A resposta chegou numa segunda-feira, oito dias depois da demissão.
Patrícia pediu que eu voltasse à administração regional para conhecer as conclusões preliminares sobre meu desligamento.
Eu ainda não havia encontrado outro emprego.
Tinha enviado currículos para uma farmácia, duas lojas e uma empresa de entregas, mas nenhuma delas respondera.
Minha mãe me acompanhou até a entrada e apertou minha mão.
— O que acontecer lá dentro não define quem você é — disse.
— Mas escute com atenção o que eles estão dispostos a colocar no papel.
Encontrei Marta, Patrícia e Dário numa sala maior do que a primeira.
Francisco não estava presente.
A princípio, aquilo me desapontou.
Depois compreendi que talvez fosse melhor ouvir a explicação do gerente sem um fundador sentado à mesa.
Dário parecia mais velho.
Os olhos estavam vermelhos e o colarinho da camisa, amassado.
Ainda assim, quando me viu, sua primeira reação foi endireitar as costas.
— Não achei que uma compra pequena chegaria a esse ponto — disse.
Patrícia abriu a reunião explicando o resultado da conferência financeira.
A venda da mesa sete fora processada regularmente por R$ 34,90, com aprovação do cartão.
O benefício tinha sido aplicado fora da finalidade prevista, mas não houve retirada de dinheiro nem refeição entregue sem registro.
O relatório posterior chamara a diferença entre o preço cheio e o valor pago de “prejuízo não recuperado”.
A expressão não descrevia o que ocorrera.
O restaurante recebera dinheiro pela refeição, e uma eventual perda de margem precisava ser analisada de outra maneira.
— O senhor tinha acesso ao extrato central? — perguntou Marta a Dário.
— Tinha, mas eu precisava informar os desvios à direção.
— Informar um desvio não autoriza mudar a natureza da operação.
Ele ficou em silêncio.
Pela primeira vez, não parecia capaz de encerrar uma conversa apenas porque era o gerente.
Patrícia passou ao segundo registro.
A advertência pela senhora que aguardara o ônibus havia sido lançada como se eu permitisse circulação indevida numa área de trabalho.
O relato de Dalva e as imagens do salão mostravam que a mulher permanecera perto da entrada, sem interromper a atividade.
A empresa decidiu retirar aquela advertência do meu histórico.
Fiquei com vontade de abraçar Dalva.
Talvez ela nunca soubesse quanto significava ter confirmado um detalhe que todos poderiam considerar pequeno.
— E a demissão? — perguntei.
Patrícia explicou que o motivo anotado no controle interno não correspondia à comunicação entregue a mim.
A classificação de falta grave fora incluída depois, sem a análise necessária.
O registro seria corrigido, e os documentos do desligamento seriam reavaliados conforme os procedimentos aplicáveis.
Ela não prometeu uma solução mágica para cada prejuízo que eu sofrera.
Prometeu uma resposta escrita, com os valores e as providências identificados.
— Eu assinei porque estava com medo — falei.
— Não porque concordasse que tinha feito tudo aquilo.
Dário abaixou a cabeça.
Então tentou justificar os relatórios.
Disse que as metas de desperdício haviam aumentado, que os superiores cobravam explicações e que ele acreditava estar ensinando disciplina à equipe.
Cada desconto fora das regras virava, para ele, uma demonstração de fraqueza na gestão.
— Se eu abrisse exceção para uma pessoa, todos fariam o mesmo — argumentou.
— O senhor podia ter me pedido para pagar a diferença — respondi.
— Ou ter aplicado uma orientação clara, sem dizer que eu tinha causado uma perda que não aconteceu daquela forma.
Minha voz saiu firme.
Não precisei gritar.
Marta informou que também seriam revisadas as ocorrências de Talita e de outros funcionários, preservando a privacidade de cada um.
Dário seria afastado temporariamente das funções de gestão enquanto a apuração prosseguia.
A decisão definitiva sobre sua conduta viria depois de ele ser ouvido e de todos os documentos serem examinados.
Quando a reunião acabou, ele me chamou no corredor.
Eu parei a alguns passos, perto da porta aberta.
— Emília, eu não queria arruinar sua vida.
Olhei para o homem que, uma semana antes, segurara meu comprovante como se minha palavra não valesse nada.
— Talvez o senhor não quisesse — respondi.
— Mas sabia que meu salário pagava contas.
E mesmo assim não me deixou terminar de explicar.
Ele abriu a boca, mas não encontrou uma resposta.
Saí sem sentir vitória.
Apenas um cansaço profundo.
Naquela tarde, recebi uma mensagem de Talita.
Ela havia sido entrevistada e apresentado os números da transação do vale-refeição.
A administração confirmara que o segundo pagamento estava registrado.
Ainda não havia decisão final sobre o caso dela, mas, pela primeira vez, ninguém lhe pedia que assinasse um relatório sem acesso aos dados.
Contei a novidade à minha mãe quando ela voltou do trabalho.
Rosa tirou os sapatos na porta, apoiou os pés inchados numa almofada e me escutou sem interromper.
— Você ganhou o emprego de volta? — perguntou no fim.
— Não sei.
Eles falaram em corrigir o desligamento, mas não explicaram ainda como ficaria minha situação.
Ela segurou minha mão.
— Então ainda não terminou.
Dois dias depois, Marta telefonou.
A empresa reconhecera que a forma do meu desligamento fora inadequada e propunha uma reunião para tratar da regularização documental, dos valores devidos e de uma possível reintegração.
Repetiu que a compra com desconto para um cliente continuava sendo uma infração à regra vigente.
A diferença estava na resposta dada a ela e nas informações usadas para justificar a punição.
— Você não é obrigada a aceitar voltar — acrescentou.
— Precisamos saber o que deseja antes de encaminhar uma proposta.
Pensei no salão, nos clientes e em Dalva chamando meu nome da cozinha.
Pensei também no corredor estreito até a sala de Dário, onde eu assinara o papel com as mãos tremendo.
Eu amava servir gente, mas não tinha certeza de conseguir entrar de novo naquele lugar sem sentir medo.
— Posso visitar a unidade antes de decidir?
— Podemos organizar isso sem sua presença ser uma surpresa para ninguém.
Desliguei e fiquei olhando para o caderno de gastos.
Havia feito de tudo para manter um emprego.
Agora que talvez pudesse recuperá-lo, precisava responder a uma pergunta nova, mais difícil que qualquer formulário.
Eu queria apenas voltar ao ponto em que estava antes ou finalmente escolher um caminho em que minha voz também tivesse valor?
A decisão que eu tomei ao retornar ao Estação da Serra está na Parte 6.













