Na segunda-feira, cheguei à prefeitura de Campinas antes da abertura do atendimento.
Dormira pouco.
Toda vez que fechava os olhos, via minha mãe de vestido azul, pedindo desculpas por uma ofensa que não cometera.
Agora eu carregava numa pasta o número de um protocolo que jamais deveria mencionar meu nome.
Henrique estava comigo.
Elisa aguardava do lado de fora, porque ainda não sabia se conseguiria enfrentar a própria família quando tudo começasse a aparecer em documentos oficiais.
Mamãe fez questão de nos acompanhar.
Vestia calça de trabalho, camisa limpa e os mesmos brincos de pérola da cerimônia.
Quando sugeri que esperasse no carro, respondeu sem elevar a voz.
— Se estão discutindo a minha terra e a minha cabeça, eu entro.
No balcão de atendimento, pedimos informações sobre a consulta urbanística preliminar e o acesso às peças que pudessem ser disponibilizadas ao proprietário ou aos interessados identificados no processo.
O funcionário não nos prometeu nada além do procedimento regular.
Anotou os dados, conferiu a matrícula apresentada por Henrique e nos orientou a formalizar o pedido por escrito.
Parte do material podia ser consultada naquele dia; outra parte exigiria análise.
Aquilo me frustrou, mas Henrique apertou meu braço.
— É assim que se constrói uma resposta que não dependa de favor pessoal.
A página que nos permitiram visualizar continha um croqui e a identificação da empresa proponente, Vale Claro Urbanismo.
Havia uma relação de profissionais e, no campo reservado à consultoria técnica, meu nome completo.
O número do meu registro estava certo.
O telefone de contato, não.
Era o celular do escritório de Ricardo.
Trabalhei por anos para conquistar aquele registro.
Eu sabia que um nome num formulário não equivalia à minha responsabilidade técnica efetivamente assumida.
Ainda assim, havia ali uma associação falsa que precisava ser corrigida antes de prejudicar clientes, contratos e minha reputação.
Pedi uma cópia do trecho disponível e apresentei uma declaração escrita negando qualquer participação.
Depois, Henrique me orientou a consultar também o conselho profissional para verificar se existia algum registro técnico indevido vinculado ao projeto.
No carro, mamãe examinou a reprodução do desenho.
Seu dedo percorreu as linhas das ruas planejadas até parar no lago artificial.
— Eles desenharam isso em cima do pasto onde seu pai perdeu a bota — disse.
Eu sorri sem querer.
Lembrava daquela tarde de chuva, quando papai voltara para casa com um pé descalço e uma história exagerada sobre ter enfrentado um atoleiro.
Mamãe guardara a bota recuperada por quase um ano, só para provocá-lo.
— Eu não me oponho a mudanças porque sejam mudanças — continuou ela.
— Mas ninguém pode decidir por mim que minha vida inteira é um terreno vazio.
A próxima parada foi uma clínica particular cujo nome constava em um dos laudos.
Henrique havia solicitado previamente uma confirmação de autenticidade pelos canais oficiais, sem pedir informações clínicas sigilosas.
A administração respondeu que precisava avaliar o pedido e que não podia revelar prontuários a terceiros.
Mamãe então assinou a autorização necessária para que fosse verificado se existia atendimento em seu nome.
A resposta formal não veio na hora.
O médico apontado como autor, porém, recebeu nosso relato por meio de sua equipe e pediu que o documento fosse encaminhado para conferência.
Não seria honesto tratá-lo como cúmplice antes de descobrir se sua assinatura também fora copiada.
Aquela cautela desagradava minha pressa, mas era indispensável.
No caminho de volta, Elisa ligou.
Estava chorando.
Disse que precisava confessar uma coisa antes que eu a descobrisse por outra pessoa.
Fui encontrá-la na praça de um bairro próximo.
Ela trazia uma mochila pequena e uma pasta transparente.
— Eu ajudei a reunir documentos — admitiu.
Pensei que tivesse entendido errado.
— Documentos da minha mãe?
— Cópias. Sua identidade, alguns dados da fazenda, o comprovante de endereço.
— Estela disse que seria para um cadastro de convidados e para uma homenagem no casamento.
Elisa me mostrou mensagens antigas em que a irmã solicitava aquelas informações.
Havia também uma conversa na qual ela perguntara por que precisavam do número da matrícula da fazenda.
A resposta de Estela fora curta: “Papai está ajudando Carlos com uma surpresa patrimonial”.
— Você acreditou nisso?
— No começo, sim.
— Depois encontrei os laudos e percebi que tinha ajudado uma coisa horrível a começar.
Eu estava furioso.
Não porque Elisa tivesse contado a verdade, mas porque fora muito fácil para aquela família recolher pedaços da nossa vida e montá-los numa história falsa.
Ela não pediu perdão imediato.
Disse que entregaria as conversas a Henrique e assumiria a própria participação.
— Você pode me odiar — falou.
— Só não deixe que usem esse medo contra a dona Marta.
Voltei à fazenda sem saber o que responder.
Mamãe me encontrou diante do curral.
Quando lhe contei sobre Elisa, perguntou apenas se a moça estava segura.
— Ela tinha medo de perder a ajuda da faculdade — expliquei.
— Medo faz a gente aceitar coisa demais — disse mamãe.
— Foi o que eu fiz no altar, quando pedi desculpas.
Naquela noite, Henrique organizou um arquivo com as fotografias, os e-mails preservados, a matrícula e nossos pedidos formais.
Disse que, além de registrar notícia dos fatos às autoridades competentes, buscaríamos orientação para impedir o uso indevido de documentos e avisar os envolvidos no empreendimento.
Não havia sentença, acusação criminal concluída nem prova de transferência da fazenda.
Era justamente por isso que precisávamos agir antes de qualquer ato irreversível.
Pouco depois das dez, o telefone da sede tocou.
Era seu Dario, funcionário antigo que morava numa casa perto da entrada de serviço.
Ele trabalhava conosco havia quase trinta anos e não costumava ligar àquela hora.
— Carlos, apareceu um homem aqui perguntando onde passam as divisas do terreno.
— Quem?
— Disse que vem fazer o levantamento amanhã cedo.
— Mostrou uma ordem de serviço de uma empresa e falou que você autorizou.
Pedi que não deixasse ninguém entrar sem falar comigo e que não discutisse com os visitantes.
Dario ficou quieto por um instante.
— Tem mais uma coisa.
— Na ordem de serviço, a autorização aparece assinada por você.
A falsificação já não estava apenas num escritório ou num protocolo.
Alguém pretendia entrar na terra da minha mãe usando o meu nome.
Para saber o que aconteceu quando essa equipe apareceu na porteira da fazenda, siga para a Parte 4.













