decidir e que ele continuaria disponível para ajudar.
Lia pareceu aliviada, mas ainda quis confirmar que poderia telefonar para Celina.
Ele anotou o número num papel e entregou à menina, sem fazer de sua presença uma condição para que ela fosse cuidada.
— Quando a médica disser que posso sair, vamos organizar tudo juntas — respondeu Ana.
— Ninguém vai decidir nossa vida sem conversar com você.
Haroldo percebeu a correção silenciosa dirigida também a ele.
Sua vontade de oferecer uma casa, roupas e dinheiro não podia substituir o direito de Ana de escolher.
Quando ficou a sós com a filha, entregou-lhe os envelopes dentro de uma pasta transparente.
— Seu tio guardou isso — explicou.
— Não sei tudo o que aconteceu com cada carta.
Mas sei que elas nunca chegaram às minhas mãos.
Ana reconheceu a própria letra.
O primeiro envelope fora enviado poucos meses depois de sua partida.
Ela o abriu devagar e leu algumas linhas, depois parou para enxugar os olhos.
— Eu escrevi que sentia falta da sua voz — contou.
— E que, se você quisesse, eu podia voltar só para explicar.
Haroldo sentiu uma dor antiga ganhar contornos novos.
Ele não podia recuperar o dia em que a carta deveria ter chegado, nem a vida que talvez tivessem vivido se tivessem conversado.
— Eu procurei você — disse.
— No começo, todos os dias.
Depois procurei menos, e aceitei a versão de Vítor porque não suportava imaginar outra coisa.
Isso foi uma escolha minha, Ana.
Ela não respondeu imediatamente.
— Eu também tive medo de saber a verdade — admitiu.
— Mas eu era sua filha, pai.
Precisava que você não desistisse tão cedo.
Haroldo ficou quieto.
A desculpa que preparara durante vinte anos perdeu o sentido diante da frase simples.
— Tem razão.
Eu não vou pedir que me perdoe agora.
Ana devolveu a ele a pasta fechada.
— Guarda as cartas até eu sair daqui.
Ainda não consigo ler tudo.
Ao se despedir, Haroldo perguntou se poderia visitá-la no dia seguinte.
Ela assentiu, mas não sorriu.
Pela primeira vez desde o reencontro, ele compreendeu que encontrar Ana e reconquistar sua confiança eram duas coisas diferentes.
E que talvez a segunda demorasse muito mais do que a primeira.
Ela conseguiria construir uma nova relação com o pai sem apagar o passado? A resposta viria na Parte 7.













