Lúcia chegou dois dias depois, numa manhã de garoa, acompanhada por Beatriz.
Dessa vez fui eu quem abriu a porta.
Renato estava sentado na sala, com as mãos entre os joelhos, como se esperasse uma notícia difícil do médico.
A mulher diante de mim tinha cabelos grisalhos presos num coque simples, uma pasta de papel debaixo do braço e uma expressão cansada.
Eu a reconheci da fotografia, embora o tempo tivesse mudado quase tudo em seu rosto.
— Sou Fernanda — falei.
— Eu sei. Desculpe por ter entrado na sua casa sem você saber.
Não havia como responder que estava tudo bem.
— Entre. Hoje ninguém vai precisar esconder que está aqui.
Lúcia assentiu e caminhou devagar até a sala.
Quando viu Renato, parou. Ele se levantou, mas os dois permaneceram separados pelo espaço entre o sofá e a mesa.
— Oi, filho — ela disse.
— Oi, Lúcia.
Percebi o esforço que fizera para trocar a palavra mãe pelo nome próprio. Lúcia percebeu também, mas não protestou.
Beatriz se sentou ao meu lado.
Lúcia abriu a pasta e tirou cinco envelopes amarelados, presos por um elástico gasto. Alguns tinham carimbos dos Correios; outros estavam marcados com anotações feitas à mão.
— Guardei os que voltaram para mim — explicou. — Há outros que nunca soube se chegaram.
Renato pegou o primeiro, datado de março de 2002.
Era dirigido a uma casa em Ponta Grossa, onde ele já não morava àquela altura. No verso havia uma anotação: destinatário mudou-se.
— Em novembro nós fomos para Curitiba — ele disse. — Papai falou que precisava começar de novo.
— Eu não sabia para onde vocês tinham ido. Procurei na escola, mas já tinham pedido sua transferência. Uma vizinha me passou o endereço antigo de uma tia sua. Escrevi para lá também.
Renato examinou outro envelope.
— Você escreveu no meu aniversário de dezesseis anos? — perguntou.
Lúcia procurou entre as folhas e encontrou um cartão ainda dentro do plástico de uma papelaria. Havia um desenho de bicicleta na frente e, no verso, uma frase que desejava saúde ao filho. O endereço fora riscado duas vezes antes de ela desistir de postá-lo.
— Comprei isso sem saber onde você estava — explicou. — Guardei porque não queria fingir que aquele dia não tinha existido.
Renato passou o dedo pelo número dezesseis escrito em tinta azul. Não sorriu. A tristeza dele parecia ter encontrado uma data concreta, uma tarde inteira que nenhum dos dois poderia recuperar.
— Você podia ter me procurado pessoalmente.
Lúcia passou a mão pela borda da pasta.
— Devia ter tentado mais vezes. Fui à casa da sua tia duas vezes. Ela disse que você não queria me ver. Eu tive medo de ir embora da cidade e causar mais confusão na sua vida.
— Que confusão? Eu achava que você estava morta.
A pergunta ficou entre os dois.
Lúcia contou que, na noite da discussão, Augusto havia quebrado sua máquina de costura e ameaçado levar Renato para longe se ela o denunciasse. Ela procurou abrigo na casa de uma colega e, no dia seguinte, tentou voltar para buscar o filho.
— Ele já tinha saído com você. Disse por telefone que, se eu aparecesse perto da escola, faria você acreditar que eu tinha abandonado os dois. Eu não sabia que ele diria que eu morri.
Renato riu sem humor.
— Então você foi embora por causa de uma ameaça?
— Fui embora porque estava com medo, e porque achei que conseguiria voltar com ajuda. Não consegui. Não vou chamar isso de escolha certa.
Ela não ergueu a voz nem pediu que ele acreditasse.
Mostrou um papel dobrado, cópia de um registro feito naquela semana numa delegacia de Ponta Grossa. Constavam seu nome, a data e a informação de que relatara ameaças do companheiro.
— Isso prova que eu procurei ajuda naquele dia — disse Lúcia. — Não prova que fui boa mãe depois.
A franqueza fez Renato desviar o rosto.
Eu quis perguntar por que ela não tinha ido à Justiça, por que não procurara amigos, por que não insistira até encontrá-lo. Acabei perguntando algo mais simples:
— O que aconteceu quando ele fez dezoito anos?
Lúcia tirou outro envelope, sem carimbo.
— Consegui um endereço em Curitiba. Escrevi, mas não postei. Uma pessoa me disse que Renato tinha pedido para não ser procurado. Eu acreditei porque era mais fácil acreditar nisso do que arriscar que ele me mandasse embora pessoalmente.
Renato apertou a mão contra a testa.
— Eu nunca pedi isso.
— Hoje eu sei que deveria ter ouvido de você.
Beatriz observava os dois em silêncio.
Ela já conhecia as cartas; não tinha vindo para convencer Renato de que Lúcia era inocente. Tinha vindo para que ele pudesse fazer perguntas sem depender de outras pessoas.
Renato abriu o envelope de 2002.
Lúcia lhe perguntava se estava comendo direito, se ainda gostava de desenhar caminhões e se lembrava de usar agasalho nas manhãs frias.
Não havia acusações contra Augusto naquela folha.
— Por que não escreveu que estava viva? — perguntou ele.
— Escrevi na primeira carta, a que não voltou. Depois não sabia o que tinham dito para você. Tentei não assustá-lo. Achei que uma lembrança comum pudesse fazer você responder.
Renato ergueu os olhos.
— Eu teria respondido.
Lúcia chorou sem ruído.
Eu me levantei para buscar água, não porque alguém precisasse, mas porque queria dar aos dois alguns segundos sem o meu olhar.
Ao voltar, vi Renato segurando a luva amarela que permanecera sobre a mesa desde a visita de Beatriz.
— Por que guardou só uma? — ele perguntou.
Lúcia esfregou as mãos.
— Porque a outra ficou com você. Quando saí de casa naquela noite, estava no bolso do seu casaco. Essa aqui estava atrás da máquina de costura, no chão. Eu a encontrei quando voltei para pegar minhas coisas.
Renato ficou olhando o tricô.
— Eu tinha esquecido a outra.
— Não precisava lembrar.
Ele apertou a luva no punho.
— Meu pai disse que você tinha levado tudo. Até as fotografias.
Lúcia respirou fundo.
— Não levei tudo. Naquela noite, deixei você. E não encontrei um jeito de voltar.
Foi a primeira frase que Renato ouviu sem procurar uma contradição.
Antes de sair, Lúcia deixou as cópias e pediu que ele as lesse quando quisesse. Não tentou abraçá-lo.
Na porta, porém, ele fez uma última pergunta:
— Você chegou a falar com meu pai depois que eu virei adulto?
Lúcia olhou para mim e depois para ele.
— Falei. Uma vez. E foi por isso que passei tantos anos com vergonha de procurar você.
Que encontro tinha sido aquele? Descubra na Parte 4.













