Meu gerente me demitiu por causa de R$ 34,90.
E, enquanto ele dizia que eu estava dispensada, o senhor para quem eu tinha comprado o jantar continuava sentado à mesa sete, comendo devagar, com as mãos trêmulas.
Eu tinha apenas dezoito anos.
Até aquela noite fria de julho, acreditava que trabalhar direito e tratar as pessoas com respeito era suficiente para manter meu emprego.
Descobri que estava enganada.
Meu nome é Emília Batista. Havia onze meses eu trabalhava no Restaurante Estação da Serra, em São José dos Pinhais, no Paraná.
Não era um lugar sofisticado. Famílias apareciam nos fins de semana, motoristas paravam para tomar café e alguns aposentados tinham suas mesas preferidas.
Minha mãe trabalhava em uma casa de repouso. Entre o salário dela e o meu, conseguíamos pagar o aluguel, comprar comida e manter as contas quase em dia.
Eu ainda sonhava em entrar na faculdade.
Naquela noite, chovia e fazia muito frio. Eram quase seis horas quando um senhor entrou no restaurante usando um casaco marrom gasto e um cachecol de lã.
Seus cabelos grisalhos estavam úmidos.
— Boa noite, senhor. Prefere uma mesa perto da janela?
— Se não for incômodo, minha filha.
Levei-o até a mesa sete.
Ele se apresentou como Francisco.
Entreguei o cardápio e sugeri o prato de carne assada com purê, molho e vagem.
Francisco olhou diretamente para os preços.
Depois tirou algumas notas amassadas da carteira e começou a contá-las discretamente.
Conhecia aquele gesto.
Minha mãe fazia exatamente a mesma coisa no supermercado quando precisava decidir o que deixar para a próxima semana.
Quando voltei, Francisco fechou o cardápio.
— Moça, qual é a sopa mais barata?
Expliquei que tínhamos um caldo de legumes.
Ele concordou, mas seus olhos acompanharam o prato de carne assada que outro funcionário levava para uma mesa.
— O senhor prefere a carne, não é? — perguntei.
Ele sorriu sem graça.
— Hoje meu bolso e minha vontade não estão se entendendo.
Aquela resposta apertou meu coração.
— Sou Emília. E acho que podemos resolver isso.
Expliquei que funcionários tinham desconto em determinadas refeições e que eu poderia comprar o prato usando meu próprio dinheiro.
Francisco recusou imediatamente.
— Você trabalha duro por esse dinheiro, menina. Não vou aceitar.
Contei que ajudava minha mãe em casa e estava juntando o que podia para estudar.
— Então precisa desse dinheiro mais do que eu — respondeu.
Mas eu insisti.
— O senhor não precisa me devolver nada. Só aceite jantar quentinho.
Pela primeira vez, ele sorriu de verdade.
No caixa, registrei o prato com meu desconto de funcionária.
O preço normal era R$ 69,80. Com o desconto, ficou por R$ 34,90.
Paguei com meu cartão.
Eu tinha R$ 467,00 na conta. Aqueles R$ 34,90 fariam falta, mas não consegui me arrepender.
Quando servi a comida, Francisco ficou olhando para o prato por alguns segundos.
— Você não precisava fazer isso.
— Eu sei.
— É justamente por isso que significa tanto.
Enquanto jantava, ele me perguntou sobre a faculdade e meus planos.
Contei que gostava de administração e de entender como resolver problemas.
Francisco pareceu interessado.
— Um negócio deveria começar identificando o que está errado, antes que todo mundo se acostume com o problema — disse ele.
Foi então que uma voz interrompeu nossa conversa.
— Emília, posso saber o que está acontecendo aqui?
Era Dário Costa, o gerente.
Seus olhos foram diretamente para o comprovante do desconto que aparecia no bolso do meu avental.
— Você usou o desconto de funcionário para esse cliente?
— Usei, mas paguei com meu dinheiro.
— Me dê o comprovante.
Entreguei.
Ele examinou o valor.
— Na minha sala. Agora.
Francisco ergueu a cabeça.
— Aconteceu alguma coisa?
— Um assunto interno, senhor — respondeu Dário.
Segui meu gerente até o escritório.
Ele colocou o comprovante sobre a mesa.
— Quem autorizou você a dar desconto para um cliente?
Expliquei tudo.
— Ele estava com fome. Eu paguei o prato inteiro com o meu cartão.
— Esse desconto é para funcionários.
— Eu posso pagar a diferença.
— Não é esse o problema.
Três semanas antes, Dário já havia me advertido porque deixei uma senhora esperar o ônibus dentro do restaurante, protegida da chuva gelada, sem consumir nada.
Agora ele usava aquele episódio contra mim.
— É a segunda vez que você desobedece às regras.
Ele abriu uma gaveta e tirou um formulário.
— Emília Batista, você está demitida. A partir de agora.
Fiquei olhando para ele.
— Por causa de R$ 34,90?
— Porque você não segue ordens.
Pensei na minha mãe.
Nas contas atrasadas.
Na faculdade que talvez precisasse adiar.
Assinei o documento com as mãos tremendo, entreguei o avental e saí do escritório tentando não chorar.
Francisco ainda estava na mesa sete.
Ao me ver carregando o uniforme dobrado, percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido.
— Emília? O que houve?
Antes que eu respondesse, Dário apareceu.
— Já pedi que você fosse embora.
Francisco se levantou devagar.
— O senhor demitiu essa moça porque ela me comprou um jantar?
— É um assunto interno.
— Então me responda uma coisa: quanto o restaurante realmente perdeu?
Dário mostrou o comprovante e falou sobre as regras.
Francisco continuou calmo.
— E ela pagou com o próprio dinheiro?
— Pagou. Mas isso não muda nada.
Ele perguntou por que eu já havia recebido outra advertência.
Contei sobre a senhora que esperava o ônibus na chuva.
Francisco olhou para Dário por alguns segundos.
— É assim que este restaurante espera que seus funcionários tratem as pessoas?
Meu gerente respondeu, irritado:
— Com todo o respeito, sou eu quem administra este lugar.
— Sim — disse Francisco. — Estou percebendo.
Depois, ele virou para mim.
— Emília, você ajuda sua mãe a pagar as contas?
Assenti.
Ele retirou um papel antigo do bolso.
— Pode escrever seu telefone aqui?
Não entendi o motivo, mas escrevi.
Francisco dobrou o papel e guardou cuidadosamente na carteira.
— Obrigado, minha filha.
Saí para a noite gelada.
A chuva atingia o estacionamento, e eu mal conseguia enxergar através das lágrimas.
Já estava perto do carro quando percebi que havia esquecido minhas chaves na área dos funcionários.
Voltei até a entrada.
Foi quando olhei pela janela.
Francisco estava em pé ao lado da mesa sete.
Não parecia mais o senhor cansado que contava notas amassadas poucos minutos antes.
Seus ombros estavam retos. Seu rosto, sério.
Ele segurava um pequeno celular de flip prateado junto ao ouvido.
Falou alguma coisa que não consegui escutar através do vidro.
Atrás do balcão, Dário observava a cena.
E, pela primeira vez naquela noite, meu gerente parecia inseguro.
Francisco encerrou a ligação, fechou o aparelho e o guardou no casaco.
Uma colega me entregou as chaves esquecidas.
Voltei para o carro sem entender nada.
Eu ainda não sabia para quem Francisco havia ligado. Muito menos que aquela ligação estava prestes a mudar tudo.













