Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Eu ainda segurava a moldura virada, mostrando a caligrafia de tia Dalva, enquanto Teresa permanecia sentada na cadeira que eu puxara.
A palavra “casa” parecia ter ocupado todo o espaço da sala.
Era uma palavra pequena para aquilo que acabávamos de descobrir e, ao mesmo tempo, grande demais para Eduardo aceitar.
— Foi a própria Dalva que escreveu? — perguntou minha mãe.
— A senhora reconhece a letra tão bem quanto eu, mãe — respondi.
Helena era o nome dela, embora eu raramente a chamasse assim.
Naquela tarde, olhei para minha mãe como se a estivesse conhecendo pela primeira vez.
Ela aproximou os dedos da fotografia, mas não chegou a tocá-la.
Havia um cuidado excessivo no gesto, como se o vidro pudesse quebrar por causa da pergunta que ela se recusava a fazer.
— É uma lembrança bonita — disse por fim.
— Não é só uma lembrança — respondi.
— É a maneira como tia Dalva descreveu a vida dela.
Eduardo soltou uma risada curta, sem alegria.
— Vocês estão tirando conclusões de uma frase escrita atrás de um retrato.
A gente se reuniu para homenagear minha tia, não para discutir a intimidade dela.
— Foi você quem começou a discussão quando tentou tirar a foto da mesa — falei.
Teresa ergueu a mão, pedindo licença.
Não parecia querer vencer uma disputa.
Parecia cansada da necessidade de disputar alguma coisa.
— Eu posso contar como foi aquele dia, se vocês quiserem ouvir.
Minha mãe sentou-se.
Eduardo continuou de pé, mas não a interrompeu.
Teresa olhou para o portão pela janela aberta.
— Em noventa e sete, eu morava de aluguel num quarto pequeno.
A Dalva já tinha esta casa.
A gente se conhecia havia algum tempo e estava cansada de despedidas na porta.
Eu trouxe duas malas, uns livros e um jogo de pratos que minha mãe tinha me dado.
Dalva tinha medo de que eu não gostasse da cozinha porque a pia era baixa.
Eu disse que aprendia a lavar louça de qualquer jeito.
Um sorriso breve atravessou seu rosto.
Pela primeira vez desde que chegara, vi uma expressão que não vinha da necessidade de se defender.
Era a lembrança de uma conversa doméstica, tão comum que nenhuma fotografia seria capaz de registrá-la por inteiro.
— E vocês moravam juntas desde então? — perguntei.
— Houve meses difíceis.
Quando minha irmã precisou de cuidados, fiquei um tempo na casa dela.
Mas esta sempre foi a casa para onde eu voltava.
A Dalva comprava goiaba demais, eu reclamava, e na semana seguinte ela comprava tudo de novo.
Algumas pessoas sorriram discretamente.
Eu me lembrei das goiabas amadurecendo sobre a geladeira nas visitas da infância.
Sempre achei que fossem uma mania exclusiva de minha tia.
Naquele instante compreendi o quanto uma casa revela a presença de alguém sem que saibamos procurar.
— Teresa cuidava do jardim — comentou minha mãe, quase num sussurro.
Virei-me para ela.
— Então você sabia que ela morava aqui.
— Eu sabia que passava muito tempo com Dalva.
— Mãe, você acabou de falar do jardim como quem lembra de uma pessoa daqui.
Helena baixou o rosto.
Eduardo aproveitou o silêncio para recolher uma pilha de fotografias.
Vi que separava as molduras em dois grupos: as que ele escolhera e as que os convidados haviam trazido.
A de Teresa permanecia na mesa porque eu mantinha uma das mãos sobre ela.
— Precisamos encerrar essa conversa — declarou ele.
— Tem assuntos práticos para resolver, e tia Dalva deixou uma casa cheia de coisas.
— Assuntos práticos podem esperar até todo mundo ser tratado com respeito — respondi.
Foi então que Teresa perguntou por uma xícara.
Não pediu café ou água.
Perguntou apenas se ainda estava no armário a xícara branca com uma lasca perto da alça.
Minha mãe apontou automaticamente para o lugar certo, no alto, à esquerda.
Teresa agradeceu e se levantou com uma lentidão que não combinava com a firmeza de sua voz.
— Eu vou pegar.
A Dalva dizia que essa xícara só prestava porque eu era teimosa demais para jogar fora.
Acompanhei Teresa até a cozinha.
Havia duas toalhas de prato penduradas atrás da porta, uma azul e outra amarela.
No peitoril, um vasinho de manjericão tinha sido regado naquela manhã.
Teresa tocou a terra para verificar a umidade antes mesmo de abrir o armário.
Percebi que o gesto era anterior ao luto, anterior à discussão, anterior a nós.
— Quem cuidou das plantas desde que minha tia ficou doente? — perguntei.
— Eu.
Ela gostava que a casa continuasse parecendo casa, mesmo nos dias em que não podia sair do quarto.
— Por que ninguém me contou que vocês viviam juntas?
Teresa demorou a responder.
— Talvez você precisasse perguntar à sua família.
Eu não sei explicar o silêncio de outras pessoas.
— Quando ela ficou doente, quem acompanhava as consultas? — perguntei.
— Nós duas íamos quando ela conseguia sair.
Depois, quando não conseguiu mais, uma médica vinha vê-la.
Sua mãe apareceu algumas vezes e trouxe sopa.
Eduardo veio uma tarde, mas Dalva estava dormindo.
A resposta não trazia acusação, e talvez por isso me doesse mais.
Eu mesma tinha visitado minha tia apenas duas vezes nos últimos meses, sempre depressa, preocupada em não atrapalhar seu descanso.
Nas mensagens que trocávamos, ela dizia que estava acompanhada e eu, satisfeita com aquela palavra, nunca perguntava por quem.
Teresa não me devia uma explicação.
Era eu quem começava a entender o preço daquela curiosidade que nunca tivera.
— A Dalva falava muito de você — acrescentou Teresa.
— Gostava quando você telefonava para perguntar das plantas.
Nunca quis que você achasse que precisava escolher entre amar a família e gostar de mim.
Não consegui responder.
Pensei nas muitas vezes em que minha tia me oferecera uma conversa mais longa e eu respondera que voltaria num domingo menos corrido.
Ouvimos passos rápidos na sala.
Quando voltei, Eduardo tinha aberto uma pasta de papelão sobre a mesa onde estavam as fotografias.
Havia folhas impressas e um envelope com o nome de uma imobiliária.
Ele fechou tudo assim que percebeu minha presença, tarde demais para esconder uma fotografia da fachada e uma anotação feita à caneta: “visita de avaliação, terça-feira”.
— Por que uma imobiliária está avaliando esta casa? — perguntei.
— Estou tentando organizar as coisas antes que fiquem mais complicadas — respondeu.
— Organizar para quem?
Minha mãe levantou-se tão depressa que a cadeira raspou no piso.
— Eduardo, você disse que não marcaria nada sem conversar conosco.
Não era mais apenas uma fotografia que alguém tentava retirar daquela casa.
E, pela primeira vez, temi que Teresa pudesse perder também a porta que aquelas duas chaves ainda abriam.
Para entender quem havia autorizado a visita e o que Eduardo pretendia fazer com a casa, continue na Parte 3.













