Na manhã seguinte, Haroldo e Vera voltaram à pensão com a autorização de Ana para recolher a sacola.
Celina os recebeu na cozinha e mostrou uma anotação feita no dia da visita de Vítor: horário, nome e a ameaça de expulsão.
Ela começara a registrar acontecimentos estranhos quando percebeu que o homem conhecia detalhes da vida da hóspede.
— Ele não perguntou se a Ana tinha dinheiro para pagar — contou Celina.
— Perguntou se ela já tinha ido à loja do irmão.
Vera pediu uma cópia daquela anotação.
Explicou que Celina poderia ser chamada a relatar o que vira e que não precisava discutir novamente com Vítor.
Haroldo agradeceu pela proteção dada às duas.
A sacola estava debaixo da cama, onde Lia a deixara.
Havia carretéis, uma fita métrica, linhas de várias cores e um bolso interno reforçado com pontos muito pequenos.
Celina trouxe uma tesoura de costura.
Haroldo hesitou antes de cortar.
— Minha mãe faz esse ponto quando não quer que nada caia — disse Lia, observando da porta.
Ele se ajoelhou para ficar na altura da neta.
— Vamos abrir só porque ela nos autorizou.
Depois vou guardar tudo para devolver.
Dentro do forro surgiram uma folha de papel-carbono, um recibo antigo e três anotações de Ana.
A cópia mostrava o lote quarenta e sete: peças deixadas por uma cliente para avaliação, com valores e a assinatura de quem havia recebido.
No campo reservado à conferência, Ana escrevera que parte das peças não correspondia ao inventário entregue.
Mais abaixo havia uma autorização rubricada por Vítor.
Haroldo reconheceu a cliente, uma senhora que costumava levar joias herdadas da família para avaliação.
A loja trabalhava com consignações e precisava registrar cada peça antes de negociar sua venda.
Se as diferenças fossem verdadeiras, alguém teria feito desaparecer bens que não pertenciam ao estabelecimento.
— Isso explica por que ela ficou assustada — disse Vera.
— Mas a cópia não nos diz sozinha para onde foram as peças.
Na loja, Rafael encontrou a pasta original na presença dos dois.
Vera fotografou sua organização antes que qualquer folha fosse movida.
Os números corriam normalmente até o quarenta e seis e recomeçavam no quarenta e oito.
O espaço vazio tinha sinais de papel arrancado do bloco.
A margem da folha anterior continha uma anotação sobre o horário de entrega do lote.
Na cópia escondida por Ana, a mesma data aparecia com uma correção feita à mão.
Vera colocou os documentos lado a lado e registrou a coincidência antes de devolvê-los às respectivas pastas.
Não era prova definitiva de desvio, mas tornava importante localizar a cliente e conferir o que ela realmente entregara.
Haroldo se lembrou de uma discussão antiga.
Poucos dias antes do desaparecimento, Ana pedira para conversar com ele sem a presença do tio.
Ele adiara o encontro porque precisava visitar um fornecedor em outra cidade.
Quando voltou, Vítor anunciou que a moça havia fugido.
— Eu podia ter escutado — murmurou.
Vera não o consolou com uma frase fácil.
Pediu apenas que anotasse a data aproximada daquela viagem e procurasse agendas ou recibos que a confirmassem.
Era necessário separar memórias de documentos, por mais dolorosas que fossem.
Dois dias depois, a médica informou que Ana respondia ao tratamento, embora precisasse continuar internada.
Com mais forças, ela concordou em receber Vera para uma conversa curta.
Lia aguardou do lado de fora, desenhando numa folha que uma enfermeira lhe oferecera.
— Eu trabalhava algumas horas na loja depois dos ensaios — contou Ana.
— Estava aprendendo a conferir os registros.
Naquela semana, notei que as peças da dona Eulália tinham sido anotadas com valores diferentes.
Ela pediu uma cópia da folha antes de procurar o pai.
Vítor a surpreendeu olhando os recibos.
No dia seguinte, mostrou um documento segundo o qual Ana assumia responsabilidade pelo desaparecimento de joias.
Ele disse que a assinatura era dela e que Haroldo seria arruinado se a fraude viesse a público.
— Eu tinha dezoito anos — Ana prosseguiu.
— Ele falou que meu pai preferia me ver longe a responder por aquilo.
Depois trouxe a carta.
— Você acreditou nele? — perguntou Haroldo, da cadeira ao lado.
Ana demorou a responder.
— Eu sabia que alguma coisa estava errada.
Mas tinha medo de voltar e descobrir que a carta era verdadeira.
Ele disse que acompanharia os primeiros meses, que ninguém me procuraria.
Eu fugi, sim, mas não porque deixei de amar você.
Haroldo baixou a cabeça.
O motivo de Ana não ter retornado não apagava seus próprios anos de silêncio nem resolvia a distância criada entre eles.
Perguntou se ela tentara entrar em contato depois.
— Escrevi duas cartas no primeiro ano.
Mandei para a loja.
Não recebi resposta.
Foi a vez de Haroldo sentir a garganta fechar.
Ele nunca recebera essas cartas.
Vera fez uma pausa para Ana beber água.
Depois explicou que seria preciso preservar a documentação, reunir registros bancários a que Haroldo tivesse acesso legítimo e avaliar a situação com um contador.
Não era possível acusar formalmente alguém apenas por causa de uma lembrança ou de uma assinatura parecida.
Enquanto isso, Haroldo procurou novamente o irmão.
Vítor atendeu no terceiro toque.
— Ana está se recuperando — informou Haroldo.
— A notificação de desocupação não vai afastá-la de mim.
— Você está se deixando manipular por uma história antiga — respondeu Vítor.
— Quer perder a loja por causa disso?
— Quero saber onde foi parar a folha quarenta e sete.
Do outro lado, houve um silêncio curto.
— Cuidado com o que diz, Haroldo.
Os documentos de vinte anos atrás podem contar uma história que você não vai gostar.
A ligação terminou.
Haroldo guardou o registro da chamada e voltou à sala, onde Vera conferia os papéis.
Encontrou sobre a mesa um documento recente, deixado naquela manhã por um mensageiro de Vítor.
Era uma proposta de venda do prédio da loja para uma incorporadora, acompanhada de uma autorização supostamente concedida por Haroldo.
O problema não era apenas a pressa em vender.
Na última página, Vítor anexara um velho termo com a assinatura de Ana, declarando que ela assumira sozinha a responsabilidade pelo desaparecimento das joias.
Ana dizia jamais ter assinado aquele documento.
E Haroldo percebeu que o irmão pretendia usar a mesma acusação que os separara vinte anos antes.
Quem havia preparado o termo e por que ele surgia justamente agora? A investigação continua na Parte 5.













