Às sete da manhã, um carro branco parou diante da porteira principal.
Dois homens desceram carregando equipamentos de medição e uma pasta com a marca da Vale Claro Urbanismo.
Eu estava ao lado de mamãe e de seu Dario.
Nenhum de nós levantou a voz.
— Bom dia — disse o homem mais velho.
— Temos uma visita técnica agendada.
— Agendada com quem? — perguntou minha mãe.
Ele consultou uma folha plastificada.
— Com o engenheiro Carlos Almeida.
— Sou eu — respondi.
— Não contratei nenhum levantamento nesta propriedade.
O rapaz que acompanhava o técnico se entreolhou com ele.
O homem me entregou uma cópia da ordem de serviço, sem insistir em passar pela porteira.
Meu nome estava impresso acima de uma rubrica que não reconheci.
A assinatura imitava o movimento da letra, mas não o modo como eu terminava o sobrenome.
Fotografei o documento e pedi o contato da empresa para confirmar quem havia solicitado o serviço.
— A gente só recebeu a ordem — explicou o técnico.
— Não sabia de disputa nenhuma.
Acreditei nele.
Brigar com dois trabalhadores não devolveria à minha mãe o controle sobre o que estavam tentando fazer.
Pedi que aguardassem a confirmação da contratante em outro local.
Eles partiram sem entrar.
Seu Dario continuou olhando o carro desaparecer na estrada de terra.
— Nunca pensei que precisaria de sua autorização para deixar estranhos fora da propriedade — disse ele a mamãe.
— Não precisava — ela respondeu.
— Você fez o que sempre fez: cuidou da casa.
Na sede, Henrique falou por telefone com um responsável pela equipe de campo.
Enviamos uma notificação formal à empresa, esclarecendo que Marta era a proprietária, que eu não autorizei os trabalhos e que qualquer acesso dependeria de consentimento expresso dela.
Henrique solicitou os registros da contratação, sem esperar que a empresa admitisse imediatamente uma fraude.
Também organizou um boletim de ocorrência com a documentação que já tínhamos, deixando claro o que sabíamos e o que ainda precisava ser apurado.
Naquele mesmo dia, recebi retorno da consulta ao conselho profissional.
Não havia sido localizada, até então, uma anotação de responsabilidade técnica correspondente àquele projeto em meu nome.
Foi um alívio limitado.
O uso indevido da minha identificação nas peças preliminares continuava existindo.
Formalizei a impugnação e guardei o protocolo.
À tarde, um representante da Vale Claro telefonou para Henrique.
Sua diretora comercial, Beatriz Maluf, queria conversar antes que a situação se tornasse pública.
Marcamos o encontro numa sala de reuniões do escritório do advogado.
Mamãe concordou em ir, desde que não a tratassem como alguém incapaz de compreender o assunto.
Beatriz chegou com uma advogada e uma pasta de contratos.
Tinha uma postura objetiva, distante da intimidade falsa com que Ricardo sempre falava de nossos bens.
Quando Henrique lhe mostrou a matrícula atualizada, ela ficou alguns segundos em silêncio.
— Fomos informados de que a família apoiava a proposta — explicou.
— Qual família? — perguntou mamãe.
— Os senhores Vasconcelos, principalmente Ricardo.
— Ricardo não é meu filho, não é meu marido e não é dono desta fazenda.
Beatriz admitiu que o empreendimento estava em fase de estudos.
Nenhum condomínio tinha sido aprovado, e a compra do imóvel ainda dependeria de documentação válida e da concordância da proprietária.
A empresa, contudo, já havia contratado levantamentos e elaborado projetos com base nas informações fornecidas por Ricardo.
— Ele afirmou que a senhora não estava mais em condições de gerir os negócios — disse Beatriz.
Mamãe não se alterou.
— A senhora me fez uma pergunta até agora?
Beatriz corou.
— Não.
— Então comece perguntando se eu quero vender.
— A senhora quer?
— Não.
Houve um silêncio constrangido.
Beatriz pediu desculpas e garantiu que suspenderia novas visitas ao imóvel enquanto analisassem o ocorrido.
Henrique pediu que a suspensão e a preservação dos documentos fossem confirmadas por escrito.
A diretora não prometeu resultados que ainda dependiam de sua equipe jurídica, mas concordou com a providência.
Antes de sair, colocou um papel sobre a mesa.
Era um resumo de condições comerciais firmado com a empresa de Ricardo para a aproximação dos proprietários e a viabilização do negócio.
Havia previsão de remuneração significativa se a operação fosse concretizada.
O valor exato dependia de etapas futuras, mas bastava para mostrar que Ricardo não agia por preocupação desinteressada com a saúde de Marta.
— Ele nos assegurou que, após o casamento, Carlos ajudaria a resolver as pendências familiares — explicou Beatriz.
Eu me lembrei do vestido de Estela, da festa de 260 convidados e da insistência em casar naquele mês.
A pressa começava a adquirir uma lógica terrível.
Depois da reunião, mamãe pediu que a levasse ao antigo galpão de ferramentas.
Ali, meu pai havia marcado numa viga a minha altura a cada aniversário.
A última marca tinha sido feita poucos meses antes de ele morrer.
Eu não visitava aquele canto havia muito tempo.
— Sabe por que nunca vendi? — perguntou ela.
— Por causa do papai?
— Em parte.
— Mas também porque eu quis continuar aqui.
— Isso precisa ser suficiente.
Percebi que vinha falando da fazenda como se precisasse protegê-la em nome da memória de meu pai.
Mamãe estava viva.
Sua vontade não era uma relíquia; era o centro da questão.
Na manhã seguinte, Elisa apareceu na porteira com uma mala pequena.
Estela havia descoberto que ela colaborara conosco e exigido que saísse do apartamento onde morava.
Mamãe ofereceu o quarto de hóspedes por alguns dias.
Elisa recusou, por vergonha.
— Minha irmã planejou tirar a senhora daqui, e agora eu pisaria na sua casa?
— Se quiser entrar, entra como Elisa — respondeu mamãe.
— Não como irmã de Estela.
Foi quando Elisa me mostrou uma mensagem recebida naquela madrugada.
Antes disso, mamãe havia conversado com seu Dario sobre a porteira menor, que ficava aberta nos dias de entrega de leite.
Os dois atualizaram a lista de visitantes autorizados e combinaram que qualquer novo serviço seria confirmado diretamente por ela.
Não queriam transformar a fazenda numa fortaleza; queriam apenas que a vontade de Marta voltasse a ser respeitada também nas pequenas decisões.
Ricardo convocara uma reunião com a diretoria da Vale Claro para a segunda-feira seguinte, apesar da suspensão anunciada por Beatriz.
A mensagem instruía Estela a levar os laudos e a procuração.
— Ele ainda pretende convencer alguém de que tudo está autorizado — disse Elisa.
Mamãe fechou o portão devagar.
— Então dessa vez ele vai ouvir a resposta de quem é dona da fazenda.
Para descobrir o que Ricardo tentou fazer com os laudos diante da proprietária, acompanhe a Parte 5.













