Eduardo chegou ao portão antes que os homens retirassem a primeira caixa do caminhão.
Tadeu o reconheceu e apontou para a porta, como se a presença dele fosse um obstáculo inconveniente.
— Hoje acabou a conversa. Tenho compradores interessados e preciso entregar a casa vazia.
— A dona Dalva não autorizou mudança nenhuma — respondeu Eduardo. — O senhor trouxe alguma ordem que permita retirar os pertences dela?
Tadeu balançou o acordo ainda sem assinatura.
— Ela sabe que precisa sair.
Um dos carregadores olhou do papel para a senhora, que se aproximava devagar pelo caminho da varanda.
Era evidente que haviam recebido informações diferentes sobre aquele serviço.
— O combinado era recolher móveis de uma casa já desocupada — disse o homem. — Não vamos encostar em nada enquanto estiver assim.
Tadeu ficou vermelho.
— Eu pago vocês, então façam o trabalho.
— E eu moro aqui — respondeu Dalva.
A frase não saiu alta, mas interrompeu a discussão.
Eduardo se virou e percebeu que ela havia levado consigo a pasta de recibos, não o colar nem a bolsa.
Era a primeira vez que a via diante de Tadeu sem pedir desculpas por ocupar espaço.
— Paguei o que devia — continuou. — Quero entender meus direitos, e não concordo com ninguém entrando para pegar minhas coisas.
Lúcia saiu logo atrás e ficou a seu lado.
Não segurou o braço da mãe até que Dalva o procurou por vontade própria.
Eduardo ligou para Camila e colocou a chamada no viva-voz, depois de avisar a todos.
A profissional explicou que tinha recebido as mensagens e que a tentativa de retirada deveria cessar enquanto a situação fosse esclarecida pelos meios adequados.
Acrescentou que, se houvesse entrada forçada ou ameaça, Dalva deveria solicitar ajuda às autoridades.
Os carregadores começaram a recolher as mantas.
— Vocês estão me fazendo perder dinheiro — reclamou Tadeu.
— O senhor contratou a mudança sem o consentimento da moradora — disse o motorista. — Precisa resolver isso com ela antes.
Eduardo registrou a placa do caminhão e os horários.
Fez isso sem provocar Tadeu, que enfim se afastou do portão.
Quando o veículo saiu, a rua voltou ao barulho habitual de bicicletas e portões abrindo.
Dalva se sentou na cadeira da varanda e ficou olhando para o lugar onde estivera o caminhão.
— Pensei que eles iam entrar mesmo comigo aqui — disse.
Lúcia pegou um copo de água.
— Eu também tive medo.
Eduardo estranhou ouvir aquela confissão da mãe.
Durante a infância, conhecera Lúcia como a pessoa que resolvia contas atrasadas, febres e viagens sem demonstrar insegurança.
Naquele momento, ela parecia novamente a moça que deixara Botucatu com um bebê no colo.
— Eu não vou deixar aquele homem fazer vocês passarem por isso — prometeu ele.
Dalva ergueu os olhos.
— Não faça promessas que dependam só de você, meu filho. Você ficou porque quis. Não precisa carregar a minha vida inteira.
Eduardo se sentou no degrau da varanda.
A palavra «filho», usada sem cálculo, lhe pareceu mais importante que qualquer discussão com Tadeu.
— Eu não posso resolver tudo — admitiu. — Mas consigo estar presente. Isso não é pouco.
Na segunda-feira, a reunião de conciliação aconteceu numa sala pequena do atendimento jurídico.
Tadeu compareceu acompanhado de um corretor e afirmou que pretendia vender o imóvel porque precisava reorganizar as finanças da família.
Camila ouviu a explicação e solicitou os documentos relevantes à locação e à negociação.
Ninguém afirmou que a venda, por si só, apagaria as exigências legais existentes.
Dalva surpreendeu a todos ao dizer que não insistia em permanecer ali para sempre.
Queria um prazo digno para escolher outra casa, organizar os móveis e receber orientação sobre o contrato.
Não aceitava, porém, que alguém a tratasse como uma ocupante sem voz.
— Não tenho condições de carregar minhas coisas em um dia — explicou. — E também não tenho vergonha de precisar de ajuda para caminhar.
Tadeu desviou o olhar.
O corretor sugeriu que a desocupação organizada poderia facilitar a negociação com os interessados, evitando novos impasses.
Depois de conversas separadas e revisão do texto, Tadeu aceitou um acordo escrito: quatro meses de permanência, pagamentos nas condições registradas e nenhuma retirada por iniciativa própria.
Camila esclareceu cada cláusula para Dalva antes de pedir que decidisse.
— Se eu não quiser assinar, posso pensar mais? — perguntou a idosa.
— Pode. A decisão é sua — respondeu a profissional.
Dalva leu a folha uma segunda vez.
Dessa vez, não havia seta vermelha apontando para uma assinatura urgente.
Ela fez duas perguntas, pediu a correção de uma data e só então assinou.
Recebeu sua via e a guardou entre os recibos.
Na volta, Lúcia comprou pão fresco e queijo na padaria da esquina.
Os três almoçaram à mesa da cozinha, onde havia lugares para seis pessoas, embora Dalva tivesse passado muitos anos comendo sozinha.
A senhora contou histórias pequenas sobre Lúcia: uma bicicleta emprestada, uma boneca de pano, uma vez em que a menina trouxe um gato escondido no casaco.
— Você nunca me contou essa do gato — disse Eduardo à mãe.
— Porque ela também nunca contou que me deixou ficar com ele por uma semana — respondeu Lúcia.
As duas sorriram ao mesmo tempo.
Foi um sorriso hesitante, mas não pareceu ensaiado.
Eduardo começou a compreender que a família perdida não seria devolvida com um único abraço.
Seria reconstruída por conversas que não precisavam terminar com uma descoberta extraordinária.
Mais tarde, ajudou Dalva a revisar despesas e contatos de imóveis acessíveis perto de Sorocaba.
Lúcia sugeriu que ela fosse morar em sua casa, pelo menos até encontrarem uma solução definitiva.
— Há espaço — afirmou. — Não precisa se preocupar com aluguel agora.
Dalva ficou quieta.
Seu olhar percorreu a janela, o fogão antigo e a parede onde havia uma fotografia da filha jovem.
— Quando saí desta casa para falar com você naquela lanchonete, queria apenas que alguém me defendesse por um dia — disse a Eduardo.
— E agora?
— Agora tenho uma filha, um neto e quatro meses para decidir. Mas ainda não sei se consigo morar com alguém depois de tanto tempo sozinha.
Lúcia abriu a boca para responder, porém a mãe fez um gesto delicado pedindo que a deixasse terminar.
— Não quero ir embora daqui porque Tadeu me assustou. E também não quero aceitar a primeira casa oferecida só para não magoar vocês.
Eduardo assentiu.
Era a primeira escolha que Dalva fazia sem a ameaça de um prazo absurdo.
Naquela noite, ela entregou a ele uma folha com três endereços que havia separado por conta própria.
Dois ficavam perto da casa de Lúcia.
O terceiro, no entanto, tinha um nome escrito a lápis ao lado: «A rua onde minha filha aprendeu a andar de bicicleta».
Eduardo percebeu que a busca por uma casa podia obrigar as duas mulheres a enfrentar outra lembrança.
E dessa vez nenhum homem de fora poderia decidir por elas.
Para saber por que Dalva escolheu voltar àquela rua e como a família encontrou um novo começo, continue na Parte 6.













