— Essa mesa é da família. A senhora não tem o direito de colocar uma foto aqui.
Meu primo Eduardo falou alto o bastante para calar a sala inteira. A mulher à sua frente parou com a moldura a poucos centímetros da toalha branca. Recolheu a mão e apertou o retrato contra o peito. Não levantou a voz. Não tentou se defender. Mas vi seus dedos firmarem as bordas da fotografia como se alguém estivesse prestes a arrancá-la de seus braços.
Meu nome é Marina, tenho trinta e cinco anos, e naquele dia estávamos reunidos em Salvador para lembrar minha tia Dalva. Ela havia morrido aos setenta e três anos, depois de uma doença curta. Sua casa continuava cheia de plantas, xícaras de formatos diferentes e pequenas coisas que eu reconhecia desde a infância. A ausência dela parecia ainda mais estranha naquele lugar onde tudo guardava seus hábitos.
Sobre a mesa havia fotografias de aniversários, batizados e viagens. Eduardo tinha assumido a organização do encontro. Achei curioso: nos últimos anos, quase nunca o vira visitar tia Dalva. Agora, no entanto, falava como se coubesse a ele decidir o que merecia ser lembrado.
A mulher de vestido azul estava perto da porta desde a minha chegada. Devia ter quase setenta anos. Segurava uma bolsa de tecido simples, sem procurar assunto com os convidados. De vez em quando, seus olhos se desviavam para o corredor que levava à cozinha. Era um olhar demorado, familiar, diferente do de alguém que visitava uma casa pela primeira vez.
— Eduardo, o que aconteceu? — perguntei.
— Essa senhora quer mexer nas lembranças da tia. Eu já expliquei que as fotos foram escolhidas pelos parentes.
— Eu só queria deixar esta — disse a mulher.
— Dona Teresa, não é o momento — respondeu Eduardo. — A senhora já foi recebida. Por favor, respeite a família.
Teresa. Eu conhecia aquele nome. Quando era criança, ouvia tia Dalva dizer que passaria o fim de semana com Teresa. Às vezes ela mencionava a amiga com a naturalidade de quem fala de algo que não precisa de explicação. Eu nunca perguntei quem ela era de verdade.
Na família, todos diziam que Dalva gostava de viver sozinha. Ela nunca se casou, não teve filhos, e os parentes comentavam sua suposta solidão como se conhecessem por inteiro os dias que ela passava longe de nós.
— Posso ver a foto? — perguntei a Teresa.
Eduardo deu um passo à frente.
— Marina, depois a gente resolve isso.
Olhei para ele. O problema não era apenas a fotografia. Era aquele “a gente”, pronunciado diante de uma mulher que parecia precisar de autorização até para sentir saudade.
— Não. Vamos olhar agora.
Teresa demorou um instante antes de me entregar a moldura. Apoiou uma das mãos embaixo do vidro, com o cuidado de quem não queria deixar cair algo insubstituível.
Na imagem, duas mulheres mais jovens sorriam diante daquela mesma casa. Reconheci o portão de ferro verde, a janela estreita da sala e o vaso de espada-de-são-jorge que Dalva sempre se recusara a trocar. Minha tia usava um vestido estampado. Ao seu lado estava Teresa, com os ombros tão próximos dos dela que não parecia haver espaço entre as duas.
Não era uma fotografia de festa. Eram apenas as duas diante da casa, sorrindo tranquilamente.
— Foi tirada aqui? — perguntei.
— Foi. Há muito tempo. Sua tia ainda pintava o portão com as próprias mãos.
Eduardo estendeu a mão para pegar a moldura.
— Uma foto antiga não dá a ninguém o direito de transformar este encontro em outra coisa.
Mantive o retrato comigo.
— Que outra coisa, Eduardo?
Ele não respondeu. Minha mãe, do outro lado da sala, começou a ajeitar os copos, embora nada parecesse fora do lugar. Reparei no modo como evitou olhar para Teresa. A cena me incomodou.
Teresa abriu a bolsa de tecido. Tirou de dentro duas chaves pequenas, presas por um fio desbotado.
— Uma é do portão — explicou. — A outra, da porta dos fundos. Dalva amarrou as duas assim porque eu vivia perdendo o chaveiro.
Quando aproximou as chaves da fotografia, o metal produziu um som discreto. Olhei para aqueles objetos gastos. Não provavam direito algum sobre a casa. Mas falavam de intimidade: conhecer a entrada dos fundos e ter um lugar para voltar.
— Eu vivi com a Dalva por quase trinta anos — ela disse. — Não vim pedir nada. Só queria que ela estivesse nessa mesa como eu me lembro dela.
Ninguém pareceu encontrar palavras. Eduardo ficou vermelho, mas insistiu:
— A senhora era uma amiga querida, nós sabemos. Mas isso não faz da senhora parente.
Teresa baixou os olhos. As chaves continuaram presas entre seus dedos. Foi então que percebi que ela tremia. Não parecia raiva. Parecia o esforço de continuar ali enquanto outras pessoas definiam até onde sua lembrança podia chegar.
Puxei uma cadeira para ela.
— Sente-se, Teresa.
Depois coloquei a moldura ao lado do retrato de infância de minha tia.
— Essa lembrança fica.
Minha mãe olhou rapidamente para Eduardo. Ele devolveu o olhar. Aquela troca silenciosa não me deu respostas; apenas aumentou a impressão de que havia coisas sobre Dalva que eu não conhecia.
Ao endireitar o apoio da moldura, notei uma inscrição no cartão preso à parte de trás. Virei a fotografia. A letra arredondada era inconfundível: a mesma que minha tia usava nos bilhetes de aniversário.
A tinta estava um pouco apagada, mas li cada palavra:
“Nosso primeiro dia em casa. Dalva e Teresa, 1997.”
Levantei os olhos para Teresa. De repente, a pergunta já não era por que ela trouxera aquela fotografia. Era por que tínhamos passado tantos anos chamando de visita uma mulher que Dalva chamava de casa.













