— Por favor, minha mãe está morrendo. Este anel é tudo o que a gente tem.
A menina mal alcançava o balcão. Esticava os pés dentro de sapatos gastos, tentando parecer mais alta, e apertava a boca para segurar o choro. O casaco fino não combinava com o frio daquela manhã em Curitiba. Entre os dedos, segurava um anel de ouro que parecia grande demais para uma mão tão pequena.
O rapaz atrás do balcão da loja de joias usadas pegou a peça, deu uma olhada rápida e puxou uma nota da gaveta.
— Cinquenta reais.
Ele a empurrou pela madeira, como se o assunto estivesse encerrado.
A criança olhou para o dinheiro. Depois olhou para o anel. Não protestou, mas seu rosto mudou de um jeito que Haroldo Valença jamais esqueceria: uma mistura de vergonha, medo e desespero, como se tivesse acabado de descobrir que a última esperança da mãe não valia quase nada.
Haroldo estava a poucos passos dali, conferindo as contas do estabelecimento. Já não precisava cuidar pessoalmente de cada venda, mas ainda gostava de saber o que entrava e saía do caixa.
Ao ouvir o preço, fechou o livro de registros com tanta força que os dois se assustaram.
— Dê dois mil e quinhentos reais a ela.
O atendente se virou, pálido.
— Seu Haroldo, mas…
— Agora.
O rapaz abriu novamente a gaveta. A menina olhava de um homem para o outro, sem entender por que, de repente, alguém estava disposto a oferecer tanto por aquilo que ela quase havia entregado por cinquenta reais.
Haroldo estendeu a mão.
— Posso ver esse anel?
Ela hesitou. Então concordou com um movimento tímido de cabeça.
Ele segurou a peça entre os dedos, preparado para avaliar o peso do ouro e o estado da pedra. Era o tipo de coisa que fazia havia anos. Mas, quando girou o aro, percebeu pequenas letras na parte interna.
A gravação estava gasta, embora ainda fosse legível.
Com amor, Valença.
O peito de Haroldo pareceu parar.
Não era apenas o sobrenome. Ele conhecia o formato daquelas letras, a posição delas dentro do aro e a decisão de gravar justamente aquelas palavras. Tinha sido ele quem encomendara a inscrição, trinta anos antes, depois do nascimento de sua filha, Ana.
O anel atravessara uma parte inteira da vida dele.
Quando Ana completou dezoito anos, Haroldo lhe entregara a joia após sua primeira apresentação de dança. Lembrava-se dela ainda ofegante, feliz com os aplausos, e de como ficara surpresa ao abrir a caixinha.
Naquele dia, ele lhe dissera que, se o mundo algum dia a tratasse com crueldade, ela deveria se lembrar de que tinha sido amada mais do que qualquer palavra conseguiria explicar.
Depois, Ana desaparecera.
Vinte anos haviam passado desde que disseram a Haroldo que ela havia sumido. Ele nunca soubera exatamente o que acontecera. A ausência continuava doendo, embora tivesse aprendido a esconder a tristeza atrás da rotina da loja.
Agora a joia estava sobre o balcão, nas mãos de uma criança desconhecida.
Haroldo ergueu os olhos.
— Onde você conseguiu isso?
A menina recuou um passo. A mudança na voz dele a assustara.
— Era do meu avô. Ele deu para a minha mãe.
A resposta não resolveu nada. Só fez surgir outra pergunta, ainda maior. Haroldo respirou fundo para não assustá-la de novo.
— E onde está sua mãe, minha filha?
O queixo da menina tremeu.
— Na Pensão Jardim das Acácias. Quarto doze. Hoje de manhã ela nem conseguiu levantar da cama.
Haroldo procurou o casaco no encosto da cadeira. Precisava ir até lá. Precisava olhar nos olhos daquela mulher antes de acreditar em qualquer coisa que sua cabeça começava a imaginar.
A criança deu mais um passo na direção dele.
— Por favor, vai depressa. Um homem apareceu lá mais cedo. Minha mãe ficou com muito medo dele.
Haroldo parou.
A frase mudou o peso de tudo. Ele não sabia quem era o homem, nem por que sua presença havia aterrorizado uma mulher acamada.
Sabia apenas que a menina estava sozinha pedindo ajuda e que o anel trazia uma marca impossível de ignorar.
Foi então que notou um papel dobrado ao lado da joia.
— Isso também é seu?
A menina olhou, surpresa. Nem tinha percebido que o papel caíra de suas coisas.
Haroldo o abriu com cuidado. Havia um endereço, uma exigência para desocupar o imóvel e um prazo.
Era uma notificação de desocupação.
Seus olhos desceram até a assinatura.
Ele conhecia aquela letra tão bem quanto conhecia a inscrição do anel.
Vítor Valença.













