“TIREM ESSE CACHORRO IMUNDO DA MINHA CASA! ELE ESTÁ VELHO, NÃO SERVE PARA NADA E JÁ DEVERIA TER SIDO SACRIFICADO!”
Vanessa Bellini gritou tão alto que os quarenta convidados pararam de conversar.
Ela apontava para Bruno, um pastor-alemão de quatorze anos que estava deitado ao lado dos meus pés.
“Ou esse cachorro sai hoje, ou você vai embora junto com ele.”
Eu ainda estava usando meu uniforme preto de empregada. Minhas mãos tremiam, mas não saí do lugar.
“Senhora, por favor. O Bruno não fez mal a ninguém.”
Vanessa soltou uma risada debochada.
“Ah, não? Ele quase me mordeu hoje à tarde!”
“Ele nunca mordeu ninguém.”
“Você está me chamando de mentirosa?”
Meu nome é Emma Souza. Tenho vinte e cinco anos e trabalho há treze meses na mansão da família Moretti, no Jardim Europa, em São Paulo.
Meu patrão, Luca Moretti, era um homem poderoso, dono de vários negócios e com ligações perigosas no mundo do crime.
Eu precisava daquele emprego.
Meu pai havia se mudado recentemente para uma instituição de cuidados para idosos. O plano de saúde não cobria todas as despesas, e eu pagava o que faltava.
Mas Bruno não era apenas mais uma responsabilidade da casa.
Ele tinha sido o último presente que a falecida esposa de Luca deixara para ele.
Todas as noites, o velho cachorro dormia diante do quarto de Lily, a filha de nove anos do meu patrão.
Vanessa estalou os dedos na direção dos seguranças.
“Levem esse bicho daqui.”
Bruno tentou se levantar.
Suas patas traseiras tremeram tanto que ele precisou fazer força para não cair.
Ajoelhei-me imediatamente ao lado dele.
“Calma, meu querido. Estou aqui.”
Vanessa fez uma expressão de nojo.
“Olhem só! Mal consegue andar.”
Alguns convidados desviaram os olhos.
Então uma voz infantil veio da escada.
“Por favor, não levem o Bruno.”
Lily Moretti estava descalça, usando uma camisola rosa. Seu rosto estava molhado de lágrimas.
Vanessa virou a cabeça.
“Lily, volte para o seu quarto.”
“Mas ele não fez nada!”
“Lily!”
A menina se encolheu ao ouvir o grito.
Foi nesse instante que Luca Moretti entrou na sala.
Ele tinha trinta e cinco anos, cabelos escuros e vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente ajustado.
Sua presença foi suficiente para calar os convidados.
Luca olhou para a filha, depois para Bruno e finalmente para mim.
“O que está acontecendo aqui?”
Vanessa correu até ele.
“Amor, ainda bem que você chegou! Sua empregada está se recusando a obedecer. Aquele animal me atacou, e ela insiste em protegê-lo.”
Luca não respondeu.
Aproximou-se de Bruno e se agachou.
O velho pastor-alemão apoiou delicadamente o focinho grisalho no joelho dele.
“Oi, meu velho amigo.”
Por um instante, a expressão de Luca se suavizou.
Então ele ergueu os olhos.
“Vanessa, onde ele te mordeu?”
Ela hesitou.
“Ele avançou em mim. Consegui desviar.”
“Você disse que ele te atacou.”
“E atacou!”
“Onde aconteceu?”
“No corredor do andar de cima.”
Meu coração disparou.
Eu tinha encontrado Bruno naquele corredor algumas horas antes.
Ele choramingava e arranhava a porta do quarto de Lily.
Vanessa havia me ordenado que o levasse imediatamente para o andar de baixo.
Luca se voltou para a filha.
“Lily, você viu o que aconteceu?”
A menina olhou para Vanessa.
“Luca, ela só tem nove anos”, interrompeu a noiva. “Crianças confundem as coisas.”
“Eu perguntei à minha filha.”
Lily começou a chorar.
“Papai, o Bruno estava tentando me proteger.”
A sala ficou completamente silenciosa.
“Proteger você de quê, meu amor?”
Vanessa deu um passo à frente.
“Chega! Essa empregada está colocando coisas na cabeça dela.”
Eu me levantei.
“Não, senhora.”
Todos se viraram para mim.
“Eu não disse nada para a Lily.”
Vanessa estreitou os olhos.
“É melhor você se lembrar de quem paga seu salário.”
Minha garganta apertou.
Pensei nas despesas do meu pai e no emprego que eu podia perder.
Mas Lily continuava olhando para mim.
“Senhor Moretti, sua filha está assustada todas as noites em que o senhor fica fora.”
Luca se endireitou lentamente.
“Há quanto tempo?”
“Quase três semanas.”
“Por que ninguém me contou?”
“Porque Vanessa dizia que Lily estava fazendo birra. Ela ameaçou me demitir se eu me metesse.”
Vanessa pegou a bolsa.
“Isso é um absurdo! Não vou ficar aqui sendo insultada por uma empregada.”
“Coloque a bolsa no lugar”, Luca disse, sem levantar a voz.
Ela parou imediatamente.
Ele voltou a atenção para Lily.
“Filha, o que aconteceu lá em cima?”
A menina enxugou o rosto.
“O Bruno começou a latir quando aquele homem chegou.”
O olhar de Luca mudou.
“Que homem?”
Vanessa ficou pálida.
“Lily, querida, lembra do que nós conversamos?”
Os ombros da menina começaram a tremer.
Aproximei-me dela.
Luca encarou Vanessa.
“Não fale com a minha filha.”
Então Lily disse algo que jamais vou esquecer.
“Papai, eu não queria chamar ele daquele jeito. Eu disse para a Vanessa que já tenho um papai.”
Ninguém se mexeu.
Luca se ajoelhou diante da filha.
“Chamar ele de quê, meu amor?”
Lily olhou para Vanessa.
“Ela disse que eu tinha que treinar para chamar aquele homem de papai antes de você ir embora.”
O rosto de Luca ficou completamente imóvel.
Eu nunca tinha visto meu patrão daquela maneira.
Então Lily sussurrou mais uma coisa.
“E, papai… ele disse para a Vanessa que, depois de domingo, você nunca mais ia voltar para casa.”
Senti um frio percorrer meu corpo.
Domingo era o dia do casamento de Luca e Vanessa.
E faltavam apenas três dias.













