Na manhã seguinte, procurei o nome da imobiliária que aparecia na pasta.
O primeiro resultado era um anúncio publicado dois dias antes, com fotografias da casa onde eu crescera.
A sala de jantar estava impecável.
O armário escolhido por minha mãe aparecia ao fundo, polido como se fosse apenas um móvel incluído numa vitrine.
Na descrição, o imóvel era apresentado como uma residência ampla, disponível para negociação imediata.
Havia até uma fotografia da minha suíte, tirada da porta, mostrando a varanda iluminada.
Senti uma vergonha estranha ao ver meu quarto oferecido a desconhecidos.
Não era vergonha de ter saído.
Era a sensação de que alguém vinha escolhendo o que fazer com minhas lembranças sem me consultar.
Enviei o anúncio a Renata.
Ela pediu que eu salvasse as imagens e o endereço eletrônico, sem compartilhar acusações nas redes sociais.
Em seguida, entrou em contato com a imobiliária para confirmar quem autorizara a divulgação e em que condições.
Meu pai respondeu à mensagem que lhe mandei apenas três horas depois.
“É só uma avaliação. Não tem nada decidido.”
Liguei para ele.
“Se é só uma avaliação, por que a casa está anunciada?”
“Gisele queria saber quanto vale.”
“E por que ninguém falou comigo?”
Ele demorou a responder.
“Eu achei que você ia dificultar.”
“Antes mesmo de me perguntar?”
“Paula, tem coisas que a gente faz para evitar briga.”
“Foi assim que começou a briga, pai. Tomando decisões como se eu não existisse.”
Não quis continuar pelo telefone.
Propus encontrá-lo numa padaria perto da praça onde ele me levava aos domingos quando eu era pequena.
Ele aceitou com a condição de que Gisele não fosse convidada.
Cheguei primeiro.
Pedi café, mas deixei a xícara quase intacta.
Quando Sérgio entrou, pareceu mais velho do que na noite do jantar.
Sentou-se à minha frente e ficou dobrando o guardanapo de papel entre os dedos.
“Você não precisava contratar advogada”, disse.
“Precisava de alguém que soubesse distinguir o que eu sinto do que o registro diz.”
Coloquei diante dele a cópia da escritura e a certidão atualizada.
Ele olhou para as páginas e não demonstrou surpresa.
“Eu lembro.”
“Então por que deixou Gisele dizer que a casa era dela?”
“Porque eu achei que era só uma discussão entre vocês.”
“Ela me expulsou de um imóvel do qual eu também sou dona.”
Ele baixou os olhos.
“Eu sei.”
Aquelas duas palavras me atingiram mais do que qualquer desculpa.
Não era ignorância.
Era uma escolha repetida até se tornar hábito.
Meu pai contou que, durante o tratamento, minha mãe se preocupava com o que aconteceria comigo depois que ela partisse.
Queria que eu tivesse segurança, independentemente de quem ele viesse a amar no futuro.
Por isso organizara a doação de sua parte da casa, ainda em vida.
Sérgio concordara.
“Ela não desconfiava de você”, eu disse.
“Ela só sabia que podia não estar aqui para me defender.”
Ele passou as mãos pelo rosto.
“Eu achei que nunca precisaríamos falar disso.”
“Foi a minha mãe quem precisou pensar nisso. O senhor só precisava se lembrar.”
Pela janela, vi uma família passando com uma criança pequena entre os pais.
A menina segurava as duas mãos, e nenhum dos adultos a soltava para atender ao celular.
Desviei os olhos antes que a imagem me machucasse mais.
“Por que vender?”, perguntei.
Meu pai hesitou.
Depois confessou que Gisele havia se entusiasmado com a valorização da região.
Ela queria usar parte do dinheiro de uma possível venda para comprar um apartamento menor e investir num espaço para Clara produzir vídeos.
Sérgio dissera que precisava pensar, mas permitira que ela conversasse com corretores.
“Você prometeu o dinheiro que seria meu também?”
“Não”, respondeu depressa.
“Eu nunca faria isso.”
“Prometeu a possibilidade de vender sem falar comigo. Já é bastante.”
Ele não contestou.
Perguntei se Clara sabia que a casa estava anunciada.
Ele disse que ela havia ajudado a escolher as fotografias, mas acreditava que a mudança aconteceria somente depois de uma decisão familiar.
Talvez fosse verdade.
Talvez fosse a versão mais confortável para ele.
Eu já não tinha como aceitar afirmações sem conferir.
Antes de ir embora, pedi duas coisas.
Que suspendesse imediatamente as visitas ao imóvel e que ninguém mexesse no armário de madeira da sala de jantar.
Ele assentiu.
“E o quarto?”, perguntou.
“Não vou voltar a morar lá. Isso não transforma uma expulsão em algo certo.”
Meu pai parecia querer falar mais, mas ficou em silêncio.
Desta vez, pelo menos, não me pediu para manter a paz.
Antes de sair da padaria, meu pai perguntou se a casa de Nova Lima era alugada.
Foi a primeira vez que ele demonstrou curiosidade sobre onde eu estava vivendo.
“Eu comprei”, respondi.
Ele me olhou como se eu tivesse contado algo impossível.
Expliquei que havia economizado, feito contas e escolhido cada prestação com cuidado.
Não disse aquilo para impressioná-lo.
Queria que soubesse que minha decisão não começara no jantar.
Havia meses eu me preparava para ter uma saída, porque já não me sentia segura para continuar pedindo espaço na própria família.
“Você podia ter me contado”, ele murmurou.
“Eu tentei contar muitas outras coisas antes.”
Naquela tarde, Renata recebeu uma resposta formal da imobiliária.
O corretor reconheceu que a documentação de propriedade ainda não havia sido conferida de maneira suficiente e concordou em retirar o anúncio enquanto verificava as autorizações.
Pedi que guardasse a troca de mensagens.
Não queria destruir o trabalho de um estranho por causa das decisões da minha família.
O corretor também anexou o formulário com o qual Gisele solicitara a divulgação das fotografias.
O nome de Sérgio estava ali.
O meu também.
A princípio pensei que tinham preenchido os dados a partir de alguma conta antiga.
Então vi uma linha marcada como autorização dos proprietários.
Ao lado do meu nome, alguém havia desenhado uma assinatura parecida com a minha.
Não era uma escritura de venda.
Não transferia minha parte da casa.
Mas alguém tentara falar em meu nome enquanto eu ainda morava debaixo daquele teto.
Mostrei a folha a Renata.
Ela ficou séria.
“Antes de atribuir isso a alguém, precisamos saber como o documento foi produzido e quem o entregou.”
Olhei novamente para a assinatura falsa.
Meu pai dissera que nunca prometeria o que era meu.
Agora eu precisava descobrir quem havia decidido que minha própria voz poderia ser imitada.
Quem colocou meu nome naquele formulário? Descubra na Parte 4.













