Renato não pediu a resposta na porta.
Esperou Lúcia e Beatriz entrarem no carro, fechou o portão e voltou para a sala com as cartas debaixo do braço.
— Ela falou com meu pai e nunca me contou — disse, como se eu tivesse sido a responsável por aquela conversa.
— Ela acabou de contar. Você pode perguntar quando estiver pronto.
— Você não entende. Meu pai ficou comigo quando ela não ficou. Trabalhou até tarde, me levou às consultas, pagou meus estudos. Agora tudo o que ele fez parece uma mentira.
— O que ele fez por você não desaparece. E o que escondeu também não.
Aquela foi nossa primeira discussão verdadeira desde a chegada de Beatriz.
Renato queria que eu tomasse partido de imediato; eu queria que ele deixasse de confundir cuidado com permissão para mentir.
Ele foi dormir no quarto de hóspedes naquela noite, sem que eu pedisse.
Na manhã seguinte, encontrei a caixa de documentos de Augusto no corredor da garagem. Estava ali desde o falecimento dele, seis meses antes, quando Renato trouxera alguns papéis e fotografias do apartamento do pai.
Nunca a abrimos juntos. Eu tinha respeitado o luto dele.
Dessa vez, perguntei se queria fazer isso comigo.
— Não estou procurando uma prova contra seu pai — expliquei. — Quero saber se existe alguma coisa que ajude a entender o que vocês dois viveram.
Renato concordou, mas pediu que não mexêssemos em pastas de trabalho sem necessidade.
Passamos a manhã separando contas antigas, receitas médicas e documentos de um carro já vendido. Encontramos retratos de Renato na formatura, cartões de aniversário e um bilhete em que Augusto lembrava o filho de pagar uma taxa da faculdade.
Tudo aquilo mostrava uma relação que tinha sido real.
Por isso a descoberta seguinte foi tão difícil.
Dentro de um livro de receitas de família havia um envelope fechado, endereçado a Renato. O remetente era Lúcia, com um endereço de Campo Largo. A data do carimbo era 2005.
Naquele ano, Renato já tinha dezenove anos.
— Você conhece essa letra? — perguntei.
Ele reconheceu imediatamente o nome.
— Não. Nunca vi isso.
Não abrimos o envelope naquele instante.
Renato o segurou durante vários minutos, depois telefonou para a tia Celina, irmã mais velha de Augusto, que ainda morava em Ponta Grossa.
Pôs a ligação no viva-voz.
— Tia, você sabia que a Lúcia estava viva quando o pai me disse que ela tinha morrido?
Do outro lado houve uma pausa longa.
— Renato, seu pai fez muita coisa errada, mas criou você com sacrifício.
— Não foi isso que perguntei.
Celina começou a chorar.
Contou que Augusto a procurara após a separação, pedindo que repetisse a história do acidente se o menino perguntasse. Disse que, na época, acreditou que proteger Renato de mais uma briga era o melhor a fazer.
— E quando eu tinha dezenove anos? — ele perguntou. — Você ainda achava que eu precisava dessa proteção?
A tia não respondeu.
Renato terminou a chamada antes que ela encontrasse uma desculpa.
Pegou o telefone novamente, abriu a lista de contatos e ficou olhando o nome da tia. Celina estivera presente em aniversários, viagens de férias e no dia em que ele recebeu o diploma. Sempre dissera que Augusto havia sido pai e mãe ao mesmo tempo.
— Eu achava que ela repetia isso porque tinha orgulho dele — Renato falou. — Agora não sei se estava agradecendo por ele ter conseguido esconder tudo.
— Você pode perguntar a ela quando quiser — respondi. — Mas não precisa aceitar uma resposta só porque ela é sua tia.
Ele bloqueou a tela. Não apagou o número.
Eu me sentei ao lado dele no chão frio da garagem.
— Você não tem de decidir agora como vai se lembrar do seu pai.
Ele encostou a cabeça na parede.
— Durante vinte e cinco anos achei que a morte dela tinha sido o pior dia da nossa vida. Eu nem sabia que aquele dia foi inventado.
À tarde, Renato abriu a carta.
Lúcia escreveu que não queria discutir com Augusto, que desejava ver o filho por alguns minutos e que, se ele não aceitasse, respeitaria uma resposta dada por ele próprio. Incluiu um número de telefone e pediu que ele não se sentisse obrigado a escolher entre os pais.
Não havia ameaça, pedido de dinheiro ou acusação.
Abaixo da assinatura, Augusto fizera uma anotação a caneta: “Não entregar. Assunto encerrado.”
Renato releu aquelas quatro palavras várias vezes.
— Ele guardou isso por vinte e um anos.
— Guardou — respondi.
— E eu nunca soube que podia dizer sim ou não.
Foi a primeira vez que ele nomeou o que lhe tinham tirado: a possibilidade de escolher.
Em vez de procurar outro documento, Renato pegou o telefone e enviou uma mensagem a Lúcia. Pediu que contasse sobre o encontro com Augusto, sem resumir nem protegê-lo.
Ela respondeu que podia falar naquela noite, por telefone, mas que preferia fazê-lo diante dele.
Concordamos em nos encontrar no domingo, numa praça perto de Campo Largo, onde Lúcia costumava caminhar com Beatriz.
Antes de guardar a caixa, Renato encontrou um desenho antigo feito por ele, representando um caminhão amarelo diante de uma casa azul. Augusto havia escrito atrás: “Meu filho, meu orgulho.”
Ele colocou o desenho ao lado da carta interceptada.
— Como é que eu guardo as duas coisas na mesma memória? — perguntou.
Não soube responder.
Na noite de sábado, Renato contou algo que eu ainda desconhecia.
— Quando a Lúcia ficou aqui no mês passado, ela me pediu para ouvir a versão dela sobre meu pai. Eu disse que não queria. Depois pedi que fosse embora. Não foi só medo de você descobrir.
— Então por quê?
— Porque eu preferi ficar com o homem que conhecia, mesmo depois de descobrir que ela estava viva.
Era a primeira admissão que não colocava toda a culpa em Augusto.
Eu disse que iríamos ao encontro, mas que ele teria de ouvir sem tentar transformar a dor em sentença.
No domingo, antes de sairmos, o telefone dele tocou.
Era uma mensagem de Beatriz: “Minha mãe levou a cópia do papel que assinou quando você tinha quinze anos. Você precisa ver com seus próprios olhos.”
Renato me mostrou a tela.
— Que papel seria esse? — perguntou.
A resposta estava nos esperando. Continue na Parte 5.













