— A Pipoca não vai, mãe.
Renato disse isso com a mão apoiada na tampa aberta do porta-malas, como se estivesse avisando que não havia espaço para mais uma sacola. Minha mala já estava dentro do carro. Ao meu lado, Pipoca levantou as orelhas quando ouviu o próprio nome.
— Como assim, não vai?
— A senhora vai ficar comigo até melhorar. Ela vai para um abrigo. Já conversei com o pessoal de lá.
Olhei para meu filho, esperando que explicasse a brincadeira. Ele não sorriu.
Meu nome é Lídia, tenho setenta e oito anos e moro numa casa pequena em Porto Alegre. Naquele fim de tarde, depois de aceitar a ajuda de Renato para me recuperar de uma queda, descobri que ele tinha preparado uma despedida que eu jamais autorizara.
Pipoca encostou o focinho no meu joelho. É uma vira-lata caramelo, com uma pata dianteira branca e uma mania de me seguir até quando vou apenas buscar um copo d’água. Está comigo há onze anos. Antônio, meu marido, reclamava dos pelos no sofá, mas sempre guardava um pedacinho de frango para ela. Depois que ele morreu, foram aquelas patinhas atravessando o corredor que tornaram as manhãs suportáveis.
Três dias antes, escorreguei na cozinha. A torneira vinha vazando havia algum tempo; naquela manhã, uma pequena poça se formara perto da pia. Meu chinelo deslizou, bati o quadril contra o chão e fiquei sentada por alguns minutos, com medo de tentar levantar. Renato chegou depressa, me levou ao atendimento e passou a noite verificando os remédios e deixando comida pronta.
Ele estava preocupado, e tinha razão. Ainda sentia dor ao andar e sabia que precisava consertar a torneira, secar o piso e instalar apoios. Por isso concordei em passar duas semanas na casa dele, até conseguir me movimentar melhor. Só não imaginei que, para ser cuidada, teria de abandonar Pipoca.
— Você decidiu isso sem falar comigo? — perguntei.
Renato olhou para o banco de trás.
— Lá em casa não cabe cachorro, mãe. A Patrícia não aceita animais dentro de casa. É temporário. A senhora precisa ficar em segurança.
— Então nós conversamos e encontramos uma solução.
— Eu já encontrei.
Aquelas quatro palavras me fizeram apertar a guia vermelha que eu segurava. O tecido estava gasto perto do fecho; eu mesma o costurara duas vezes. Pipoca se levantou, achando que sairíamos para passear.
— É só um animal — Renato acrescentou, impaciente.
Olhei para ele. Não era um filho indiferente. Tinha comprado um tapete antiderrapante para meu banheiro e insistido em me acompanhar ao médico. Mas, desde a queda, começara a falar de mim na terceira pessoa, mesmo quando eu estava na sala.
— Para você pode ser só um animal — respondi. — Para mim, ela é família.
Ele suspirou e apontou para o carro.
— A mala está pronta. Vamos antes que escureça.
Eu havia separado os potes de Pipoca, um saco de ração e o cobertor em que ela dormia desde o último inverno. Nada daquilo estava no banco de trás.
— Onde estão as coisas dela?
— Na área de serviço. Não vamos precisar.
Não respondi de imediato. Observei a porta da minha casa ainda aberta, o degrau onde Antônio costumava se sentar e a cachorra esperando perto do portão. Não queria transformar minha recuperação numa briga. Também não podia entrar naquele carro e fingir que tinham me consultado.
Dei a volta até o porta-malas, devagar, apoiando uma mão na lateral do carro para não forçar o quadril. Renato estendeu o braço, pensando que eu fosse entrar. Em vez disso, pedi:
— Tire minha mala, por favor.
— Mãe…
— Eu não consigo levantá-la sozinha. Mas também não vou embora sem a Pipoca.
Ele ficou parado por um instante. Depois colocou a mala na calçada, com um movimento brusco.
Apoiei a mão na alça apenas para mantê-la firme. Depois me sentei com cuidado no degrau perto do portão e chamei Pipoca. A cachorra veio até mim. Prendi a guia vermelha na coleira dela, sem precisar me curvar sobre o quadril dolorido.
O clique do fecho pareceu mais alto do que o trânsito da rua.
— A senhora está sendo teimosa — Renato disse. — E se cair outra vez quando eu não estiver aqui?
— Eu tenho medo disso também.
Minha resposta o surpreendeu. Talvez esperasse que eu negasse a queda, como havia feito no primeiro dia.
— A cozinha precisa de conserto. Eu talvez precise de alguém comigo por um tempo. Mas você não pode decidir o destino dela enquanto eu estou viva e posso responder por mim.
Renato olhou para a guia, depois para a mala. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço.
— Eu só estou tentando cuidar da senhora.
— Então me escute.
Permaneci junto ao portão, sentindo Pipoca se acomodar ao lado da minha perna.
— Se ela não entrar, eu também não entro.
Renato tirou o celular do bolso. Passou o dedo pela tela, parou e soltou o ar lentamente.
— Mãe, já falei com uma voluntária do abrigo. Ela está esperando minha confirmação para receber a Pipoca hoje. Disse que precisa conversar com a responsável e conferir os documentos antes de qualquer entrega.
Senti um frio no estômago.
— Então ela sabe que você ainda não falou comigo?
Renato desviou os olhos.
— Eu achei que a senhora acabaria entendendo.
— Renato, o que você contou a essa mulher?
Por alguns segundos, ouvi apenas o barulho de um ônibus passando e a respiração tranquila de Pipoca junto aos meus pés. Meu filho abaixou o telefone.
— Eu disse que a senhora tinha concordado.













