— Quero que você more aqui se for capaz de conversar comigo sem me punir com silêncio — respondi.
Renato ficou com a chave verde entre os dedos.
— Eu não sabia que você via meus silêncios como punição.
— Eu já disse isso antes. Você se fecha por dias quando não gosta de uma pergunta. Eu espero a casa voltar ao normal e acabo pedindo desculpa por ter perguntado.
Ele encostou a chave sobre a mesa.
— Achei que me afastar evitava brigas.
— Para você, talvez. Para mim, significava ficar sozinha com o problema.
Foi uma conversa mais difícil do que as que tivemos sobre Lúcia.
Ao falar do passado dele, eu podia sentir compaixão. Ao falar da nossa rotina, precisava admitir que havia aceitado coisas que me feriam porque parecia mais fácil do que insistir.
Renato ouviu até o fim.
Perguntou se eu queria que ele saísse de casa por alguns dias.
— Não estou decidindo isso agora — respondi. — Quero que a gente faça acordos que consiga cumprir, não gestos dramáticos para encerrar a discussão.
Naquela noite, ele dormiu no quarto de hóspedes por escolha própria. Eu fiquei na cama, olhando o teto e tentando distinguir a pessoa que amava da pessoa que me escondera a verdade.
No dia seguinte, li as mensagens de Beatriz com ele sentado ao meu lado.
Começavam seis meses antes, com uma apresentação cuidadosa e a fotografia que eu já conhecia. Havia mensagens em que Renato desconfiava, outras em que perguntava pela saúde de Lúcia e várias em que dizia não estar pronto para encontrá-la.
Então apareceu a mensagem enviada na semana em que viajei para Londrina: “A Fernanda vai ficar fora. A consulta pode ser nessa data. Vocês ficam aqui.”
Beatriz respondeu: “Ela sabe?”
Renato escrevera: “Vou falar com ela.”
Mais tarde, quando Lúcia já estava em nossa casa, Beatriz perguntara de novo.
Dessa vez ele não respondeu.
— Você teve duas oportunidades para me dizer — falei.
— Mais do que duas. Toda manhã em que acordei do seu lado.
Era a resposta que eu precisava ouvir, embora não apagasse nada.
Na mesma semana, marcamos uma conversa com uma terapeuta de casais indicada por uma amiga. Não porque um atendimento pudesse resolver vinte e cinco anos de história em uma hora, mas porque percebemos que não sabíamos discutir sem nos defender antes de escutar.
Na primeira sessão, a terapeuta perguntou o que cada um fazia quando uma conversa parecia perigosa. Renato respondeu que se calava. Eu disse que procurava palavras mais brandas, até esquecer a pergunta original.
Quando ela nos pediu um exemplo recente, nós dois apontamos para a chave verde. Foi constrangedor perceber que o mesmo objeto representava coisas diferentes: para ele, uma forma de controlar o encontro com Lúcia; para mim, a prova de que eu podia ser excluída da minha própria casa.
Não saímos de lá reconciliados. Saímos com a tarefa de ouvir uma resposta inteira antes de preparar a próxima defesa.
Também combinamos algumas coisas simples.
Ninguém receberia uma chave de nossa casa sem o conhecimento dos dois. Não usaríamos informações pela metade para impedir perguntas. E, quando um de nós precisasse interromper uma conversa, diria quando estava disposto a retomá-la.
Renato propôs uma regra que me surpreendeu:
— Se eu disser que não quero falar da minha mãe, você pode respeitar. Mas se eu disser que ela não existe, você pode me lembrar que estou mentindo.
Eu sorri pela primeira vez em dias.
— Não quero virar fiscal da sua vida, Renato. Quero que você mesmo perceba a diferença.
As semanas seguintes foram irregulares.
Houve noites tranquilas, um almoço silencioso e uma discussão sobre a conta da luz que, no fundo, não era sobre dinheiro. Às vezes Renato se fechava. A diferença é que começou a voltar e pedir para terminar a conversa.
Beatriz não insistiu por mensagens.
Lúcia enviou apenas um cartão de aniversário, sem exigência de resposta. Renato demorou três dias para abrir o envelope e mais dois para escrever um agradecimento.
Certa tarde, encontrei meu marido na cozinha com a carta que Lúcia lhe entregara na praça.
Ela fora escrita quando ele já era adulto e nunca tinha sido enviada.
— Posso ler? — perguntei.
Ele hesitou, depois passou a folha para mim.
Lúcia falava de coisas que não vivera com o filho: a primeira namorada, o primeiro emprego, uma formatura que soubera por terceiros. Escrevia que não tinha direito de pedir que Renato esquecesse sua ausência, mas desejava que um dia ele soubesse que nunca deixara de pensar nele.
No fim havia uma frase curta: “Não espero que me chame de mãe; espero apenas não precisar fingir que nunca existi.”
Renato apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Passei metade da vida acreditando que ela não existia e depois pedi que se escondesse de você. Eu fiz com ela exatamente o que sempre tive medo que fizessem comigo.
Não concordei inteiramente.
— Você repetiu parte do silêncio. Mas agora sabe o que está fazendo e pode escolher diferente.
Ele ficou pensando.
Naquela noite, decidiu ligar para Lúcia sem que Beatriz intermediasse a conversa.
Não pediu que eu ficasse ao lado dele. Fui para o quintal regar as plantas e ouvi apenas algumas palavras através da janela aberta.
Ele perguntou como fora a consulta, se ela tinha melhorado das dores no joelho e se ainda fazia tricô.
Depois houve uma pausa longa.
Quando voltou, seus olhos estavam vermelhos, mas sua voz estava firme.
— Convidei a Lúcia para almoçar no domingo. Perguntei antes se você concordava, mas percebi que não tinha feito isso agora. Desculpa. Se você não quiser, eu digo que vamos nos encontrar fora.
Pensei no quarto de hóspedes, na chave verde e no modo como a casa parecera me pertencer menos quando descobri a visita escondida.
— Domingo, aqui, pode ser — respondi. — Mas gostaria que a Beatriz viesse também.
Renato assentiu.
No sábado, enquanto preparávamos a mesa, ele abriu a gaveta e tirou a chave reserva.
— Preciso te mostrar uma coisa — disse.
Na mão dele estava a luva amarela, ao lado de um segundo pedaço de tricô da mesma cor, bastante gasto.
— Onde encontrou a outra? — perguntei.
Ele passou o polegar sobre a costura antiga.
— Estava numa caixa que meu pai guardou todos esses anos. Eu só não sabia o que ela significava.
A pergunta que restava já não era sobre uma prova, mas sobre o que Renato faria com aquela lembrança.
Veja como ele recebeu Lúcia na Parte 7.













