Na segunda-feira, a sala de reuniões da Vale Claro parecia menor do que na semana anterior.
Ricardo já estava sentado quando chegamos.
Estela ocupava a cadeira ao lado dele, com uma pasta de couro sobre o colo.
Nenhum dos dois cumprimentou minha mãe.
Foi Beatriz quem se levantou e puxou uma cadeira para Marta.
— Bom dia, dona Marta.
— Bom dia — respondeu ela.
— Estou aqui porque sou a proprietária do imóvel sobre o qual vocês querem conversar.
Ricardo soltou uma risada curta.
— Marta, ninguém está negando isso.
— Só estamos tentando encontrar uma solução para o futuro.
Henrique colocou a certidão da matrícula sobre a mesa.
Explicou que comparecíamos para reiterar nossa oposição ao uso de documentos não autorizados e para esclarecer se alguém continuava anunciando a propriedade como disponível para negociação.
A advogada da Vale Claro informou que o projeto estava suspenso para revisão interna.
Ricardo pareceu ouvir apenas a última palavra.
— Revisão é exatamente o que eu quero — disse.
— Há fatos médicos que vocês desconhecem.
Estela abriu a pasta.
Vi os dois laudos que encontrara no apartamento, agora presos por um clipe dourado.
Ela deslizou as folhas na direção de Beatriz, mas Henrique pediu que fossem identificadas como cópias cuja autenticidade estávamos contestando.
— Não dá para fingir que a idade não existe — argumentou Estela.
Mamãe encarou-a.
— Minha idade existe.
— A doença que vocês escreveram aqui, não sei de onde tiraram.
Estela cruzou as mãos.
— Eu estava preocupada com a senhora.
— Então por que nunca me perguntou como eu estava?
A pergunta ficou sem resposta.
Eu senti a vontade antiga de intervir por mamãe, de falar mais alto para que ela não precisasse enfrentar aquele desprezo.
Mas percebi que isso também a colocaria em segundo plano.
Permaneci ao seu lado, em silêncio.
Ricardo mudou de estratégia.
Disse que uma venda permitiria a Marta viver com conforto, sem administrar funcionários nem lidar com as dificuldades da atividade rural.
Falou de impostos, custos e oportunidades.
Nenhum desses temas era proibido.
Uma oferta legítima poderia ser apresentada e recusada.
O problema era que ele havia preferido fabricar um consentimento em vez de pedir um.
— Qual é a dívida que o senhor quer pagar com a minha fazenda? — perguntou mamãe.
O rosto de Ricardo se contraiu.
Beatriz consultou a própria advogada antes de responder que existiam compromissos comerciais entre a Vale Claro e a empresa de Ricardo, mas que não caberia a Marta assumi-los.
Meu ex-sogro bateu na mesa com dois dedos.
— Fui eu quem colocou vocês em contato com uma oportunidade desse tamanho.
— Uma oportunidade com o nome de quem não autorizou nada — observou Henrique.
Estela se inclinou na minha direção.
— Você está gostando disso, Carlos?
— De me ver assim depois do que fez na igreja?
— Eu não terminei o casamento para te humilhar.
— Terminei porque você humilhou minha mãe e se recusou a reconhecer isso.
Ela pareceu ferida por um instante.
Depois apertou a pasta contra o peito.
— Se tivesse me ouvido, tudo teria ficado em família.
A frase me atingiu como uma confirmação.
Não era um pedido de desculpas.
Era a crença de que lealdade significava aceitar o que ela e Ricardo decidissem esconder.
Henrique apresentou o registro do nosso pedido de verificação dos laudos e as notificações enviadas à empresa de levantamento.
Não acusou Beatriz de conhecer a fraude desde o começo.
A própria diretora reiterou que ninguém da Vale Claro poderia fazer medições ou divulgar o empreendimento como negociado com a proprietária sem autorização válida.
Ricardo se levantou antes do fim da reunião.
— Vocês vão se arrepender do prejuízo que estão causando.
Mamãe também se levantou.
Ajeitou a alça da bolsa, como fizera tantas vezes antes de entrar num banco para renegociar um financiamento.
— Se o senhor investiu contando com uma assinatura que não era minha, não fui eu quem criou seu prejuízo.
Na saída, Estela me alcançou no corredor.
Falou baixo, sem o pai por perto.
Disse que ainda poderíamos dizer aos convidados que o casamento fora adiado por um desentendimento.
Se eu retirasse as reclamações e me afastasse de Elisa, ela convenceria Ricardo a encerrar o projeto.
— Você está me oferecendo silêncio em troca de silêncio? — perguntei.
— Estou tentando salvar alguma coisa.
— Então diga a verdade sobre os documentos.
Ela me soltou o braço.
Não prometeu nada.
Naquela tarde, um vídeo curto da igreja começou a circular entre conhecidos.
Mostrava apenas o instante em que pedi a aliança, sem registrar a frase ofensiva de Estela.
Recebi mensagens de pessoas perguntando por que expusera minha noiva diante de tantos convidados.
Um colega de faculdade escreveu que eu devia ter resolvido aquilo em particular.
Eu quase respondi a todos.
Mamãe me encontrou redigindo uma explicação enorme no computador.
— Não coloque a minha vergonha na internet para provar que você estava certo — pediu.
Apaguei o texto.
A única coisa que publiquei foi que o casamento não aconteceria e que não comentaria a vida privada de minha mãe.
O resto cabia às pessoas envolvidas e às autoridades, não a uma plateia.
À noite, Elisa apareceu na cozinha com o rosto cansado.
Havia procurado uma tia para ficar caso não se sentisse confortável em nossa casa.
Mamãe lhe ofereceu café, mas não tentou convencê-la a perdoar a irmã.
— Eu ainda não contei tudo ao doutor Henrique — confessou Elisa.
Ela explicou que, semanas antes, Ricardo a chamara para uma conversa sobre os preparativos do casamento.
Quando percebeu que ele queria que participasse de uma mentira sobre Marta, começou a gravar parte do diálogo com o próprio celular.
Tinha vergonha de mostrar o arquivo porque nele sua voz aparecia concordando em providenciar documentos.
— Eu achava que podia me proteger ficando quieta — disse.
— Só ajudei a proteger quem estava fazendo isso.
Perguntei se tinha alterado a gravação.
Ela negou, mostrou a data do arquivo e concordou em preservar o original para que Henrique avaliasse seu uso adequado.
Não a fiz reproduzir diante de mamãe.
Elisa tinha direito de contar, mas minha mãe não precisava ouvir mais crueldades naquela noite.
Pouco antes de irmos dormir, Elisa me entregou o celular.
— Há uma parte em que Ricardo explica por que precisava do casamento antes de julho.
— E eu preciso que você saiba o que eu respondi a ele.
A voz da própria Elisa poderia confirmar o plano.
Também poderia revelar o tamanho da responsabilidade que ela ainda não assumira.
Para ouvir o que aquela conversa esclareceu e a decisão que Elisa tomou, leia a Parte 6.













