— Você fingiria ser meu neto, só por um dia?
Eduardo Matos parou de mastigar. O hambúrguer ficou suspenso entre sua mão e o prato por um instante, até que ele o pousou devagar.
Ao lado da mesa havia uma senhora apoiada em um andador. Seus dedos apertavam as duas alças com tanta força que as juntas pareciam esbranquiçadas. Uma bolsa marrom pequena pendia de seu braço. Ela olhava para Eduardo como quem já esperava ouvir um não.
— Desculpe, a senhora falou comigo? — perguntou ele.
— Falei, sim. Sei que parece estranho.
Eduardo tinha vinte e sete anos e viajava de moto. Estava parando para comer em uma lanchonete à beira de uma rodovia do interior de São Paulo. Já ouvira pedidos de informação, perguntas sobre a motocicleta e conversas de desconhecidos querendo passar o tempo. Nunca alguém lhe havia pedido para emprestar um vínculo de família.
A senhora respirou fundo antes de continuar.
— O dono da casa onde moro quer me tirar de lá. Ele acha que eu não tenho ninguém. Se aparecer alguém dizendo que é meu neto… talvez me escute.
Ela desviou o olhar, constrangida com o próprio pedido. Eduardo percebeu que a mulher não lhe pedia dinheiro nem uma carona. Queria que outra pessoa ficasse ao seu lado quando tivesse de enfrentar alguém que a tratava como se estivesse sozinha no mundo.
Ele empurrou o prato para o centro da mesa e se levantou.
— Tudo bem. Eu ajudo a senhora.
A mulher ergueu a cabeça.
— Você faria isso mesmo?
— Faria. Por um dia, se é disso que precisa.
O rosto dela pareceu se aliviar, embora as mãos ainda tremessem. Eduardo afastou um pouco a cadeira para que ela tivesse espaço com o andador. Era mais baixa do que ele imaginara quando estava sentado, e sua voz quase se perdia no ruído constante da lanchonete.
— Não sei nem como agradecer — disse ela.
— Não precisa.
Mas ela já tentava abrir a bolsa. O fecho resistiu aos dedos trêmulos. Eduardo esperou sem apressá-la. De dentro, a senhora tirou um colar de prata e o estendeu sobre a palma da mão.
— Eu não tenho dinheiro para pagar. Aceite isto, por favor.
Ele levantou a mão, recusando com cuidado.
— Não, senhora. Guarde seu colar. Eu não pedi nada em troca.
O pingente balançou no ar, preso à corrente fina. Era oval, pequeno, com a superfície gasta nas bordas pelo uso. Quando a peça virou, Eduardo viu uma rosa minúscula gravada no verso.
Seu braço parou no meio do movimento.
Ele conhecia aquele desenho.
Sua mãe usava um colar praticamente idêntico. O mesmo formato, a mesma prata sem brilho de peça antiga, a mesma rosa discreta atrás do pingente. Eduardo o tinha visto tantas vezes que reconheceria seus contornos mesmo sem olhar de perto.
Por um segundo, esqueceu o hambúrguer, a moto estacionada lá fora e até o pedido que acabara de aceitar.
— Onde a senhora conseguiu isso? — perguntou, mais baixo.
A mulher examinou o colar como se precisasse se lembrar de que ainda o segurava.
— Foi minha filha que comprou. A Lúcia. Comprou dois iguais, um para mim e outro para ela.
Eduardo sentiu um aperto inesperado no peito.
Lúcia.
Era um nome comum, disse a si mesmo. Podia ser uma coincidência. Um colar parecido também podia ter sido vendido em muitas lojas. Mesmo assim, a combinação da rosa gravada com aquele nome tornou impossível encerrar a conversa como se nada tivesse acontecido.
— A senhora disse Lúcia?
— Disse.
— Minha mãe também usa um colar assim.
A idosa ergueu os olhos. Havia tristeza em seu sorriso, mas ela pareceu ouvir a frase sem compreender a razão de tanta inquietação.
Eduardo tentou continuar, porém a voz falhou antes de sair.
— Lúcia é o nome da minha mãe.
O sorriso da mulher desapareceu.
Ele viu os dedos dela se fecharem instintivamente sobre o pingente, escondendo a pequena rosa. A lanchonete continuava funcionando ao redor dos dois, mas Eduardo já não distinguia os ruídos. Pensava apenas na mãe, na corrente de prata e no modo como aquela senhora havia pronunciado seu nome.
— Como sua mãe se chama? — perguntou ela.
Eduardo sustentou seu olhar.
— Lúcia Matos.
A mulher começou a chorar antes de conseguir responder. As lágrimas escorreram enquanto ela estendia a mão livre e segurava o pulso dele. Não apertou com força. Nem precisava. Eduardo permaneceu imóvel, sentindo que qualquer palavra precipitada poderia quebrar aquele instante.
— O que você disse? — sussurrou ela.
Eduardo não afastou a mão. Com a outra, ajudou a senhora a fechar os dedos ao redor do colar, devolvendo a ela a peça que tentara lhe oferecer em pagamento.
— Minha mãe se chama Lúcia Matos — repetiu.
A senhora o fitou por um longo segundo. Seus olhos procuravam algo no rosto dele, sem que Eduardo soubesse dizer o quê. Quando finalmente falou, a voz saiu tão baixa que ele precisou se inclinar para ouvir.
— A minha Lúcia teve um menino — disse ela. — Disseram para mim que ele tinha morrido.













