Elisa levou a mão à maçaneta, mas não abriu.
O silêncio do outro lado pareceu maior que as três batidas.
Eu ainda segurava a procuração com a assinatura imitada de minha mãe.
Pensei em escondê-la debaixo do paletó, e foi justamente essa vontade que me fez parar.
Se eu saísse dali levando documentos, Ricardo poderia transformar a descoberta numa discussão sobre furto e desviar a atenção da fraude.
— Fotografe as páginas — sussurrei.
Elisa já estava com o celular na mão.
Registrou a capa das pastas, as datas e a sequência dos e-mails.
Eu fotografei os laudos e a folha da procuração, cuidando para que os carimbos aparecessem inteiros.
O próprio aplicativo marcou o horário das imagens.
Não era uma perícia, eu sabia, mas era melhor que depender apenas da nossa palavra.
— Estou ouvindo vocês — disse Estela, do corredor.
Elisa abriu a porta.
Minha ex-noiva entrou ainda usando o vestido claro que escolhera para o almoço depois do casamento, como se a cerimônia pudesse ter acontecido normalmente.
Ao me ver, parou.
Seus olhos desceram até a mesa.
— O que você está fazendo no meu escritório?
— Lendo o que pretendiam fazer com a minha mãe.
Estela olhou para Elisa.
A expressão de surpresa deu lugar a uma raiva tão precisa que entendi, naquele instante, por que a irmã tinha medo dela.
— Eu mandei você ficar fora disso.
— Foi você quem me envolveu — respondeu Elisa, quase sem voz.
Estela estendeu a mão para a procuração.
Coloquei a folha sobre a mesa antes que ela tocasse em mim.
— Quem assinou isso?
— É uma minuta — disse ela.
— Uma minuta com uma assinatura que imita a da minha mãe?
— Carlos, você não conhece o estado de saúde dela.
Lembrei do caminho de volta à fazenda, de mamãe tentando me convencer a salvar um casamento que a havia ferido.
Lembrei de suas mãos firmes no volante do trator, na semana anterior, quando ela me ensinou a manobrar uma carreta nova.
Não cabia a mim diagnosticar sua saúde, mas Estela também não tinha esse direito.
— Então por que os médicos dos laudos nunca a atenderam?
Estela não respondeu à pergunta.
Pegou o celular e discou para o pai.
Eu disse que já tinha falado com Ricardo e que qualquer conversa posterior seria feita na presença de um advogado.
Ela riu.
— Você vai destruir o nosso futuro por causa de uma fazenda velha?
— Essa fazenda nem é minha — respondi.
— É da Marta.
Foi a primeira vez que vi Estela hesitar.
Elisa aproveitou o silêncio para dizer que não aceitaria mais ser usada como mensageira dos planos da família.
Estela ameaçou cortar o dinheiro que pagava parte da faculdade da irmã.
Elisa ficou pálida, mas não retirou o que tinha dito.
Saímos juntos.
No elevador, ela encostou a cabeça no espelho e chorou de vergonha.
Perguntei por que decidira me avisar.
— Porque eu vi sua mãe no altar — respondeu.
— E percebi que eles conseguiam humilhar uma pessoa enquanto diziam que estavam tentando protegê-la.
Dirigimos até o escritório do doutor Henrique Weiss.
Ele abriu a porta sem surpresa, como se me esperasse havia dias.
Quando mencionei a procuração, tirou os óculos.
— Carlos, você leu o envelope que lhe entreguei?
Confessei que não.
Henrique não me repreendeu.
Pediu que eu buscasse o documento e voltasse com Marta, se ela quisesse participar.
Disse também que eu não devia entrar de novo no apartamento nem discutir detalhes com Ricardo por telefone.
Na fazenda, mamãe estava separando sacos de ração no galpão.
Quando contei o que encontrara, não chorou.
Sentou-se num banco de madeira, respirou fundo e pediu para ver tudo.
Mostrei as fotografias sem omitir o formulário da instituição para idosos.
Ela leu a própria idade, o nome completo e a descrição absurda de uma mulher que não reconheceria os filhos.
— Eles nem sabem que eu só tive um filho — disse.
Havia uma informação no formulário sobre dois dependentes adultos.
Eu não a tinha notado.
Aquele erro simples deixou evidente que alguém preenchera nossos dados sem sequer conhecer a família.
Mamãe tocou no papel da fotografia como se pudesse sentir sua textura.
— Eu não vou fingir que isso não aconteceu só para você não ficar triste, Carlos.
Fui até o quarto, encontrei o paletó jogado numa cadeira e tirei o envelope amassado do bolso interno.
Henrique o havia lacrado com fita adesiva.
Dentro havia uma certidão atualizada da matrícula da fazenda, uma carta dele e a cópia de uma consulta feita por uma empresa de empreendimentos imobiliários.
Na carta, Henrique relatava que um representante da empresa afirmara possuir autorização da família para negociar a propriedade.
Ele me pedia que verificasse pessoalmente aquela afirmação, pois Marta nunca lhe mencionara venda alguma.
Eu tinha carregado aquele aviso até o altar.
E não o lera.
Quando retornamos ao escritório, Henrique comparou a certidão com as fotos.
Explicou que nenhuma daquelas folhas, por si só, transferia a propriedade e que um pedido de curatela dependeria de processo judicial, avaliação e oportunidade de defesa.
Mas uma documentação falsa podia ser usada para iniciar procedimentos, pressionar bancos e confundir terceiros.
O risco não era imaginário.
Elisa mostrou o arquivo original dos e-mails que recebera por ter ajudado a organizar o casamento.
Henrique pediu que ela preservasse o aparelho e não alterasse as mensagens.
Em seguida, ampliou um anexo quase escondido no fim de uma conversa.
Era uma declaração de concordância para o projeto residencial.
Abaixo do texto, aparecia meu nome completo, meu número de registro profissional e uma assinatura digitalizada.
— Eu nunca assinei isso — falei.
Henrique ficou sério.
— Então não estão tentando usar apenas a identidade da sua mãe.
A declaração também afirmava que eu, como engenheiro, havia conferido as plantas preliminares.
Um dos desenhos trazia uma anotação escrita à mão: “Responsável técnico: Carlos Almeida”.
Eu conhecia o peso daquela expressão.
Meu nome podia ser usado para dar aparência de legitimidade a um projeto que jamais examinei.
Antes de guardar os papéis, Henrique recebeu uma mensagem de um antigo contato na prefeitura.
Não trazia as plantas, apenas o número de um protocolo público ligado ao Residencial Riacho Verde.
A consulta preliminar já havia sido apresentada com meu nome associado ao empreendimento.
Se a fraude alcançara um órgão público, não bastava provar que Estela mentia.
Eu precisava descobrir até onde Ricardo tinha levado minha assinatura.
Para acompanhar o que encontrei no protocolo e por que minha profissão também estava em risco, continue na Parte 3.













