Haroldo releu a assinatura duas vezes.
Vítor era seu irmão mais novo, o homem a quem confiara contratos, aluguéis e tantas decisões práticas desde o desaparecimento de Ana.
Nos últimos anos, os dois discutiam com frequência sobre o futuro da loja, mas Haroldo nunca imaginara encontrar o nome dele numa ameaça dirigida a uma criança.
— Como você se chama? — perguntou, dobrando novamente a notificação.
— Lia.
— Quantos anos você tem, Lia?
— Dez.
Haroldo sentiu um aperto inesperado.
Se Ana estivesse viva, teria trinta e oito anos.
Uma filha de dez anos caberia perfeitamente naquela história, mas ele se proibiu de transformar uma possibilidade em certeza.
Rafael, o atendente, voltou com o dinheiro contado.
Estendeu as notas na direção da menina, ainda sem entender a ordem do patrão.
— O anel fica aqui? — ela perguntou, recolhendo as mãos.
Haroldo colocou a joia dentro de sua própria caixinha de papel e a devolveu.
— Não estou comprando o anel.
O dinheiro é para sua mãe receber atendimento, e você não precisa me dar nada em troca.
— Mas eu vim vender.
— Eu sei.
Agora precisamos descobrir se ela está bem.
Ele pediu a Rafael que registrasse a retirada como uma despesa pessoal, a ser reposta por ele ao caixa, e pegou o telefone.
Ligou para a pensão, mas ninguém atendeu na primeira tentativa.
Na segunda, uma mulher respondeu e confirmou que a hóspede do quarto doze estava doente.
Quando Haroldo pediu que verificasse se ela conseguia falar, a mulher não hesitou.
— Venha logo, senhor.
Eu já estava pensando em chamar uma ambulância.
A menina apertou a caixinha junto ao peito durante todo o trajeto.
Haroldo dirigiu devagar, apesar da vontade de acelerar.
Não queria assustá-la mais do que ela já estava.
No semáforo, perguntou se a mãe tinha algum parente por perto.
— Ela sempre disse que nós duas éramos uma família inteira.
Mas também disse que meu avô tinha me dado uma coisa antes de eu nascer.
Lia tocou a tampa da caixinha.
— Quando ela fica triste, segura o anel desse jeito.
Ela me contou que ganhou depois de dançar num teatro.
Haroldo prendeu a respiração.
Ana nunca aprendera a esconder a emoção quando falava de dança.
Aquela lembrança, tão pequena e tão específica, fazia mais pela esperança dele do que qualquer semelhança de rosto.
A Pensão Jardim das Acácias ocupava um sobrado antigo numa rua estreita.
Na recepção, uma mulher de cabelos grisalhos se apresentou como Celina, responsável pelo lugar.
Ela levou os dois até a escada sem fazer perguntas.
— O homem que esteve aqui de manhã deixou aquela notificação — disse Celina, apontando para o papel na mão de Haroldo.
— Disse que representava o proprietário do imóvel.
Eu não autorizei ninguém a ameaçar hóspede doente, ainda mais com criança.
— Ele se apresentou como Vítor Valença?
Celina parou no último degrau.
— Apresentou.
E parecia conhecer a moça muito antes de ela chegar aqui.
No quarto doze, o ar tinha cheiro de remédio e roupa úmida.
Uma mulher estava deitada de lado, o rosto quente, os lábios secos e a respiração curta.
Havia uma bacia com água sobre a cadeira, algumas peças de costura numa sacola e uma conta de farmácia aberta ao lado da cama.
Haroldo reconheceu primeiro a linha do queixo.
Depois, uma pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda, lembrança de quando Ana caíra de bicicleta aos nove anos.
Ainda assim, permaneceu imóvel por um instante.
Vinte anos de ausência não podiam ser desfeitos pela simples vontade dele.
— Mamãe, eu trouxe ajuda — disse Lia.
A mulher abriu os olhos com esforço.
Viu a filha e, em seguida, o homem parado perto da porta.
A expressão dela passou da confusão ao espanto.
— Pai?
A palavra saiu quase sem som.
Haroldo se aproximou, mas percebeu que Ana tentava falar e não conseguia terminar a frase.
Ele ligou para o Samu, informou a dificuldade respiratória e passou o telefone a Celina para confirmar o endereço.
— A ambulância está vindo — explicou à menina.
— Não vamos esperar mais.
Lia se sentou na beira da cama e segurou a mão da mãe.
Haroldo encontrou uma cadeira e ficou ao lado delas.
Por um segundo, quis perguntar por que Ana tinha partido, por que não telefonara, por que nunca voltara.
Mas a respiração dela exigia uma pergunta mais urgente.
— Você consegue me ouvir?
Ana assentiu, muito devagar.
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Ele esteve aqui — murmurou.
— Não deixe… levar a sacola.
Haroldo olhou para a sacola de costura no chão.
Antes que pudesse responder, ouviu passos no corredor.
Vítor apareceu à porta, com o mesmo sobretudo escuro que usava nos encontros de negócios.
Celina diria depois que ele voltara para perguntar se a hóspede já havia desocupado o quarto.
Ao ver Haroldo, perdeu por um instante a segurança costumeira.
— Você não devia estar aqui — disse.
Haroldo se levantou.
— É minha filha quem está naquela cama?
Vítor desviou o olhar para Ana e depois para Lia.
— Essa mulher está tentando se aproveitar de você.
Vamos conversar lá fora.
— Não enquanto ela precisa de ajuda.
O som da ambulância chegou da rua.
Celina desceu para abrir o portão aos socorristas.
Vítor avançou um passo na direção da sacola, mas Lia a puxou para perto de si.
— A mamãe pediu para não entregar — disse a menina.
Haroldo se colocou entre o irmão e a criança.
Não gritou nem o tocou.
— Saia do quarto, Vítor.
Os profissionais do Samu entraram com o equipamento e começaram a avaliar Ana.
Haroldo explicou a febre, a falta de ar e o que conseguira descobrir.
Quando a equipe preparou a transferência, ele pediu a Celina que anotasse seus dados e perguntasse à mãe se Lia poderia acompanhá-lo.
Ana conseguiu apertar a mão da filha em sinal de concordância.
Na pressa, a sacola se abriu.
Entre linhas e retalhos, caiu um envelope amarelado com o nome de Ana escrito à mão.
Lia o recolheu e entregou ao avô, dizendo que a mãe guardava aquilo havia muito tempo.
Haroldo abriu o envelope somente quando Ana já estava a caminho da ambulância.
Dentro havia uma carta que mandava a filha nunca mais procurar a família.
Ao final, aparecia uma assinatura feita para parecer a dele.
Mas Haroldo jamais escrevera aquelas palavras.
Por que Ana recebera uma carta com seu nome e sua rejeição? A resposta começa na Parte 3.













