Na manhã seguinte, acordei com o som familiar de Pipoca cruzando o corredor. A dor no quadril ainda estava lá, uma pontada mais funda quando virei para a beirada da cama. Esperei alguns instantes antes de me levantar, usei o apoio que Renato havia deixado ao alcance e fiz o movimento devagar, como tinham orientado no atendimento. Não queria provar independência às custas de outra queda.
Renato dormira no sofá. Quando cheguei à sala, encontrei a coberta dobrada e uma caneca sobre a mesa. Ele já estava na cozinha, observando a torneira com a expressão de quem pretendia resolver um vazamento pela força dos olhos.
— Celina vem depois do café — avisei. — Ela vai me passar o contato do encanador.
— Eu posso contratar alguém.
— Pode me ajudar a contratar. É diferente.
Ele respirou fundo e concordou. Falar assim parecia estranho entre nós. Durante anos, as coisas tinham sido mais simples: eu fazia o almoço de domingo, ele aparecia com Patrícia, e ninguém precisava negociar quem decidiria o lugar da guia de uma cachorra. A queda transformara uma questão doméstica numa conversa sobre autoridade.
O telefone dele tocou enquanto eu colocava ração no pote de Pipoca. Renato viu o nome na tela e atendeu. Não ouvi todas as palavras de Patrícia, apenas sua voz abafada perguntando se eu estava bem. Ele explicou que continuávamos na minha casa e que precisavam conversar. Não gostei de ouvi-lo dizer que “a situação ficou complicada”. Pedi que passasse o aparelho.
— Oi, Patrícia. Sou eu.
— Lídia, como está seu quadril?
— Ainda dói. Mas preciso perguntar uma coisa. Você sabia que Renato estava tentando mandar Pipoca para um abrigo?
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Sabia que ele estava procurando um lugar para ela ficar enquanto a senhora viesse para cá. Eu disse que não conseguiria receber um cachorro em casa. Não sabia que ele já tinha falado com um abrigo, muito menos que tinha dito que a senhora concordou.
Não parecia uma frase ensaiada. Patrícia nunca quis animais dentro de casa; isso não era novidade. Em visitas anteriores, pedia que Pipoca não subisse no carro, e eu respeitava. Mas não ter espaço para minha cadela era diferente de escolher o destino dela sem minha autorização.
— Eu não quero forçar ninguém a receber Pipoca — respondi. — Também não quero que me forcem a deixá-la.
— Eu entendo. Se a senhora quiser, posso passar aí depois do trabalho para a gente conversar sem tanta confusão.
A palavra “quiser” me chamou atenção. Era exatamente a pergunta que faltara na tarde anterior. Combinamos uma visita curta, porque eu precisava descansar.
Celina chegou perto das dez. Trouxe o número de Sérgio, o encanador, e ficou ao meu lado enquanto eu explicava pelo telefone onde a torneira pingava. Sérgio poderia vir na parte da tarde. Marcamos o horário depois de conferir se alguém estaria presente para ajudá-lo a mover o que fosse necessário. Nenhum documento extraordinário, nenhuma decisão secreta. Bastou uma conversa.
Também telefonei ao serviço onde fora atendida depois da queda para confirmar as orientações de retorno e perguntar como avaliar melhor minha dificuldade ao caminhar. A recepção informou o procedimento para agendar a reavaliação. Anotei tudo num papel, com letra maior do que a minha antiga pressa permitia.
Renato acompanhou as ligações e ofereceu levar-me ao retorno. Aceitei. Ele perguntou se podia comprar um apoio para a área do banho. Respondi que primeiro queria saber qual modelo seria adequado e onde instalá-lo. Não era recusa; era cautela. Pela primeira vez, ele não tratou uma pergunta minha como obstáculo.
À tarde, Sérgio encontrou a peça desgastada na torneira e explicou o reparo antes de começar. A água parou de pingar. Pedi que verificasse se havia umidade perto do armário, e ele indicou os pontos que precisavam secar. Renato lavou o chão depois que o serviço terminou, usando pouca água, e deixou a passagem livre. Até Pipoca pareceu estranhar a atenção repentina que todos davam ao piso da cozinha.
Patrícia chegou quando ainda havia luz na varanda. Trouxe algumas frutas e perguntou se podia entrar. Sentou diante de mim, deixando Renato na cadeira ao lado. Não tentou se justificar imediatamente.
— Eu falei que não queria cachorro na nossa casa — começou. — Mas imaginei que vocês fossem conversar sobre alternativas. Quando Renato disse que estava tudo resolvido, acreditei que a senhora tinha escolhido.
— Eu estava escolhendo ir por duas semanas — expliquei. — Não estava escolhendo perder Pipoca.
Ela baixou os olhos para a cadela deitada perto dos meus chinelos.
— Não me sinto capaz de cuidar dela dentro de casa. Isso continua sendo verdade. Mas podia ter perguntado diretamente à senhora como se sentia.
Renato se remexeu na cadeira.
— Fui eu quem falou com o abrigo. Fui eu quem mentiu. A Patrícia não pediu isso.
Era importante ouvi-lo assumir a responsabilidade sem distribuir parte dela para alguém que não estava no portão. Ainda assim, aquele reconhecimento não consertava automaticamente a confiança quebrada.
Perguntei a Patrícia se havia alguma forma de eu receber ajuda em casa enquanto me recuperava. Ela mencionou conhecer uma profissional que atendia pessoas idosas por períodos combinados, mas não sabia se tinha disponibilidade. Sugeri que pedisse o contato, sem marcar nada em meu nome. Renato anotou a ressalva antes de ligar.
Quando os dois se levantaram para ir embora, senti a dor voltar ao apoiar o peso na perna. Tentei esconder uma careta. Renato viu. Não fez comentário, apenas perguntou se eu queria seu braço. Segurei nele até alcançar a poltrona.
Na saída, Patrícia me disse uma coisa que ficou ecoando depois que a porta fechou.
— Lídia, ele não contou só para a senhora que estava com medo. Também não contou para mim quanto estava assustado.
Voltei a olhar para meu filho pela janela. Renato permanecia perto do portão, sozinho, como se precisasse de alguns minutos antes de entrar no carro. Pela primeira vez, pensei que precisávamos conversar não apenas sobre o que ele fizera, mas sobre aquilo que não tinha conseguido dizer.
Para descobrir que medo Renato vinha escondendo de nós, acompanhe a Parte 4.













