Eu não toquei na chave.
Puxei uma cadeira para perto da mesa e pedi a Renato que tirasse as mãos do rosto.
— Começa pelo que aconteceu no mês passado — falei. — Depois você me conta o que aconteceu quando tinha quinze anos.
Ele passou a língua pelos lábios secos.
— A Lúcia precisava fazer uma consulta em Curitiba. A Beatriz me ligou, e eu disse que podiam ficar aqui por duas noites.
— Você disse que ficaria sozinho enquanto eu estivesse em Londrina.
— Eu sei.
— E pediu que fossem embora antes de eu voltar.
— Pedi.
Não gritei. Talvez, se tivesse gritado, ele pudesse ter transformado a conversa numa briga comum, daquelas em que um pede desculpa pelo tom e esquece a pergunta.
Eu queria uma resposta que permanecesse verdadeira no dia seguinte.
Beatriz continuava de pé.
Ofereci água e ela aceitou, embora tivesse de apoiar o copo com as duas mãos para beber.
— Você é irmã dele? — perguntei.
— Não de sangue. A Lúcia me criou desde os nove anos. Meu pai se casou com ela quando eu era pequena. Ele morreu há quatro anos. Para mim, ela é minha mãe.
Renato nunca mencionara uma família nova de Lúcia. Isso deixou claro que o segredo não se resumia a uma visita escondida.
— Há quanto tempo você sabe que ela está viva? — perguntei ao meu marido.
Ele olhou para a janela.
— Seis meses.
O número me atingiu de um jeito estranho.
Seis meses de cafés da manhã, contas pagas juntos, domingos no mercado e conversas sobre a reforma da cozinha. Em cada um daqueles dias, ele poderia ter dito uma frase simples: descobri que minha mãe está viva.
— Como descobriu?
— Depois que meu pai morreu, a Beatriz me procurou. Encontrou meu telefone por meio de um antigo conhecido da família. Disse que a Lúcia queria conversar.
— E você acreditou?
— Não. Achei que fosse algum golpe. Até que ela me mostrou uma fotografia.
Beatriz abriu a carteira e pôs sobre a mesa uma cópia dobrada.
A fotografia mostrava um menino de casaco marrom ao lado de uma mulher jovem, diante de uma casa de madeira. Ele usava uma luva amarela na mão esquerda.
Reconheci Renato pelo formato dos olhos.
— Meu pai dizia que essa fotografia tinha sido destruída — ele murmurou.
A voz dele ficou diferente quando começou a falar de Ponta Grossa, onde vivera até os quinze anos.
Disse que a mãe costurava para fora, que o pai, Augusto, trabalhava com fretes e que, nos últimos meses antes da separação, os dois discutiam quase todas as noites.
Numa sexta-feira fria, ouviu uma porta bater e encontrou o pai sozinho na cozinha. Augusto disse que Lúcia tinha sofrido um acidente na estrada e não voltaria.
— Você não foi ao enterro? — perguntei.
— Ele disse que a família dela cuidou de tudo em outra cidade. Falou que eu precisava parar de perguntar. Eu tinha quinze anos e acreditava nele.
Não era difícil imaginar um adolescente aceitando a palavra do único adulto que lhe restara. O que eu não conseguia aceitar era a decisão tomada vinte e cinco anos depois.
— Quando soube que estava viva, por que não me contou?
Renato apertou a borda da mesa.
— Porque eu não sabia o que pensar. Fiquei com raiva. Achei que ela tinha escolhido me deixar e que meu pai havia inventado a morte para me poupar.
— Isso não explica por que a trouxe para a nossa casa escondida.
Ele demorou a responder.
— Eu queria vê-la onde me sentisse seguro. Queria saber se conseguiria olhar para ela sem sentir aquela raiva. E não queria que você me perguntasse o que eu ainda não tinha coragem de responder.
A sinceridade tardia não apagava as mentiras anteriores.
Beatriz empurrou o copo para longe.
— Ela ficou sentada no quarto, esperando você voltar do trabalho, Renato. Você conversou com ela durante meia hora na primeira noite e quase nada na segunda. Na hora de ir embora, pediu que eu não contasse à Fernanda.
Ele baixou a cabeça.
— Eu estava tentando entender.
— Então deveria ter dito isso — respondi. — Não que você nunca tinha visto a Beatriz.
Foi a primeira vez que ele me olhou diretamente.
— Quando ela apareceu no portão, achei que você fosse pensar que eu tinha outra mulher.
— Eu pensei em muitas coisas. E foi você quem me deixou sem a verdade para escolher em que acreditar.
O relógio da cozinha marcou quatro horas.
O pão que eu trouxera da padaria continuava no saco, já frio.
Perguntei a Beatriz se Lúcia sabia que ela viera devolver a chave.
— Sabe. Ela disse que não queria que a Fernanda dormisse mais uma noite naquela casa sem conhecer a história. Ficou com medo de eu ser recebida daquele jeito.
— Ela tinha razão — murmurei.
Renato disse que a mãe morava em Campo Largo, com Beatriz, e que não ligara mais desde a consulta. Ele próprio tinha ignorado duas mensagens.
— Ela perguntou se você estava bem — acrescentou Beatriz. — Não pediu para morar aqui. Não pediu dinheiro. Só quis saber se você conseguiria falar com ela outra vez.
Olhei para a luva amarela.
Não a peguei. Era a lembrança de uma infância à qual eu não pertencia.
Mas aquela casa também era minha, e eu não aceitaria ser expulsa de uma história que já tinha entrado nela.
— Quero conversar com Lúcia — anunciei. — Com você presente, Renato. Sem visitas secretas, sem recados pela Beatriz.
Ele ficou imóvel por tanto tempo que imaginei ouvir um não.
Então perguntou, quase num sussurro:
— E se ela contar uma versão que eu não consiga suportar?
— A gente escuta primeiro. Depois decide o que fazer com ela.
Beatriz recolheu a fotografia, mas deixou a luva e a chave sobre a mesa.
Antes de sair, disse algo que Renato não esperava:
— Minha mãe não quer que você acredite em tudo o que ela diz. Quer que você leia as cartas que mandou.
Renato levantou a cabeça.
— Que cartas?
Beatriz o encarou com os olhos cheios de lágrimas.
— As que ela escreveu depois do dia em que disseram a você que estava morta.
Para saber por que aquelas cartas nunca chegaram, continue na Parte 3.













