Também tinha acabado com a última desculpa que eu usava para continuar escondendo a verdade.
O papel estava amarelado nas dobras, mas o carimbo do cartório ainda era legível.
Era uma cópia da escritura pela qual minha mãe havia doado a mim a parte que possuía da casa de Belo Horizonte.
Na época, eu tinha dezesseis anos.
Ela estava doente, e meu pai assinara como participante daquele ato, diante de pessoas que podiam confirmar o que tinha sido decidido.
A casa nunca pertencera inteiramente a Sérgio.
Uma metade estava registrada em seu nome; a outra, depois da doação e do registro, passara a ser minha.
Não significava que eu pudesse expulsá-lo ou decidir sozinha o destino de tudo.
Significava, porém, que Gisele não tinha o direito de falar por todos como se fosse a única dona daquelas paredes.
Eu conhecia o documento havia anos.
Minha mãe me explicara, com a paciência que usava quando eu tinha medo, que possuir uma parte da casa não me tornava responsável pelos sentimentos de quem morasse nela.
Naquele tempo, não entendi.
Quando ela morreu, poucos meses depois, guardei o papel na caixa de cedro e quase nunca voltei a tocá-lo.
Meu pai continuou pagando as despesas da casa.
Eu estudei, comecei a ganhar meu dinheiro, contribuí com contas e reparos e, com o tempo, aprendi a manter o máximo possível da minha vida fora do alcance de Gisele.
Não queria uma guerra por um imóvel que ainda tinha o cheiro das coisas da minha mãe.
Minha casa em Nova Lima fora comprada com minhas economias e um financiamento que eu podia pagar.
Não aparecera de repente, como uma herança milionária.
Eu passara anos guardando dinheiro, recusando viagens e trabalhando até tarde.
A reforma havia terminado poucas semanas antes, mas eu ainda não encontrara coragem de deixar o quarto onde minha mãe me abraçara pela última vez.
Sobre a bancada, o celular vibrou.
Era uma mensagem de Clara.
“Já posso começar a tirar suas coisas do armário amanhã?”
Antes que eu respondesse, outra mensagem chegou, desta vez de Gisele.
“Não faça seu pai passar vergonha com esse teatro. Devolva a chave da casa e avise quando vier buscar o resto.”
Li as duas mensagens sem levantar a voz, porque não havia ninguém ali para me ouvir.
Respondi apenas a Clara.
“Não mexa em nada que ainda seja meu. Vou organizar a retirada com calma.”
Depois escrevi a Gisele que não entregaria chave alguma naquela noite e que qualquer decisão sobre o imóvel precisaria ser discutida com meu pai e comigo.
Ela respondeu com um áudio curto.
“Você não tem direito de mandar nesta casa.”
Fiquei olhando para a tela.
Era exatamente o que eu ouvira tantas vezes que quase começara a acreditar.
Na manhã seguinte, telefonei para Renata Almeida, advogada que conhecera quando comprei a casa de Nova Lima.
Ela não era uma amiga que aceitaria minha versão sem fazer perguntas.
Foi por isso que a procurei.
“Quero entender o que realmente posso exigir”, expliquei.
“Não quero ameaçar ninguém com um papel que talvez eu esteja interpretando errado.”
Renata pediu a escritura, os dados do registro e os documentos do imóvel.
Disse que verificaria a matrícula atualizada antes de afirmar qualquer coisa.
Também me aconselhou a guardar as mensagens e a não entrar numa discussão sobre propriedade pelo telefone.
Enquanto eu enviava os arquivos, notei uma chamada perdida de meu pai.
Ele telefonou novamente pouco depois.
“Você dormiu onde?”
“Em casa.”
“Não estou brincando, Paula.”
“Eu também não.”
Houve um silêncio.
Eu podia imaginar a varanda, a cadeira de plástico e a maneira como ele apertava o telefone contra o ouvido quando não sabia o que dizer.
“Gisele está nervosa”, ele falou.
“Você podia ter esperado amanhecer.”
“Ela me mandou sair antes de amanhã de manhã. Eu só obedeci.”
“Você sabe que ela fala sem pensar.”
“E o senhor escuta sem responder.”
Ele respirou fundo.
“Não começa.”
“Pai, o senhor se lembra do que assinou quando a mãe estava doente?”
A respiração dele mudou.
Por alguns segundos ouvi apenas um ruído de televisão ao fundo.
“Por que está perguntando isso agora?”
“Porque Gisele disse que a casa é dela. E o senhor deixou.”
“Esse assunto é antigo.”
“Então não deve ser difícil lembrar.”
Ele pediu que eu não mencionasse o documento a Gisele até conversarmos pessoalmente.
Não perguntou se eu estava bem.
Não pediu desculpas pelo jantar.
Só quis saber quem mais tinha visto o papel.
Aquilo me deu uma resposta que eu ainda não tinha coragem de formular: meu pai não esquecera nada.
Renata me ligou no meio da tarde.
Havia confirmado que a situação no registro correspondia à escritura.
Minha participação na casa continuava ali, formalizada.
Ela explicou que nenhum anúncio, proposta ou promessa de venda do imóvel inteiro dispensaria minha participação numa negociação válida.
Mas acrescentou uma advertência.
“Ter direito não resolve sozinho uma relação familiar. Pense no resultado que você quer, não apenas no que pode impedir.”
Olhei pela janela para as montanhas.
Eu queria que minha mãe não tivesse morrido.
Queria que meu pai tivesse me defendido à mesa.
Nenhum registro poderia me dar essas duas coisas.
“Quero que parem de agir como se eu fosse uma visita indesejada”, respondi.
À noite, recebi uma fotografia enviada por Clara.
Ela aparecia no espelho da minha antiga suíte, sorrindo, com uma fita métrica no pescoço.
Atrás dela, as portas do armário estavam abertas.
“Olha a luz que fica aqui às cinco”, escreveu.
A imagem me incomodou menos pelo sorriso de Clara do que por um detalhe no canto da tela.
Sobre a cômoda, ao lado do lugar onde ficava a fotografia da minha mãe, havia uma pasta com o logotipo de uma imobiliária.
Ampliei a foto.
Na capa estava escrito, à mão, um endereço que eu conhecia muito bem.
E embaixo havia duas palavras que mudavam tudo: “proposta de venda”.
Eu pensava que queriam apenas meu quarto.
Agora precisava descobrir o que pretendiam fazer com a casa inteira.
A proposta que aparecera naquela fotografia tinha outro propósito? Descubra na Parte 3.













