Na noite seguinte, espalhei sobre a mesa da cozinha as cópias dos contratos que assinara para o casamento.
Havia recibos, reservas de serviços, comprovantes de pagamento e a contratação do espaço da cerimônia.
Eu reconheci a assinatura que Camila mencionara na última página de um aditivo feito dois meses antes.
Natália estava com o original daquele documento.
Ela se oferecera para organizar a parte burocrática da festa, e eu aceitara com gratidão.
Não havia imaginado que confiar um arquivo a alguém pudesse significar entregar também uma espécie de chave para falsificar meu consentimento.
Antes de procurá-la, falei com Beatriz Almeida, advogada que acompanhava questões pessoais da minha família havia muito tempo.
Ela não sugeriu que eu resolvesse o problema com um telefonema para o gerente ou com uma demissão apressada.
Explicou que era preciso separar o procedimento interno da concessionária, a possível utilização indevida da assinatura e o fim do meu relacionamento.
— Guarde as mensagens e não negocie o silêncio de ninguém — orientou.
Se houver uma investigação formal, a documentação deve poder ser examinada sem interferência.
Eu concordei.
Meu pai tinha passado anos lutando para ser tratado com respeito quando ainda era um pequeno empresário.
Usar o tamanho da empresa para conseguir uma vingança pessoal seria o oposto do que ele me ensinara.
Às oito da noite, Natália apareceu na portaria do meu prédio.
Pedi que subisse porque queria lhe falar longe dos funcionários e dos clientes.
Ela entrou sem o sorriso ensaiado que mostrara quando descobrira quem eu era no showroom.
— Eu passei o dia inteiro esperando sua ligação — disse.
— E eu passei o dia tentando entender como minha assinatura foi parar num documento que não conheço.
Ela sentou no sofá, mantendo a bolsa sobre os joelhos.
Mostrei a cópia do contrato de casamento e a marca de impressão que aparecia na assinatura da proposta do carro.
Não precisei acusá-la.
Natália reconheceu o papel imediatamente.
— Eu mandei esse arquivo para minha mãe — confessou.
— Por quê?
— Ela disse que precisava preparar uma simulação de financiamento.
Eu imaginei que, quando você entendesse, concordaria.
— Você me perguntou e eu disse que precisava ler primeiro.
Isso não foi um sim.
Natália apertou as alças da bolsa.
Naquele momento pareceu muito mais jovem do que era, e senti a tentação de aliviar o constrangimento com alguma frase conciliadora.
Lembrei, porém, que sempre fora assim que nossas discussões terminavam: eu explicava, ela se ofendia, e a pergunta original desaparecia.
— Quem colocou a assinatura na proposta? — perguntei.
— Minha mãe disse que cuidaria dos documentos.
— Você viu o resultado?
Demorou tanto para responder que ouvi o relógio da sala marcar mais um minuto.
— Vi uma foto do formulário antes de enviar para a concessionária.
— E percebeu que eu aparecia como garantidor?
— Sim.
— Viu também a assinatura?
Natália levou a mão ao rosto.
— Vi.
Mas achei que seria regularizado quando você chegasse.
Meu peito apertou.
Não se tratava apenas de alguém ter manipulado um arquivo às escondidas.
Ela sabia que eu não havia assinado, encaminhara o documento mesmo assim e contava que minha reação depois não teria importância.
— Por que precisava tanto daquele carro? — perguntei.
Natália desviou os olhos para a janela.
Disse que a mãe estava enfrentando problemas financeiros, depois de fechar uma loja de decoração que mantivera por anos.
Contou que Lorena devia dinheiro e tentava conservar a imagem de sucesso que exibia diante das amigas.
O Rolls-Royce era parte de uma ideia absurda: adquirir um veículo que pudesse ostentar e depois decidir como pagá-lo.
— Ela disse que conhecia pessoas que nos ajudariam a negociar as parcelas — Natália murmurou.
Eu sabia que era caro, mas não sabia quanto.
— E por que colocar meu nome?
— Porque você trabalhava numa empresa grande.
Porque era meu noivo.
Ela disse que isso bastaria para conseguir uma análise melhor.
Eu a encarei.
Natália não sabia que eu era dono da concessionária e, mesmo assim, considerara aceitável comprometer meu nome numa compra que não podia sustentar.
Não havia mistério sobre o motivo de eu me sentir traído.
— Você podia ter me contado sobre as dívidas da sua mãe — falei.
Eu teria escutado.
— Você teria pago?
A pergunta veio tão depressa que nenhum de nós conseguiu fingir que fora inocente.
Ela baixou a cabeça.
— Desculpa.
Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi a primeira coisa em que pensou.
Natália chorou.
Não duvidei de que estivesse sofrendo, mas o sofrimento não apagava o que fizera.
Quando perguntou se eu ainda a amava, respondi que não sabia mais o que aquela palavra significava entre nós.
— Eu gostei de você, André — afirmou.
— Então por que sentiu vergonha de mim com um pano na mão?
Ela tentou dizer que se assustara, que achara estar sendo enganada, que os outros clientes olhavam.
Ouvi tudo.
Nenhuma dessas explicações respondia por que ela e a mãe tinham tratado o trabalho de limpeza como uma humilhação.
— Meu pai lavava carros — lembrei.
Ele nunca precisou pedir desculpas por isso.
Pedi que Natália entregasse a Beatriz, por vontade própria, as mensagens que trocara com Lorena sobre a proposta.
Não fiz ameaças e disse que ela poderia consultar sua própria advogada antes de decidir.
Era a única forma de não repetir, do meu lado, a ideia de que uma pessoa pressionada deve aceitar qualquer coisa.
Antes de ir embora, Natália deixou o anel de noivado na mesa.
Não o pedi de volta.
Ela o colocou ali como quem finalmente entendia que um pedido de desculpas não consertaria tudo imediatamente.
Na manhã seguinte, Beatriz me ligou.
Natália havia autorizado que sua representante encaminhasse parte das conversas para análise.
Entre os arquivos existia uma mensagem de Lorena enviada na noite anterior à visita à concessionária.
Camila poderia verificar a autenticidade depois, mas o texto já era suficiente para me fazer parar no meio da sala.
“Leve a proposta pronta. Diante de todos, ele vai ter vergonha de dizer não.”
Percebi que o constrangimento público não tinha sido apenas uma consequência inesperada.
Alguém contara com ele para tentar me arrancar uma concordância.
O que aconteceria quando Lorena descobrisse que essa pressão estava documentada? Descubra na Parte 4 como ela reagiu.













