— Ninguém vai assinar nada agora — disse Eduardo, devolvendo a folha à mesa.
Tadeu soltou uma risada curta.
— A casa é minha. Não preciso da autorização de um desconhecido.
— A senhora paga aluguel, tem recibos e está pedindo prazo. Se existe uma decisão, mostre. Se não existe, podemos procurar orientação antes de qualquer assinatura.
O proprietário apertou a pasta contra o corpo.
Ele parecia pouco habituado a ouvir perguntas quando anunciava uma decisão.
— Eu avisei há semanas.
— Avisar não é o mesmo que explicar o que ela está assinando — respondeu Eduardo.
Dalva continuava perto da parede, segurando o andador.
Eduardo a chamou pelo nome e esperou que ela se aproximasse por vontade própria.
Não queria substituir a voz dela pela sua.
— A senhora deseja assinar esse acordo hoje?
— Não — disse Dalva, num fio de voz. — Preciso entender primeiro.
Tadeu recolheu o documento com um gesto brusco.
Antes de sair, afirmou que voltaria acompanhado e que não pretendia ouvir novas desculpas.
Eduardo anotou a hora e as palavras, sem discutir no portão.
O som do carro desapareceu rua abaixo.
Dalva sentou-se na cadeira de balanço e cobriu os olhos.
— Fiz você se meter numa confusão por minha causa.
— A decisão foi minha. E ainda não resolvemos nada, só ganhamos tempo para fazer as perguntas certas.
Ele preparou água e deixou um copo perto dela.
Depois telefonou para uma amiga de infância que trabalhava numa associação de bairro e pediu indicação de atendimento jurídico gratuito.
Recebeu um endereço e a orientação de guardar todos os papéis sem assinar versões apressadas.
A tarde avançou devagar.
Dalva abriu um armário e tirou uma caixa de fotografias, como se quisesse mostrar que Lúcia havia existido naquela casa antes das notícias dolorosas.
Numa imagem antiga, uma jovem de cabelos escuros segurava um embrulho de papel colorido diante de uma vitrine.
No pescoço havia a corrente de prata.
— Ela tinha vinte e poucos anos quando tiraram essa foto — explicou Dalva. — Foi pouco antes de conhecer o pai do menino.
Eduardo reconheceu os olhos da mãe.
Não era uma semelhança vaga; era a mesma expressão concentrada que Lúcia fazia quando tentava consertar uma tomada ou descobrir por que uma conta estava errada.
Ele segurou a fotografia pelas bordas.
— É ela.
Dalva passou a mão sobre a imagem, sem tocá-la diretamente.
— Passei anos imaginando como estaria o rosto dela agora.
O celular de Eduardo vibrou quando já escurecia.
Lúcia informou que havia entrado na cidade e pediu a localização exata.
Ele saiu até a calçada para recebê-la, deixando Dalva alguns minutos sozinha com as fotografias.
O carro estacionou diante do portão verde.
Lúcia desceu apressada, mas parou antes de alcançar o filho.
Trazia uma bolsa de tecido, os cabelos presos de qualquer jeito e o colar de prata por cima da blusa.
— Onde ela está?
— Na varanda. Mãe, não precisa entrar correndo. Ela também está com medo.
Lúcia olhou para o portão como quem tenta reconhecer a entrada de uma casa que viu em sonhos.
— Eu tinha certeza de que ela havia morrido.
Eduardo não perguntou quem tinha lhe dado essa certeza.
Abriu o portão, tomou a bolsa de sua mão e acompanhou a mãe até a varanda.
Dalva estava de pé, apoiada no andador.
Quando viu Lúcia, levou a mão ao peito.
— Minha filha?
A voz saiu pequena, quase irreconhecível.
Lúcia ficou imóvel a poucos passos dela.
— Mãe… é você mesmo?
Por alguns segundos, ninguém se abraçou.
Havia vinte e sete anos entre aquelas duas mulheres, e o reconhecimento não apagava as perguntas acumuladas nesse tempo.
Dalva estendeu a mão, mas Lúcia olhou primeiro para o pingente.
— Você guardou.
— Todos os dias — respondeu a mãe.
Lúcia retirou o próprio colar de dentro da blusa.
Os dois pingentes tinham o mesmo formato e a mesma rosa, embora um fosse mais gasto que o outro.
Ela os colocou lado a lado sobre a mesa da varanda.
— Comprei numa feira de artesanato — disse. — O homem gravou as rosas porque eram as flores da nossa janela.
Dalva começou a chorar em silêncio.
Lúcia finalmente se aproximou e abraçou a mãe com cuidado para não derrubar o andador.
O abraço durou pouco; não por falta de sentimento, mas porque a filha ainda tremia de indignação.
— Disseram que você estava morta — afirmou Lúcia. — Eu tentei escrever antes disso. Todas as cartas voltaram.
— Quem disse que eu tinha morrido?
— Otávio. Ele me procurou anos depois de eu ir embora. Disse que você tinha sido enterrada e que não queria que eu aparecesse antes, nem depois.
Dalva soltou os braços da filha.
Otávio fora seu marido, um homem que controlava os telefonemas, o dinheiro e até as visitas que ela recebia.
Ela havia se separado dele muitos anos antes, mas algumas ameaças pareciam continuar habitando a memória.
— Ele me disse que seu bebê morreu — sussurrou. — Eu estava internada com pneumonia quando você deu à luz. Quando voltei, ele disse que você tinha ido embora depois do enterro.
Lúcia balançou a cabeça.
— Meu filho saiu da maternidade comigo. Ele nunca esteve morto.
Eduardo sentiu o peso das duas histórias se chocando diante dele.
Sua mãe havia criado o menino que Dalva chorara por quase três décadas.
Era mais do que uma coincidência entre colares, nomes e fotografias; havia uma vida inteira guardada no silêncio imposto às duas.
— Otávio me disse que você não queria me ver com uma criança nos braços — continuou Lúcia. — Disse que eu tinha envergonhado a família.
Dalva pareceu perder as forças.
Eduardo levou a cadeira até ela, mas não interrompeu a conversa.
— Eu pedi para conhecer o menino — respondeu a senhora. — Pedi tantas vezes que ele parou de falar comigo durante semanas.
Lúcia abriu a bolsa e retirou uma fotografia já amarelada.
Nela, uma mulher muito jovem segurava um bebê envolto numa manta azul diante da maternidade.
No verso estava escrita a data de nascimento de Eduardo, em 1999.
— Este é o filho que disseram que havia morrido — falou, colocando a foto nas mãos da mãe.
Dalva não olhou para o bebê primeiro.
Olhou para a filha, como se quisesse pedir permissão para acreditar.
Só então encostou um dedo na manta azul.
Eduardo pensou que aquele seria o momento de responder à pergunta feita na lanchonete: sim, ele era seu neto.
Mas Lúcia ergueu os olhos e o deteve com uma frase inesperada.
— Antes de qualquer abraço a mais, eu preciso saber o que aconteceu com as minhas cartas.
Dalva se virou lentamente para o armário da sala.
— Guardei uma coisa que Otávio dizia ter sido escrita por você. Nunca consegui jogar fora.
O papel que ela retirou da gaveta tinha uma assinatura familiar para Lúcia, mas a letra da mensagem não parecia sua.
Para entender quem escreveu a mensagem que afastou mãe e filha por tantos anos, leia a Parte 4.













