— Nunca vi essa mulher — disse meu marido.
Ela tirou uma chave da bolsa, abriu a porta da nossa casa e perguntou:
— Vai continuar mentindo?
O clique da fechadura pareceu mais alto que a voz dela.
Meu nome é Fernanda. Eu estava voltando da padaria, em Curitiba, quando encontrei Renato diante do portão, bloqueando a passagem de uma mulher que eu nunca tinha visto. Ele estava de chinelos, com a camiseta que usava em casa. Ela segurava uma bolsa de lona e tinha os cabelos cacheados presos às pressas.
Renato não olhava para mim. Olhava para a chave.
— Quem é você? — perguntei.
— Beatriz. Desculpa aparecer assim.
— Não precisa se desculpar — Renato interrompeu. — Você já vai embora.
Ele tentou fechar a porta, mas coloquei a sacola de pão sobre o aparador e segurei a maçaneta.
— Essa chave abre a nossa casa. Não é uma conversa que vai terminar na calçada.
Morávamos ali havia quatro anos. Depois de uma tentativa de arrombamento na rua, eu havia insistido para que mantivéssemos apenas três chaves: a minha, a dele e uma reserva, guardada numa caixa na gaveta da cozinha.
Reconheci a proteção verde de borracha na chave de Beatriz. Eu mesma a tinha colocado para diferenciá-la das outras.
— De onde você tirou isso?
Beatriz olhou para Renato, como se ainda esperasse que ele dissesse a verdade.
— Foi ele quem me entregou. Aqui mesmo, neste corredor.
Meu marido balançou a cabeça.
— Ela está confundindo as coisas.
— Foi numa quinta-feira — Beatriz respondeu. — Você pediu que eu viesse depois das sete, quando a Fernanda já tivesse viajado.
Senti o rosto esquentar. No mês anterior, eu passara cinco dias em Londrina ajudando minha irmã a organizar uma mudança. Renato havia dito que ficaria sozinho. Mandara mensagens todas as noites, perguntando como eu estava.
— Você entrou aqui enquanto eu estava fora? — perguntei.
— Entrei. Duas vezes.
Renato passou a mão no rosto.
— Fernanda, por favor. A gente conversa lá dentro.
— É exatamente o que estou tentando fazer.
Abri a porta por completo e convidei Beatriz a entrar. Foi uma decisão pequena, mas eu sabia o que custava: Renato tinha um jeito de se calar por dias quando se sentia contrariado. Naquele momento, preferi enfrentar o silêncio dele a aceitar uma mentira diante dos meus olhos.
Na sala, Beatriz não se sentou. Ficou perto da entrada, segurando a alça da bolsa com força.
— Eu vim devolver a chave — disse. — Não quero mais entrar escondida na casa de ninguém.
Ela a colocou sobre a mesa.
Renato estendeu a mão para recolhê-la. Fui mais rápida.
— Se você não a conhece, como ela sabe que estive em Londrina?
Ele fixou os olhos no chão.
— Eu ia te contar.
— Quando?
Não respondeu.
Beatriz respirou fundo.
— Renato me pediu para trazer uma pessoa aqui. Era só por alguns dias, até ele resolver onde ela ficaria. Eu aceitei porque achei que você soubesse.
— Que pessoa?
Beatriz apertou os lábios.
— Minha mãe.
Por um instante, imaginei alguma explicação simples: uma senhora sem lugar para ficar, uma ajuda que Renato não soubera me pedir. Não entendia por que ele mentiria por isso.
— Sua mãe ficou aqui?
— No quarto de hóspedes. Eu trouxe uma mala pequena e os remédios que ela usa. Depois voltei para buscá-la.
Olhei para o corredor. O quarto de hóspedes estava arrumado, a colcha esticada, a janela fechada. Lembrei que, quando voltei de viagem, encontrei um copo de vidro fora do jogo que costumávamos usar. Renato disse que tinha quebrado outro copo e comprado um avulso. Eu tinha rido.
Agora não tinha vontade de rir.
— E por que você veio hoje? — perguntei.
— Porque precisava devolver a chave. E porque minha mãe me pediu que entregasse uma coisa a ele.
Beatriz abriu a bolsa e tirou uma pequena peça de tricô amarelo: uma das luvas de um par, feita para mãos pequenas. Não a colocou na mesa; segurou-a como quem segura alguma coisa frágil.
— Era dele, quando criança — explicou.
Renato ergueu a cabeça de repente.
— Guarda isso.
— Você disse que não a conhecia — respondi. — Mas conhece essa luva.
Ele se sentou, finalmente, sem erguer os olhos.
Eu sabia pouquíssimo sobre a infância de Renato. Ele dizia que a mãe tinha morrido quando ele tinha quinze anos e que o pai não falava mais dela. Sempre que eu perguntava, sua resposta era a mesma: “Não vale a pena mexer nisso”.
Olhei para Beatriz.
— Sua mãe se chama Lúcia?
Ela assentiu.
Meu coração começou a bater mais depressa. Lúcia era o nome que Renato tinha me dado quando falávamos da mãe dele, muitos anos antes.
— Não pode ser — falei. — A mãe do Renato morreu há vinte e cinco anos.
Beatriz me encarou, confusa de verdade.
— Morreu?
Renato fechou os olhos.
A mulher deixou a luva sobre a mesa, ao lado da chave verde.
— Fernanda, eu não sei que história ele contou para você. Mas a Lúcia está viva. Foi ela quem dormiu no seu quarto de hóspedes no mês passado.
Esperei que Renato negasse. Que dissesse que havia dois nomes iguais, duas mulheres, um mal-entendido qualquer.
Ele não disse nada.
— E tem mais uma coisa — Beatriz acrescentou, com a voz falhando. — Eu a levei embora antes de você voltar porque ele me pediu.
Olhei para o homem com quem dividia a vida havia nove anos.
— Renato, por que você me fez acreditar que sua mãe estava morta?
Ele levou as mãos ao rosto.
— Porque você não sabe o que aconteceu quando eu era menino.
A chave verde continuava no centro da mesa.
Pela primeira vez, tive medo não da mulher que havia entrado na nossa casa, mas da história que meu marido tinha mantido do lado de fora.













