Na volta para casa, liguei o aquecedor do carro e descobri que ele só funcionava quando queria.
Passei metade do trajeto limpando o vidro embaçado com a manga do casaco.
Não era a chuva que me impedia de enxergar direito.
Era a imagem de Dário segurando o comprovante como se eu tivesse roubado alguma coisa.
Minha mãe estava na cozinha quando cheguei.
O uniforme dobrado debaixo do meu braço bastou para que ela desligasse o fogão.
— Aconteceu alguma coisa no restaurante?
Contei desde a chegada de Francisco até a demissão.
Quando terminei, ela puxou a cadeira diante de mim e esperou que eu parasse de mexer nos dedos.
— Você sabia que o desconto era reservado aos funcionários?
— Sabia.
Achei que, como eu estava pagando, não prejudicaria ninguém.
— Então você quebrou uma regra — respondeu ela, sem dureza.
— Isso precisa ser reconhecido.
Mas não significa que tenha roubado, nem que mereça ser tratada como uma criminosa.
A honestidade da minha mãe doeu mais do que um consolo fácil.
Ela se chamava Rosa e passava os dias ajudando idosos a comer, tomar remédios e encontrar os próprios chinelos.
Não costumava confundir gentileza com ausência de responsabilidade.
— Eu devia ter perguntado antes — murmurei.
— Talvez.
Agora precisamos saber exatamente o que você assinou.
Tirei da bolsa a única folha que Dário me entregara.
Era uma comunicação de desligamento sem explicação detalhada, com data e minha assinatura.
No rodapé havia uma frase pequena dizendo que a assinatura confirmava o recebimento.
Eu não tinha aceitado uma acusação; tinha apenas recebido um papel.
Essa diferença me deu um pouco de ar.
Às oito e quarenta, meu celular tocou com um número desconhecido.
Pensei em ignorar.
A pessoa insistiu.
— Emília Batista? Aqui é Marta Alencar, da administração da rede Estação da Serra.
O senhor Francisco pediu que entrássemos em contato.
Você pode conversar por alguns minutos?
Olhei para minha mãe.
Ela permaneceu perto da pia, me deixando decidir.
— Quem é o senhor Francisco, exatamente?
Houve uma pausa breve.
— Ele é um dos fundadores do grupo que controla o restaurante.
Mas não estou ligando para oferecer uma recompensa, nem para anunciar uma decisão sobre seu emprego.
Precisamos ouvir sua versão antes de qualquer providência.
Sentei-me direito.
Eu tinha imaginado um cliente influente, talvez um conhecido do proprietário.
Nunca me ocorrera que o homem de cachecol gasto tivesse participação no próprio negócio.
— O senhor Dário sabe dessa ligação?
— A direção da unidade foi informada de que haverá uma revisão.
O que ele sabe ou pensa não altera o seu direito de apresentar documentos.
Marta perguntou o horário da compra, o número da mesa e a forma de pagamento.
Respondi devagar.
Expliquei que meu desconto aparecia no sistema, que pagara R$ 34,90 no cartão e que o preço normal do prato era R$ 69,80.
Não tentei esconder que fizera a compra para outra pessoa.
— Você tem a confirmação no aplicativo do banco?
Abri a tela.
Lá estava a compra, com o nome do restaurante e o valor exato.
Enviei uma captura de tela para o endereço profissional que ela ditou.
— Também preciso saber da advertência anterior — continuou Marta.
Falei da senhora que esperara o ônibus dentro do salão numa tarde de chuva.
Marta não comentou se eu estava certa ou errada.
Anotou a data aproximada e perguntou quem trabalhava comigo naquele turno.
— Pode comparecer amanhã, às dez, à administração regional?
Você pode levar alguém de confiança.
E não precisa assinar mais nada sem ler.
Anotei o endereço num caderno onde costumava registrar meus gastos.
Quando a ligação terminou, minha mãe colocou diante de mim um prato de arroz e feijão.
Não tínhamos carne naquela noite.
Mesmo assim, o cheiro me fez perceber que eu não havia comido desde o almoço.
— Por que um fundador usaria roupas tão simples? — perguntei.
— Porque roupa não é documento de identidade — respondeu Rosa.
Tentei sorrir.
Ela sentou ao meu lado e começou a separar os boletos que venceriam naquela semana.
Fizemos as contas duas vezes.
Se o salário parasse ali, o dinheiro da minha conta não cobriria sequer a próxima sequência de despesas.
A faculdade parecia ter se afastado alguns quilômetros.
Perto das dez, Talita, minha colega do caixa, mandou uma mensagem.
Ela perguntou se eu estava bem e disse que Dário havia reunido os funcionários depois do fechamento.
Em seguida, enviou uma fotografia da tela do grupo interno.
A mensagem do gerente dizia que uma funcionária fora desligada por uso indevido do benefício e que qualquer pessoa que repetisse uma irregularidade sofreria consequências imediatas.
Não citava meu nome.
Não precisava.
Talita escreveu que todos sabiam de quem ele falava.
Respondi pedindo que não discutisse com ele por minha causa.
Ela precisava do emprego tanto quanto eu.
Alguns minutos depois, chegou outra fotografia.
Era um quadro de ocorrências usado no escritório, com uma anotação feita naquela mesma noite.
Ao lado das minhas iniciais apareciam as palavras: “prejuízo não recuperado”.
Fiquei olhando para aquilo sem entender.
O restaurante recebera meu pagamento.
Eu podia ter usado o benefício de maneira errada, mas não havia saído carregando uma refeição sem pagar.
Lembrei das vezes em que conferia o caixa antes de entregar o turno.
Dário sempre exigia que a soma fechasse até o último centavo.
Eu respeitava aquele cuidado.
O que não entendia era por que a mesma precisão desaparecia quando o assunto era o meu nome.
Minha mãe leu a mensagem por cima do meu ombro.
— Amanhã você vai precisar contar tudo, inclusive o que não favorece você — disse.
— Quem fala a verdade não precisa fingir que nunca errou.
Salvei as imagens e desliguei a tela.
Pela primeira vez desde a demissão, eu não queria apenas recuperar o emprego.
Queria entender por que Dário fazia tanta questão de registrar uma perda que eu havia pago.
Na manhã seguinte, antes de sair, recebi mais uma mensagem de Talita.
Ela dizia que o gerente mandara retirar do arquivo o comprovante da mesa sete.
Não sabia se o documento tinha sido guardado ou destruído.
O comprovante que Dário tirara do meu avental era justamente a peça que eu não possuía.
E, se alguém o fizesse desaparecer, a minha palavra teria de enfrentar a versão escrita de quem me demitira.
Para descobrir o que aconteceu ao comprovante e por que Dário temia a revisão, continue na Parte 3.













