Voltei ao Estação da Serra numa manhã de céu claro, acompanhada por Marta.
A porta de vidro parecia menor do que na noite em que saí chorando.
Havia um cartaz anunciando sopa de pinhão e café passado na hora.
Por um instante, o cheiro da cozinha me fez esquecer o medo.
Então vi o corredor do escritório e lembrei de cada palavra de Dário.
Dalva apareceu com o avental manchado de farinha.
Ela me abraçou com força e voltou depressa ao fogão, porque tinha panelas no fogo.
Talita acenou do caixa.
Ninguém fez discurso nem começou a bater palmas.
Foi bom assim.
Eu não queria entrar como atração de um espetáculo.
Marta apresentou o responsável interino pela unidade, um supervisor chamado Paulo.
Ele explicou que os relatórios de perdas passariam a ser conferidos com os pagamentos efetivos e que advertências precisariam indicar claramente o fato ocorrido.
As orientações sobre benefícios seriam repassadas por escrito a todos os empregados.
— O desconto continua sendo pessoal — disse ele.
— Isso precisa ficar claro.
Mas situações excepcionais serão encaminhadas a um responsável, sem humilhação pública nem registros inventados.
Perguntei o que aconteceria com uma pessoa que precisasse esperar o ônibus sob chuva forte.
Paulo mostrou uma pequena área próxima à entrada, afastada da circulação de serviço.
— Estamos definindo um procedimento de acolhimento quando houver segurança e espaço.
Não é necessário fingir que alguém com frio representa um perigo apenas porque não vai comprar nada.
Era uma mudança simples.
Talvez por isso eu tivesse vontade de chorar.
Uma regra podia ser revista sem que o mundo acabasse.
Quando chegamos à mesa sete, Francisco já estava esperando.
Desta vez, trazia uma pasta de fotografias antigas.
Pedi permissão para olhar.
Numa delas, Zulmira sorria atrás de um balcão de madeira, cercada de panelas grandes.
Noutra, Francisco aparecia carregando cadeiras, muitos anos mais jovem.
— Ela me dizia que uma casa cheia não é necessariamente uma casa acolhedora — contou.
— Depois que o negócio cresceu, comecei a olhar mais os números do que as pessoas.
Não fui eu que dei a ordem ao Dário, mas também não procurei saber como era trabalhar aqui.
A confissão me surpreendeu.
Eu havia passado dias imaginando que bastaria encontrar um homem importante para que todo o resto se acertasse.
Agora ele estava admitindo uma responsabilidade que não aparecia nos relatórios.
— O senhor pode fazer algo diferente — respondi.
— Mas não pode depender de outra pessoa ser demitida para descobrir o que acontece.
Francisco abaixou a cabeça.
— Tem razão.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
Não era o silêncio desconfortável do escritório.
Da cozinha vinha o som de pratos sendo empilhados, exatamente como em qualquer dia de trabalho.
Marta me chamou para conversar sobre a proposta.
A empresa oferecia reavaliar formalmente o desligamento, corrigir a documentação e acertar os valores devidos conforme o encaminhamento trabalhista aplicável.
Também colocava à minha disposição o retorno à função, sob outra supervisão, se eu desejasse.
Ela me entregou os documentos para levar para casa e examinar antes de responder.
Eu disse que não voltaria naquele momento.
Não era vingança contra o restaurante.
Ali estavam pessoas queridas, e eu sentia falta do ritmo do atendimento.
Mas precisava reconhecer que o medo de perder o salário havia comandado quase todas as minhas escolhas durante onze meses.
Queria experimentar fazer uma decisão que não começasse por ele.
— Espero que isso não atrapalhe a correção dos registros — acrescentei.
— São assuntos separados — afirmou Patrícia, que entrara para finalizar a conversa.
— A apuração precisa chegar ao resultado correto, independentemente de sua resposta à oferta.
Na volta para casa, passei numa papelaria e comprei um caderno barato.
Escrevi na primeira página: “Faculdade de Administração”.
Depois anotei todos os gastos do mês, os horários disponíveis para trabalhar e as datas de inscrição no processo seletivo que eu vinha acompanhando.
Não havia dinheiro para grandes planos.
Havia, porém, a possibilidade de organizá-los.
Minha mãe chegou cansada da casa de repouso e encontrou o caderno aberto.
Leu as primeiras páginas sem falar nada.
— Você vai tentar mesmo?
— Vou.
Mas preciso encontrar trabalho enquanto estudo.
Pesquisamos vagas de atendimento, recepção e apoio administrativo.
Uma pequena cooperativa de distribuição de alimentos procurava auxiliar para conferência de pedidos, com horário que permitiria estudar à noite.
O salário inicial não era muito maior que o meu antigo, mas havia treinamento e transporte.
Enviei currículo sem mencionar Francisco.
Na entrevista, seria só Emília Batista, com onze meses de experiência num restaurante.
Antes de dormir, Talita telefonou.
Disse que as correções no caixa estavam começando e que uma equipe externa passara o dia conversando com os funcionários.
Ela não sabia o que aconteceria com Dário.
Nem eu.
Pedi apenas que guardasse as próprias cópias e não assinasse nada com pressa.
Na semana seguinte, a cooperativa me convidou para uma prova simples de planilhas e organização de estoque.
Eu nunca havia trabalhado com aquele programa, então passei duas noites aprendendo pelas aulas gratuitas de uma biblioteca pública.
Errei fórmulas, recomecei, fiz contas até tarde.
Na manhã da prova, minha mãe colocou um sanduíche na bolsa e disse que não era vergonha precisar aprender.
Fui bem na parte de números.
Na entrevista, perguntaram por que eu saíra do restaurante.
Contei que tinha aplicado um desconto fora da regra, que o caso resultara num desligamento contestado e que a empresa estava corrigindo o registro.
Não inventei outra justificativa.
A recrutadora anotou minhas respostas e pediu uma referência profissional.
Indiquei Dalva, que conhecia meu trabalho, e o contato do setor de pessoal para as informações formais.
Ela agradeceu, sem dizer se eu tinha chance.
Naquela tarde, chegou um e-mail da cooperativa.
Meu nome continuava no processo, mas a contratação dependeria da confirmação dos dados do último emprego.
O coração disparou.
Eu tinha a palavra de Patrícia de que a informação seria corrigida, mas ainda não recebera a versão final por escrito.
Peguei o telefone e procurei o número da administração regional.
Se a anotação de falta grave ainda aparecesse, eu poderia perder uma oportunidade antes mesmo de começar.
Eu tinha escolhido não voltar ao passado.
Agora precisava descobrir se o passado, corretamente registrado ou não, me deixaria seguir em frente.
A confirmação que definiria minha próxima oportunidade está na Parte 7.













