Na sexta-feira de manhã, a mansão parecia outra casa. As flores da festa ainda estavam nas mesas, mas ninguém tinha coragem de arrumá-las. Lily dormira no sofá, com uma das mãos apoiada no pelo de Bruno. Luca passara a noite conversando com policiais e com uma advogada de confiança.
Às sete, ele me encontrou na cozinha preparando água morna para amolecer a ração do cachorro.
“Como ele está?”
“Cansado. Vou pedir uma avaliação ao veterinário. Ontem ele fez força demais para subir as escadas.”
“Chame quem precisar. E não o deixe sair daqui.”
Havia uma diferença entre proteger Bruno e fingir que sua velhice não existia. Expliquei que, mesmo sem Vanessa, o cachorro precisava de descanso, acompanhamento e talvez de uma rampa para evitar os degraus. Luca concordou sem discutir.
A advogada chegou pouco depois. Chamava-se Marina Albuquerque e tinha uma maneira precisa de fazer perguntas, sem aumentar o tom de voz. Não trouxe promessas de soluções rápidas. Explicou que a prioridade era manter Lily segura, registrar o que cada adulto presenciara e deixar a investigação aos profissionais responsáveis.
“O testemunho de uma criança não precisa ser repetido diante de todos”, disse. “Ela terá atendimento adequado. Não tentem descobrir mais detalhes fazendo perguntas sugestivas.”
Luca assentiu. Eu vi quando ele apagou do bloco uma lista de perguntas que havia preparado durante a madrugada.
Depois, diante de Marina e de um investigador chamado Roberto Campos, ele finalmente falou sobre Henrique.
Dois anos antes, o homem administrava contratos de transporte ligados a um dos negócios de Luca. Uma auditoria interna encontrara cobranças por serviços inexistentes e empresas intermediárias com vínculos que deveriam ter sido investigados antes. Henrique negara tudo. Quando Luca cancelou os contratos, surgiram ameaças e tentativas de extorsão.
“Eu queria tirar essas pessoas da minha vida sem provocar uma guerra”, Luca contou. “Deixei algumas denúncias para depois. Foi covardia. Achei que afastar Henrique resolveria.”
Marina o encarou.
“Você entregou tudo que tinha às autoridades naquela época?”
“Não tudo.”
Ele não tentou justificar a resposta. Disse que apresentaria também o material que o comprometesse, porque Lily não poderia pagar pelas decisões que ele tomara.
Marina perguntou onde estavam os documentos. Luca indicou o escritório de contabilidade e autorizou o acesso pelos caminhos legais. Explicou que tinha medo de perder negócios e de expor os empregados às consequências de antigos contratos. Roberto anotou a declaração sem oferecer proteção especial por ele ser rico. Aquilo me pareceu importante: o passado de Luca não podia virar desculpa para as ameaças de Henrique, mas tampouco deveria ser varrido para baixo do tapete.
Eu ouvira rumores sobre as ligações perigosas de Luca desde meu primeiro mês de trabalho. Até então, aquilo me parecia pertencer a um mundo distante, do qual era melhor não falar. Naquela manhã, percebi que o mundo distante tinha chegado até a porta de uma menina de nove anos.
O investigador pediu que eu relatasse o episódio do corredor. Falei de Bruno choramingando, da porta fechada e da ordem de Vanessa. Ele não me pediu para adivinhar o que acontecera lá dentro. Anotou também a frase sobre o cachorro não durar até domingo, lembrando que eu era a única pessoa que a tinha ouvido.
Quando saí da sala, encontrei Lily desenhando em um caderno. O veterinário havia examinado Bruno e recomendado repouso, controle da dor e acompanhamento próximo, sem qualquer razão para sacrificá-lo naquele momento. A menina parecia aliviada ao ver o cachorro deitado na manta nova.
“Ele ainda vai poder dormir perto de mim?”, perguntou.
“Vai, se estiver confortável. A gente pode deixar uma cama baixinha aqui, ao lado da sua.”
Lily mostrou o desenho. Era uma casa com uma porta muito grande. De um lado estavam ela e Bruno. Do outro havia uma figura que segurava uma pasta cinza.
“Não precisa me contar nada que você não queira”, falei.
“Eu só queria desenhar a porta fechada.”
“Então pode desenhar.”
Ela ficou um tempo em silêncio. Depois pediu que eu colocasse o desenho em uma pasta para não amassar. Entreguei-o à profissional que acompanharia Lily, explicando apenas como ele havia surgido, sem atribuir nenhum significado por conta própria.
No início da tarde, uma empresa contratada para o casamento enviou uma mensagem ao escritório de Luca perguntando se a programação de domingo continuava confirmada. Marina pediu que a documentação fosse preservada antes de qualquer cancelamento. Só então veio a surpresa.
Além da cerimônia e da recepção, existia uma visita privada prevista para o fim do dia, em uma propriedade afastada da cidade. Era apresentada como uma surpresa organizada por Vanessa: um encontro breve para fotografias e assinatura de lembranças para convidados especiais.
Luca franziu a testa.
“Eu nunca concordei com isso.”
O documento trazia seu nome, mas a confirmação tinha sido enviada por um endereço de e-mail criado recentemente. A empresa responsável pelo evento apresentava uma ordem de serviço recebida de Vanessa. E, no campo destinado ao contato no local, aparecia um número associado a Henrique.
Marina pediu que ninguém respondesse usando aquele e-mail. Roberto recolheu cópias dos registros e avisou que verificaria a origem das instruções. Uma mensagem suspeita, explicou, não era prova de um plano inteiro, mas era motivo suficiente para investigar com urgência.
Luca me chamou para uma conversa reservada antes de ir buscar Lily.
“Emma, você pode ficar com ela hoje à noite? Só se quiser. Vou contratar apoio profissional e reorganizar os turnos. Não vou fazer da sua boa vontade uma obrigação.”
Pensei no meu pai, no horário da visita à instituição e no dinheiro que nunca sobrava. Aceitei ficar até o fim da tarde, não a noite inteira. Pela primeira vez, falei sem medo de desagradar.
“Eu preciso continuar sendo filha também, senhor Luca.”
Ele concordou. Disse que providenciaria outra pessoa e que meu emprego não dependia de eu ultrapassar meus limites.
Na porta, Marina recebeu uma ligação do investigador e pediu que Luca permanecesse na sala. A empresa do evento havia localizado uma segunda versão da programação, enviada dois dias antes. Nela, a visita privada não constava como passeio. Havia uma instrução específica dirigida a Luca, como se partisse de alguém de sua confiança.
Ele deveria comparecer sozinho ao endereço indicado, depois que Lily fosse levada de volta para casa.
Aquela mensagem deu um sentido terrível à frase que Lily ouvira, mas ainda não dizia quem a havia escrito nem o que aconteceria naquele lugar.
Quem preparou o encontro de domingo? A resposta começa na Parte 4.













