O papel tinha sido dobrado quatro vezes.
Lúcia o abriu sobre a mesa, enquanto Dalva mantinha uma das mãos pousada na fotografia do bebê.
A mensagem era curta: «Não quero mais notícias desta casa. Meu filho não sobreviveu. Não me procure».
Lúcia leu duas vezes.
O nome dela aparecia no final, desenhado numa assinatura que procurava imitar a sua.
— Eu nunca escrevi isso.
Dalva demorou a responder.
O papel estava tão amarelado que parecia ter adquirido, com os anos, uma autoridade que não merecia.
— Otávio trouxe a carta. Disse que tinha recebido pelo correio e que você não queria mais falar conosco.
— Não há envelope?
— Ele disse que jogou fora.
Eduardo observou o documento sob a luz da varanda.
Não havia data, endereço de remetente nem qualquer sinal de que o papel tivesse passado por uma agência dos Correios.
Não era prova definitiva de autoria, mas tampouco justificava a certeza que separara aquelas mulheres.
Lúcia pegou a bolsa e retirou um pequeno maço preso por elástico.
Eram cópias de cartas que escrevera após sair de Botucatu e envelopes devolvidos com carimbos antigos.
— Guardei porque, de alguma forma, tinha medo de esquecer que tentei — explicou.
Dalva tocou o nome dela num dos envelopes.
O endereço estava quase correto, mas o número da casa era diferente.
Lúcia mostrou a anotação que recebera de Otávio, num bilhete enviado pouco depois do parto.
Ali aparecia o mesmo número errado.
— Foi para cá que ele mandou escrever — disse Lúcia. — Depois afirmou que você não responderia nem se recebesse.
Dalva sentou-se em silêncio.
A coincidência entre os endereços errados, o bilhete e a carta sem envelope tornava difícil sustentar a versão de Otávio.
Ele havia morrido sete anos antes; não haveria confronto, confissão nem um pedido tardio de perdão.
O que restava eram os danos e as escolhas de quem ainda estava vivo.
— Eu devia ter ido atrás de você — disse Dalva.
Lúcia respirou fundo.
— Eu também devia ter voltado uma vez. Mas você sabe como ele me ameaçava quando eu era menina. Eu tinha um recém-nascido, pouco dinheiro e medo de que ele aparecesse no lugar onde eu morava.
A mãe assentiu, sem se defender.
— Eu deixei que ele falasse por mim. Tenho de viver com isso.
Eduardo olhou para as duas.
Não queria que a história terminasse numa disputa sobre quem sofrera mais.
A mãe não precisava desculpar tudo naquela noite, e a avó não precisava encontrar uma justificativa para cada ano perdido.
— Podemos guardar essas cartas e conversar com calma — sugeriu. — A casa também precisa de atenção antes de sexta-feira.
Dalva pareceu lembrar-se de repente do documento que quase assinara.
— Não quero que a sua mãe pense que voltei para pedir dinheiro.
— Não foi você que me procurou — respondeu Lúcia. — Foi meu filho que encontrou você por acaso. E eu vim porque queria saber se ainda tinha mãe.
Nenhuma das duas encontrou algo a acrescentar.
Eduardo preparou um jantar simples com o que havia na geladeira.
Comeram devagar, falando da viagem, do trânsito e da loja de ferramentas onde Antônio trabalhava antes de se aposentar.
Era uma conversa comum, e justamente por isso Dalva parecia comovida.
Lúcia dormiu num pequeno quarto de hóspedes.
Eduardo ficou no sofá, depois de mandar mensagem a Márcia avisando que buscaria a moto no dia seguinte.
De madrugada, acordou com o barulho de passos e encontrou Dalva junto à mesa.
— Pensei que você desapareceria quando descobrisse tudo — confessou ela.
— Eu também não sei o que fazer com tudo isso. Mas amanhã ainda estarei aqui.
Na manhã seguinte, Lúcia levou os dois de carro a um atendimento de orientação jurídica indicado pela associação de bairro.
A profissional que os recebeu, doutora Camila, examinou o contrato e as mensagens com atenção.
Ela não prometeu que Dalva poderia ficar naquela casa para sempre.
Explicou que uma disputa sobre locação exigia procedimentos próprios e que a proprietária anterior ter morrido não autorizava ninguém a retirar uma moradora à força.
Também deixou claro que seria necessário confirmar os documentos e a situação contratual antes de definir os direitos de cada lado.
— O mais importante hoje é que a senhora não assine uma saída voluntária sob pressão — orientou. — Vamos pedir por escrito o fundamento da cobrança e uma proposta de prazo realista.
Dalva apertou a pasta contra o colo.
— Então ninguém pode tirar minhas coisas na sexta-feira?
— Não existe aqui qualquer ordem judicial de retirada que a senhora tenha recebido. Se alguém tentar agir por conta própria, procure ajuda imediatamente. Vamos registrar o que foi ameaçado.
Eduardo fez cópias dos recibos e das mensagens.
Lúcia assinou uma autorização para ser contatada a respeito do acompanhamento, mas Dalva fez questão de permanecer como a pessoa responsável pelas decisões sobre sua moradia.
— Sou velha, não sou incapaz de escolher — declarou, com uma firmeza que fez Eduardo sorrir.
À tarde, Camila enviou uma comunicação formal a Tadeu, solicitando esclarecimentos e propondo uma reunião com a presença de Dalva.
O proprietário respondeu apenas que não mudaria o prazo.
Quando soube que ela agora estava acompanhada pela filha e pelo neto, escreveu uma frase ainda mais áspera: «Família aparecendo não muda a propriedade».
Dalva leu a mensagem e desligou o celular.
— Ele tem razão numa coisa — murmurou. — Vocês chegaram agora. Não quero que carreguem vinte e sete anos de sofrimento como se fosse uma dívida.
Lúcia sentou-se diante dela.
— Eu não vim para pagar uma dívida. Vim porque passei metade da vida pensando que nunca mais poderia olhar para você.
Na quinta-feira, Eduardo voltou à lanchonete, buscou sua motocicleta e agradeceu a Márcia.
Contou apenas que a senhora tinha encontrado parentes, sem transformar a intimidade da família em notícia para a cidade.
Ao retornar, viu Dalva regando os vasos de manjericão, ainda inquieta, mas sem esconder os olhos de quem passava.
Na manhã de sexta-feira, antes das oito, o telefone tocou.
Era uma vizinha dizendo que um caminhão de mudanças havia parado na frente da casa.
Eduardo abriu a janela e viu dois homens retirando mantas e carrinhos da carroceria.
Tadeu estava junto ao portão verde, com outra cópia do acordo nas mãos.
Dalva ergueu o andador para se levantar.
— Ele veio levar minhas coisas.
Para descobrir como a família impediria aquela retirada e o que Dalva decidiria fazer com sua casa, acompanhe a Parte 5.













