Vera colocou a proposta de venda dentro de uma pasta transparente.
Não permitiu que Haroldo telefonasse para a incorporadora tomado pela raiva.
Primeiro, quis verificar o que efetivamente havia sido assinado, o que estava apenas em negociação e quais autorizações Vítor alegava possuir.
— Uma cópia apresentada pelo seu irmão não transfere automaticamente o prédio — explicou.
— Precisamos impedir que ele use seus dados para fechar um negócio enquanto questionamos os documentos.
Haroldo assinou uma declaração formal de que não autorizara aquela venda.
A advogada comunicou a contestação à empresa interessada e iniciou as medidas cabíveis para pedir proteção judicial ao imóvel.
Também orientou que o acesso de Vítor às contas e aos arquivos administrativos fosse revisto com urgência, respeitando os contratos em vigor.
Nada disso apagava o medo.
Haroldo conhecia o irmão havia mais de sessenta anos e ainda queria acreditar que existia uma explicação menos cruel para cada papel.
Mas acreditar sem conferir tinha sido exatamente a falha que permitira a separação da família.
Na loja, Rafael mostrou recibos recentes de pagamentos feitos a uma empresa de administração ligada a Vítor.
Os valores não provavam desvio, mas se repetiam sem explicação clara em serviços que Haroldo acreditava realizar internamente.
Vera sugeriu contratar um contador independente, com acesso autorizado aos registros, para identificar o que de fato acontecera.
— Quero participar — disse Haroldo.
— Não vou mais assinar sem ler só porque é meu irmão.
À noite, ele visitou Ana.
Ela já conseguia conversar com pausas menores, embora ainda estivesse fraca e precisasse de acompanhamento.
Sobre a mesa, havia um desenho de Lia: uma casa de duas janelas, uma cama e uma menina segurando uma caixa pequena.
— Ela desenhou o quarto da pensão — contou Ana.
— Disse que era para eu não esquecer onde ela foi corajosa.
Haroldo segurou o papel sem tentar corrigir a maneira como a neta via aquele dia.
— Você quer que eu pague um lugar melhor para vocês ficarem quando sair daqui?
Ana ficou em silêncio.
— Eu quero escolher onde vou morar.
Passei vinte anos tentando não depender de ninguém que pudesse me mandar embora de repente.
— Eu não quero mandar em você.
— Eu sei que é isso que está dizendo hoje.
Ainda preciso descobrir se consigo acreditar.
Haroldo aceitou a resposta.
Pediu permissão para contar o que Vera encontrara, inclusive a proposta de venda e o termo atribuído a Ana.
Quando ouviu a descrição, a filha apertou as mãos sobre o cobertor.
— Eu assinei uma ficha de recebimento quando ajudava na loja — lembrou.
— O tio dizia que era parte do aprendizado.
Mas nunca confessei ter levado joia alguma.
Ela recordava uma folha sem texto completo, apresentada num dia corrido, e a sensação de ter feito algo errado quando Vítor passou a mencioná-la nas ameaças.
Vera, informada depois, anotou que a origem da assinatura precisava ser examinada por profissional habilitado.
A lembrança de Ana não equivalia a um laudo.
Na manhã seguinte, Haroldo procurou dona Eulália, a antiga cliente mencionada no lote quarenta e sete.
Conseguiu o telefone por meio de uma ficha de atendimento preservada na loja e pediu autorização antes de visitá-la.
Ela vivia com o filho num apartamento pequeno, perto do centro.
A senhora demorou a reconhecer Haroldo, mas se lembrou de Ana assim que ouviu o nome.
— A menina que fazia perguntas demais — disse, com um sorriso triste.
— Um dia ela me chamou para conferir minhas peças.
Disse que havia alguma coisa errada nos números.
Eulália ainda guardava uma cópia de sua relação de joias, com descrições e pesos aproximados.
Mostrou também os comprovantes do que recebera de volta.
Três peças permaneciam sem explicação satisfatória.
Haroldo fotografou os documentos com consentimento dela e prometeu encaminhar a questão para apuração, sem fingir que já sabia o destino dos objetos.
— A Ana não parecia estar roubando ninguém — observou Eulália.
— Parecia uma moça preocupada em contar ao pai que alguém estava mentindo.
Antes de sair, Eulália perguntou pela saúde de Ana.
Haroldo contou apenas o que a filha autorizara: que estava internada e recebendo cuidados.
A senhora pediu que transmitisse um abraço, sem cobrar explicações sobre os anos em que a moça estivera longe.
Mais tarde, Haroldo ligou para Celina para saber de Lia.
A menina havia feito as tarefas escolares com ajuda de uma vizinha e perguntara se o dinheiro dado na loja ainda era dela.
Haroldo pediu que Celina explicasse que sim, e que as despesas da mãe seriam organizadas com Ana quando ela pudesse decidir.
Queria que a primeira ajuda recebida pela neta não se transformasse em outra dívida emocional.
No caminho de volta, Haroldo estacionou diante de uma praça.
Ficou ali alguns minutos, lembrando a última conversa interrompida com a filha.
Ela tentara alertá-lo, e ele pedira que esperasse até segunda-feira.
Na segunda-feira, Ana já não estava em casa.
O telefone vibrou com uma mensagem de Vítor.
O irmão queria encontrá-lo no escritório onde guardava documentos antigos.
Dizia que a venda precisava avançar e que Haroldo estava destruindo décadas de trabalho por causa de uma acusação sem fundamento.
Vera recomendou não ir sozinho.
Haroldo respondeu que qualquer conversa aconteceria com a advogada presente.
Vítor demorou a aceitar.
Na mesma tarde, a administração da pensão confirmou por escrito que os objetos de Ana seriam preservados enquanto se discutia a notificação.
Lia pôde ficar com Celina e visitar a mãe acompanhada, sem passar a noite sozinha no quarto.
Haroldo percebeu que cada providência pequena ajudava mais do que suas promessas grandiosas.
Antes de encerrar o expediente, Rafael se aproximou.
— Seu Haroldo, eu queria pedir desculpa pelo que fiz com a menina.
Tratei o anel como se a pessoa do outro lado não importasse.
— Você precisa aprender a avaliar uma joia direito — respondeu Haroldo.
— E precisa aprender a olhar para quem está falando com você.
Naquela noite, o celular tocou novamente.
Era Vítor, e sua voz havia perdido a paciência.
— Quer insistir nessa história? Então pergunte por que Ana escreveu para você e nunca recebeu resposta.
Haroldo ficou imóvel.
— Que cartas?
— Venha amanhã com a sua advogada.
Tenho duas cartas que talvez façam você mudar de ideia sobre a venda.
Haroldo olhou para a cópia da carta falsa sobre a mesa.
Pela primeira vez, compreendeu que o irmão não guardara somente documentos de negócios.
Guardara palavras que poderiam ter devolvido uma filha ao pai muito antes.
O que Vítor fez com as cartas de Ana? A verdade começa a aparecer na Parte 6.













