— Quero o carro mais caro que vocês têm.
Reconheci a voz de Natália antes mesmo de levantar a cabeça.
Eu estava passando um pano azul sobre o capô de um Rolls-Royce preto quando minha noiva entrou na concessionária acompanhada da mãe, Lorena. As duas usavam roupas elegantes e caminhavam com a segurança de quem esperava atendimento imediato.
Natália me viu e parou.
— André? O que você está fazendo aqui?
Dobrei o pano com cuidado.
— Estou trabalhando.
Ela olhou para minhas mãos, depois para o carro.
— Trabalhando? Você está limpando carros?
Lorena cruzou os braços e soltou uma risada de desprezo.
— Que vergonha. Minha filha vai se casar com um lavador de carros?
Alguns clientes viraram a cabeça. Natália percebeu os olhares, mas, em vez de encerrar a conversa, elevou a voz.
— Eu não vou me casar com um homem que ganha a vida limpando carros!
Aquelas palavras me atingiram mais do que eu gostaria de admitir.
Estávamos noivos havia meses. Natália sabia que eu trabalhava no Grupo Mercer, mas nunca tinha perguntado exatamente o que eu fazia. Eu também não havia feito questão de explicar minha posição.
Queria ter um relacionamento que não dependesse do dinheiro da minha família.
Naquele momento, percebi que talvez tivesse confundido amor com conveniência.
— Não precisa fazer uma cena — respondi.
— Uma cena? — Ela apontou para o pano. — Você me deixou acreditar que tinha um cargo importante!
Lorena balançou a cabeça.
— Um homem sem classe. Eu avisei, Natália.
Não discuti.
Meu pai começou lavando carros aos dezessete anos. Economizou durante anos, conseguiu abrir uma pequena oficina e, com o tempo, transformou aquele negócio em uma rede de quarenta e três concessionárias.
Quando morreu, deixou para mim não apenas uma empresa, mas uma regra que eu jamais abandonei.
Todos os executivos do grupo, inclusive eu, precisavam passar uma semana por ano trabalhando ao lado dos funcionários: na limpeza, na recepção, na oficina e com os motoristas.
Meu pai dizia que ninguém deveria dirigir uma empresa sem conhecer o trabalho das pessoas que a mantinham funcionando.
Naquela manhã, um funcionário precisou sair às pressas porque sua esposa havia entrado em trabalho de parto.
Assumi o lugar dele.
Por isso estava limpando o Rolls-Royce quando Natália chegou.
Ela não sabia de nada disso.
E, naquele instante, parecia não querer saber.
— Você poderia pelo menos ter me contado a verdade — reclamou.
Olhei para ela.
— Eu nunca menti sobre onde trabalhava.
— Não é a mesma coisa!
Lorena se aproximou.
— Minha filha merece um homem que possa comprar um carro desses, não alguém que passe o dia limpando um.
Olhei para o Rolls-Royce. A pintura escura refletia as luzes do salão e o rosto irritado de Natália.
Eu poderia ter encerrado aquela humilhação com uma frase.
Mas queria entender até onde ela iria.
Foi quando o senhor Álvares, gerente-geral da concessionária, apareceu vindo do corredor que levava à área reservada.
Ele parecia preocupado com alguma questão do atendimento.
— Senhor Mercer, os clientes VIP estão aguardando na sala privativa.
Natália ficou imóvel.
— Senhor?
O gerente olhou para ela, confuso.
— Sim, senhora. O senhor Mercer é o proprietário desta concessionária.
O silêncio foi imediato.
Lorena descruzou os braços.
Natália olhou para o gerente, depois para mim, como se procurasse algum sinal de brincadeira.
— Proprietário? — repetiu.
O senhor Álvares assentiu.
— O Grupo Mercer possui quarenta e três concessionárias. Esta é uma delas.
Vi a mudança no rosto de Natália.
O desprezo desapareceu. Em seu lugar surgiu um sorriso nervoso, seguido de uma tentativa apressada de se aproximar.
— Amor, eu não sabia quem você realmente era.
Peguei novamente o pano azul.
— Sabia, sim.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Você sabia exatamente quem eu era, Natália. Só não sabia o que eu possuía.
Ela abriu a boca, mas não respondeu.
Lorena, que minutos antes havia me chamado de homem sem classe, agora mantinha os olhos baixos.
O senhor Álvares parecia desconfortável. Segurava uma pasta preta contra o corpo e esperou até perceber que nossa conversa havia terminado.
— Senhor Mercer, preciso lhe mostrar uma coisa.
Ele estendeu a pasta.
Abri o documento que estava na primeira página.
Era uma proposta de compra do Rolls-Royce preto.
O nome de Natália aparecia no formulário.
Mais abaixo havia um campo reservado ao responsável pela garantia financeira da operação.
Li o nome impresso.
André Mercer.
Meu próprio nome.
Observei a linha seguinte.
Ali estava uma assinatura muito parecida com a minha. A inclinação das letras, o traço final, até os pequenos detalhes que normalmente passavam despercebidos.
Era uma imitação quase perfeita.
Olhei para Natália.
Ela havia chegado exigindo o carro mais caro da concessionária.
Agora eu entendia que meu nome já estava envolvido naquela compra.
Voltei os olhos para o documento.
Eu nunca tinha assinado aquela proposta.













