“Ou você entrega seu quarto para a Clara até amanhã de manhã, ou pega suas coisas e sai desta casa!”
Minha madrasta disse aquilo no meio do jantar, em voz alta, como se estivesse anunciando uma decisão que todos já tinham tomado por mim.
Eu fiquei olhando para Gisele. Do outro lado da mesa, a filha dela, Clara, de dezoito anos, encostou na cadeira com um sorriso discreto. Meu pai, Sérgio, abaixou a cabeça e continuou olhando para o prato.
Naquele instante, eu entendi que a discussão não era só sobre um quarto.
Eu tinha vinte e cinco anos e morava na mesma casa em Belo Horizonte onde passei boa parte da infância. Minha mãe havia escolhido o armário de madeira da sala de jantar. Perto da porta ainda existia uma marca que fiz quando era pequena e tentei entrar com a bicicleta num dia de chuva. Cada canto guardava alguma lembrança dela.
Especialmente meu quarto.
Era a maior suíte do andar de cima, com janelas amplas, piso de madeira e uma varanda onde o sol batia no fim da tarde. Minha mãe tinha participado da reforma. Depois que ela morreu, aquele cômodo virou o lugar onde eu ainda conseguia sentir que uma parte dela continuava comigo.
Mas Clara queria transformá-lo num estúdio para gravar vídeos para as redes sociais.
“Você quase nunca fica em casa”, ela comentou, ajeitando o cabelo. “Eu preciso daquela luz natural. Você pode ficar no quarto lá de baixo.”
“Aquele espaço é meu escritório”, respondi.
Gisele deu um sorriso frio.
“Você consegue trabalhar de qualquer lugar.”
“E a Clara consegue gravar de qualquer lugar também.”
O garfo de Gisele bateu no prato. Meu pai pigarreou.
“Paula, filha… talvez seja melhor ceder por uns meses. Só para manter a paz.”
Manter a paz.
Eu conhecia aquela frase bem demais. Foi o que ouvi quando Gisele se desfez da louça de Natal da minha mãe sem me consultar. Quando Clara pegou minhas roupas emprestadas e as devolveu manchadas. E quando minha madrasta me chamou de egoísta diante da família porque eu não quis pagar uma viagem de férias para Clara.
Sempre que eu reclamava, o problema deixava de ser o que elas tinham feito e passava a ser a minha reação.
Dessa vez, olhei diretamente para meu pai.
“Pai, fala alguma coisa.”
Por um segundo, ele levantou os olhos. Pareceu que ia se posicionar. Mas desviou o olhar outra vez e ficou quieto.
Aquilo doeu mais do que o grito da minha madrasta.
Gisele afastou a cadeira com força e apoiou as mãos sobre a mesa.
“Estou cansada de ser desrespeitada dentro da minha própria casa. Amanhã esse quarto vai ser da Clara. Se não gostar, a porta está aberta.”
Esperei. Meu pai não disse uma palavra.
Então dobrei o guardanapo, coloquei ao lado do prato e me levantei.
“Tudo bem.”
Gisele franziu a testa.
“Como assim, tudo bem?”
“Tudo bem”, repeti.
Subi as escadas sem bater a porta. Abri o armário e tirei duas malas rígidas de dentro dele. Separei roupas, sapatos, meu notebook, documentos importantes e as joias que tinham pertencido à minha mãe. Coloquei também uma fotografia nossa, que ficava sobre a cômoda.
Por último, fui até o fundo do armário. Atrás dos cobertores que eu quase nunca usava, estava uma pequena caixa de madeira de cedro. Eu a guardava havia anos.
Segurei a caixa por alguns segundos antes de acomodá-la entre as roupas.
Vinte e cinco minutos depois, minhas malas estavam fechadas.
Quando passei pela sala, Clara soltou uma risadinha.
“Gente, ela vai mesmo!”
Gisele ficou me olhando, surpresa. Acho que as duas tinham certeza de que eu acabaria pedindo desculpas e aceitando o quarto de baixo.
Meu pai estava sentado na varanda da frente, no escuro. Quando passei levando as malas, ele me chamou.
“Paula.”
Eu parei, ainda esperando que ele finalmente dissesse alguma coisa em minha defesa.
“Não precisa fazer esse drama todo”, ele falou.
“Eu não estou fazendo drama, pai.”
Coloquei as malas no porta-malas, entrei no carro e saí. Ninguém veio atrás. Ninguém pediu que eu ficasse.
Cerca de quarenta minutos depois, entrei numa rua particular em Nova Lima. Diante de um portão de aço, apertei o botão de um controle que ficava no carro.
O portão começou a deslizar. As luzes se acenderam ao longo de uma casa moderna construída na encosta, com paredes de vidro, terraços de pedra clara e uma varanda voltada para as montanhas.
Estacionei e desci.
Aquela casa era minha.
Não da Gisele. Não do meu pai. Minha. Eu já era dona dela antes de sair de Belo Horizonte. Só que ninguém naquela mesa sabia disso.
Mais tarde, sozinha na cozinha ampla e silenciosa, abri uma das malas. Tirei a caixa de cedro e a coloquei sob a luz da bancada.
Dentro estava o documento que eu protegia havia anos. Gisele nunca soube que ele existia. Clara jamais o tinha visto. E meu pai, de todas as pessoas, deveria se lembrar muito bem dele.
Desdobrei o papel devagar.
Foi quando percebi que o ultimato de Gisele não tinha apenas me feito sair daquela casa.













