Na recepção do hospital, Haroldo precisou repetir o nome de Ana três vezes até conseguir pronunciá-lo sem tropeçar.
A médica explicou que ela apresentava sinais de uma infecção respiratória grave, agravada pela desidratação, e que seria necessário acompanhá-la de perto.
Ninguém prometeu uma recuperação rápida.
Lia ficou encolhida numa cadeira de plástico, segurando a caixinha do anel.
Haroldo comprou água e um sanduíche, mas ela só aceitou comer quando ele se sentou ao seu lado.
— Minha mãe vai morrer?
— Os médicos estão cuidando dela.
Eu não sei o que vai acontecer, Lia, mas não vamos deixar você enfrentar isso sozinha.
Era a primeira resposta que lhe parecia honesta desde que a menina entrara na loja.
Ele não queria repetir com ela o erro de construir certezas sobre coisas que não sabia.
Quando a médica autorizou uma breve visita, Haroldo entrou sozinho.
Ana estava acordada, recebendo oxigênio, cansada demais para uma conversa longa.
Ela o observou como se tentasse decidir se o homem diante da cama era real.
— A Lia encontrou você — disse.
— Encontrou.
E me mostrou o anel.
Ana fechou os olhos.
— Eu dizia para ela que o avô tinha me dado.
Nunca soube como explicar o resto.
Haroldo tirou a carta do bolso, mas não a colocou nas mãos dela.
— Eu não escrevi isso, Ana.
Nunca quis que você desaparecesse.
Ela olhou para o papel e apertou o lençol.
— Foi o tio Vítor que me entregou.
Disse que você não tinha coragem de falar comigo pessoalmente.
A enfermeira apareceu à porta, sinalizando o fim da visita.
Haroldo prometeu voltar quando Ana estivesse melhor.
Saiu com uma certeza nova: a distância entre os dois não começara com uma decisão livre de sua filha.
À tarde, ele telefonou para Vera Machado, advogada que o atendia havia anos em questões comerciais.
Pediu que fosse à loja e levou consigo uma cópia fotografada da carta, sem deixar o original fora de sua guarda.
Antes de ir, pediu à assistente social do hospital orientação sobre os cuidados de Lia enquanto Ana permanecesse internada.
Não presumiu que a menina pudesse simplesmente passar a morar com um desconhecido, mesmo que fosse seu avô.
Celina se ofereceu para mantê-la acompanhada naquela noite.
Ana, consultada pela equipe quando estava lúcida, concordou que Haroldo e Celina cuidassem provisoriamente da filha enquanto ela recebia tratamento.
Os profissionais registraram o contato e explicaram como pedir apoio familiar e social, caso fosse necessário.
Na loja, Vera examinou a carta sob a luz de uma luminária.
A assinatura lembrava a de Haroldo, mas as letras do corpo tinham um traçado diferente e a folha não apresentava marca de postagem.
— Isso não basta para provar uma falsificação — advertiu ela.
— Também precisamos saber como a carta chegou a Ana.
— Vítor entregou em mãos.
Ela acabou de me contar.
Vera fez uma anotação.
Perguntou quem administrava a correspondência da loja vinte anos antes.
Haroldo respondeu que Vítor recebia as cartas durante as viagens do irmão e tinha acesso ao escritório dos fundos.
— Eu estava procurando Ana em hospitais, rodoviárias e na polícia — disse Haroldo.
— Deixei que ele cuidasse dos negócios porque alguém precisava manter a loja aberta.
— E ele dizia o quê sobre o sumiço?
— Que Ana tinha sido vista saindo da cidade por vontade própria.
Que era melhor respeitar a decisão dela.
Haroldo percebeu, ao ouvir a própria voz, como havia confundido o relato do irmão com uma informação confirmada.
Ele procurara a filha durante meses, depois durante anos, mas nunca soubera onde começava a parte inventada daquela história.
De uma gaveta, retirou uma pasta com cópias de um registro de desaparecimento, números de hospitais e nomes de pessoas que procurara.
As primeiras páginas estavam cheias de datas e telefonemas.
Nas últimas, havia intervalos cada vez maiores entre uma tentativa e outra.
Vera observou as anotações sem comentá-las.
Haroldo compreendeu que aqueles papéis provavam tanto sua procura quanto o momento em que começara a se conformar.
Vera pediu para ver a notificação de desocupação.
O documento identificava uma empresa responsável pelo imóvel da pensão, da qual Vítor era administrador.
Não era uma ordem judicial nem autorizava, por si só, retirar uma mulher hospitalizada e sua filha da hospedagem no prazo anunciado.
— Vamos contestar a ameaça e proteger os pertences de Ana — disse a advogada.
— Mas antes precisamos entender por que Vítor sabia que ela estava em Curitiba.
Haroldo telefonou a Celina, que confirmou que Ana se hospedara seis semanas antes.
Chegara de Joinville, com uma mala, uma máquina de costura portátil e a filha.
No começo trabalhara em pequenos consertos para uma vizinha.
Depois adoecera e passara a sair cada vez menos.
— Ela me pediu o endereço da sua loja — contou Celina.
— Eu mesma escrevi num papel.
Alguns dias depois, o senhor Vítor apareceu procurando por ela.
Haroldo apoiou a mão na mesa.
Ana provavelmente estivera tentando encontrá-lo.
Alguém percebera antes dele e correra para interceptá-la.
O telefone tocou.
Era Rafael, que terminava de conferir os arquivos antigos do estabelecimento a pedido de Haroldo.
O rapaz estava envergonhado pela forma como tratara Lia.
— Seu Haroldo, eu sei que errei com a menina.
Mas achei uma coisa que talvez seja importante.
Ele explicou que havia uma pasta de inventários da época do desaparecimento de Ana.
Dentro, uma sequência de recibos de joias confiadas por clientes apresentava uma lacuna: faltava a folha numerada quarenta e sete.
— Não mexa em mais nada — pediu Haroldo.
— Vou olhar com a Vera.
Naquela noite, Ana melhorou o suficiente para conversar por alguns minutos ao telefone, com autorização da equipe.
Haroldo contou que a carta estava com ele e perguntou apenas o que havia acontecido antes de sua partida.
— Encontrei uma diferença no registro de um lote — respondeu Ana, com dificuldade.
— Eu ia mostrar a você.
O tio Vítor disse que, se eu fizesse isso, você seria acusado de roubo.
Ela precisou parar para recuperar o fôlego.
— Ele mostrou um recibo com a minha assinatura.
Eu nunca tinha visto aquele papel.
Haroldo pediu que descansasse.
Mas Ana insistiu em uma última frase.
— Guardei a cópia do registro verdadeiro.
Está costurada dentro da sacola.
Haroldo olhou para Vera.
A folha desaparecida da loja talvez não estivesse perdida para sempre.
O que Ana escondeu na sacola pode explicar o desaparecimento de vinte anos. Continue na Parte 4.













