Não sei por quanto tempo fiquei olhando para Renato. O portão estava encostado, a mala na calçada, e ele ainda segurava o celular como se pudesse recolher aquelas palavras de volta. Pipoca apoiou a cabeça no meu pé. Foi esse pequeno peso que me fez falar sem levantar a voz.
— Ligue para a voluntária.
— Mãe, agora não precisa mais. Eu cancelo tudo.
— Antes, quero saber exatamente o que você combinou.
Ele abriu a boca e tornou a fechá-la. Pela primeira vez naquela tarde, a pressa deixou seu rosto. Pegou o telefone com as duas mãos, procurou o contato e colocou a chamada no viva-voz, a meu pedido. Uma mulher atendeu depois de alguns toques.
— Alô, Renato? Conseguiu conversar com sua mãe?
— Boa tarde — interrompi, sem esperar que ele respondesse. — Sou Lídia, a dona da Pipoca.
Houve um silêncio curto.
— Boa tarde, dona Lídia. Meu nome é Marta. Eu pedi ao seu filho para conversar diretamente com a senhora antes de qualquer decisão.
— Ele disse que eu tinha concordado?
— Disse, sim. Mas nós ainda não recebemos documentação nem autorização sua. Por isso eu estava esperando a ligação.
Segurei a guia vermelha com mais firmeza. Renato olhava para uma rachadura da calçada.
— Eu não concordei — esclareci. — Não quero entregar minha cadela.
— Então não existe entrega a ser feita, dona Lídia. Vou registrar que a senhora não autorizou. Desejo que se recupere bem.
A simplicidade da resposta quase me fez chorar. Eu havia passado minutos tendo de defender uma decisão que deveria ter começado comigo. Marta não tentou me convencer, nem perguntou por que eu era tão apegada a uma cachorra. Apenas me ouviu.
Antes de desligar, fiz mais uma pergunta.
— Meu filho disse que ela ficaria aí só duas semanas. Era isso mesmo?
Marta explicou, com cuidado, que o abrigo não funcionava como uma hospedagem com data garantida para buscar o animal. A equipe analisava cada situação e precisaria discutir qualquer possibilidade antes de aceitar Pipoca. Não havia nenhuma vaga reservada em meu nome.
Olhei para Renato.
— Você sabia disso?
Ele passou a mão no rosto.
— Eu achei que daria para resolver depois.
A conversa terminou. O celular pareceu pesar muito mais na mão dele do que antes.
— Resolver depois o quê? — perguntei. — Se eu poderia buscar minha cachorra? Se ela ainda estaria lá?
— Eu não pensei tão longe.
— Foi justamente esse o problema. Você pensou por mim, mas não pensou em mim.
Ele recebeu a frase de cabeça baixa. Não respondeu. No portão da casa ao lado, ouvi uma chave girar. Era Celina, minha vizinha de muitos anos, voltando com uma sacola pequena de compras. Ela percebeu a mala e diminuiu o passo.
— Está tudo bem, Lídia?
Eu não tinha disposição para contar aquela discussão na rua inteira. Mas também sabia que precisava de ajuda para entrar. Pedi a Celina que me acompanhasse até a sala. Renato pegou a mala, desta vez sem fazer força demais nem bater nada. Pipoca seguiu atrás de nós, trotando sobre o piso seco da varanda.
Dentro de casa, sentei na poltrona perto da janela. A dor no quadril aumentara depois de ficar tanto tempo em pé. Celina trouxe água enquanto meu filho organizava os comprimidos prescritos no atendimento. Esperei que ele terminasse para dizer o que vinha tentando explicar desde o começo.
— Eu não estou dizendo que posso continuar tudo como antes. Estou dizendo que preciso participar das escolhas.
— E eu estou dizendo que tenho medo de receber uma ligação e encontrar a senhora caída outra vez — respondeu.
Não era uma frase para me ferir. Sua voz falhou bem no final. Mesmo assim, o medo dele não podia funcionar como uma assinatura no meu lugar.
Celina puxou uma cadeira, sem se intrometer na discussão. Perguntei se poderia passar ali na manhã seguinte e me ajudar a encontrar alguém que consertasse a torneira. Ela concordou e disse que já conhecia um encanador que trabalhava na rua. Depois ofereceu buscar o que faltasse na farmácia.
— Eu pago e agradeço — esclareci. — Só não quero que a senhora fique responsável por tudo.
— Não vou ficar. A gente organiza — ela respondeu.
Renato ouviu aquela troca em silêncio. Talvez estivesse acostumado a pensar que, se ele não resolvesse um problema inteiro, ninguém resolveria. Eu mesma contribuíra para isso, ligando para ele nas horas difíceis e escondendo as menores, por vergonha de incomodá-lo.
— Hoje eu fico aqui até a senhora se acomodar — propôs. — Amanhã conversamos sobre ajuda durante o dia.
Concordei, com uma condição: nada seria combinado com outras pessoas sem que eu soubesse. Ele assentiu. Celina se despediu depois de deixar uma jarra de água na mesinha, ao alcance da minha mão.
Antes que ele levasse a mala, pedi que sentássemos juntos por cinco minutos para conferir as orientações que eu recebera depois da queda. Eu havia entendido a maior parte, mas estava cansada no atendimento e queria ter certeza de que os horários dos remédios estavam anotados corretamente. Renato abriu a folha sobre a mesa. Dessa vez, em vez de falar com a caneta sobre minha cabeça, leu cada item em voz alta e esperou minha resposta. Corrigimos um horário que eu tinha anotado de maneira confusa e deixamos o papel ao alcance do telefone.
— É disto que eu preciso — falei. — Quando não entender uma coisa, quero poder perguntar sem que pareça que perdi o direito de entender as outras.
Ele alisou a borda da receita, pensativo.
— Eu nunca quis que a senhora se sentisse assim.
— Mas foi assim que me senti. E você precisa saber para não repetir.
Quando ficamos sozinhos, Renato levou a mala até meu quarto. Da porta, perguntou onde colocar as coisas de Pipoca. Indiquei a área de serviço. Ele voltou trazendo os potes e o cobertor, cada qual no lugar que a cadela conhecia. Não agradeci por ele devolver o que nunca deveria ter sido retirado.
Antes de sair do quarto, meu filho parou.
— A Patrícia sabe que a senhora não foi?
— Ainda não falei com ela — respondeu.
— E sabe o que você contou ao abrigo?
Renato demorou a responder. Depois negou com a cabeça.
Compreendi que a mentira não tinha ficado restrita à voluntária. Havia outra conversa que meu filho vinha adiando, e eu não queria que alguém inventasse mais uma decisão em meu nome.
Para entender o que Patrícia realmente sabia, continue na Parte 3.













