Meu cachorro passou por mim como um raio no segundo em que abri o portão e correu direto para o entregador que estava parado ao lado da moto.
— Bento! Volta aqui!
Eu esperava que ele latisse. Bento sempre foi desconfiado com desconhecidos.
Mas ele não latiu.
Ele se jogou contra as pernas daquele homem, abanando o rabo, choramingando e tentando encostar a cabeça no peito dele.
O entregador deixou o capacete quase cair.
— Thor?
Parei na hora.
— O nome dele é Bento.
O homem nem parecia me ouvir. Ficou olhando para o meu cachorro como se estivesse vendo alguém que não encontrava havia anos.
Cheguei mais perto e segurei a coleira.
— Sai de perto dele, por favor.
Ele levantou as mãos imediatamente.
— Desculpa. Eu só…
Parou no meio da frase.
Então olhou para uma pequena cicatriz perto do ombro de Bento.
— Ele ainda tem isso.
Meu estômago apertou.
Eu adotei Bento um ano e meio antes, numa feira de adoção em Porto Alegre. O abrigo sabia muito pouco sobre o passado dele. Disseram apenas que ele havia passado por mais de um lar temporário antes de chegar até eles.
— Como você sabe dessa cicatriz? — perguntei.
O entregador finalmente olhou para mim.
— Há quanto tempo ele está com você?
— Por quê?
Ele não respondeu.
Bento continuava puxando a coleira na direção dele.
Aquilo não fazia sentido. Meu cachorro podia aceitar carinho depois de algum tempo, mas nunca tinha recebido um estranho daquele jeito.
— Bento, vem.
Ele me olhou.
E ficou onde estava.
O homem respirou fundo, ajoelhou no meio da calçada e colocou a mão esquerda baixa, ao lado do joelho.
Foi um movimento simples.
Bento congelou.
— Thor, junto.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, meu cachorro caminhou até o lado esquerdo dele, sentou perfeitamente alinhado e colocou uma pata sobre o pulso do homem.
Eu nunca ensinei aquilo.
Nunca tinha visto Bento fazer aquilo com ninguém.
Soltei a coleira sem perceber.
O entregador passou a mão devagar atrás da orelha dele.
Bento fechou os olhos.
Então o homem falou tão baixo que quase achei que tivesse entendido errado:
— Então foi aqui que você veio parar…
Naquele momento, a entrega deixou de importar.
A única coisa em que eu conseguia pensar era: quem era aquele homem para o meu cachorro?
E por que Bento parecia se lembrar dele melhor do que ele se lembrava de qualquer outra pessoa?













