Não respondi à mensagem de Sérgio naquela noite. Preferi telefonar para ele na manhã seguinte, quando Clara estava na escola, e dizer apenas o que me parecia justo.
— Se a conversa é sobre minha neta, ela precisa estar presente. Não vou combinar versões pelas costas dela.
Sérgio respirou fundo do outro lado.
— O senhor acha que sabe o que é criar uma adolescente sozinho?
— Não. Sei que eu não estava na sua casa todos os dias. Mas sei o que significa perder uma filha e não quero que Clara perca mais ninguém por causa de uma mentira.
Ele ficou quieto. Eu também. Havia muitas coisas que gostaria de cobrar, desde o recital até o aniversário roubado. Não o fiz por telefone. Queria chegar à reunião sem dar a Clara mais um motivo para temer uma briga entre nós.
Na quinta-feira, encontramos Sônia numa sala de reuniões da escola. Helena participaria apenas do trecho referente ao recital, porque conhecia os documentos. Clara sentou-se diante de Sérgio; eu fiquei ao lado dela, com as mãos sobre os joelhos. Não havia plateia, nem fotógrafo, nem uma primeira fila a disputar.
Sônia explicou que aquele não era um julgamento e que ninguém precisava tomar uma decisão definitiva naquele dia. Pediu apenas que cada um falasse sem interromper. Clara abriu o papel dobrado que preparara e começou pela carta de aniversário.
— Você sabia o que tinha dentro antes de guardar? — perguntou.
— Vi a fotografia através do envelope aberto — respondeu Sérgio. — Li a mensagem depois.
Minha neta fechou os olhos por um instante.
— Então sabia que o vô tinha lembrado de mim. E me deixou acreditar que ele não tinha lembrado.
— Eu pensei que, se você se apegasse demais às recordações, a gente não conseguiria seguir em frente.
— Quem era “a gente”? — perguntou Clara. — Eu nunca pedi para esquecer minha mãe.
Sérgio tentou explicar que a casa ficara silenciosa demais depois da morte de Luciana. Falou das noites em que não sabia como confortar Clara, das reuniões escolares a que comparecera sozinho e do medo de que ela preferisse morar comigo. Pela primeira vez, não usou as despesas como resposta. Ainda assim, sua explicação continuava incompleta.
— Quando comecei a ficar com medo de perder você — admitiu —, passei a enxergar seu avô como alguém que podia me tirar o que restava da nossa família.
Senti vontade de protestar. Eu nunca quis afastar Clara dele. Mas minha neta foi mais rápida.
— Eu não sou o que restou de alguém, Sérgio. Sou uma pessoa. Não era preciso me dividir para você continuar sendo importante.
Ele baixou a cabeça. Helena então mostrou a mensagem que pedira a retirada do meu nome da lista do recital. Sérgio reconheceu que a enviara, mesmo sabendo que Clara tinha feito a reserva. Também confirmou que me telefonara com a história de que a apresentação era apenas para colegas.
— Depois que o vô não apareceu, você falou que ele não queria ir — Clara acrescentou.
— Falei.
A palavra foi curta, mas marcou a primeira vez em que ouvimos uma resposta sem desvio. Perguntei por que ele nunca voltara atrás quando percebeu que Clara ficara magoada. Sérgio disse que, quanto mais tempo passava, mais difícil parecia admitir o que tinha feito. Cada novo silêncio o obrigava a sustentar o anterior.
— Foi assim que você contou que meu avô desprezava o piano? — Clara perguntou.
Ele assentiu. Não alegou ter entendido errado uma conversa minha. Reconheceu que inventara aquela opinião porque desejava que ela abandonasse as aulas. Clara não o atacou. Tirou da pasta o programa do recital e colocou-o ao lado da carta recuperada.
— Aqui estão duas coisas que eu queria dividir com meu avô. Você escolheu que ele não veria nenhuma delas. Isso precisa acabar.
Houve um silêncio comprido. Pensei em Luciana e no quanto ela se irritava quando alguém tentava decidir por Clara antes de ouvi-la. Quase pude imaginar sua voz naquele cômodo, mas me contive. Minha filha não estava ali para falar. A neta que ela deixara estava, e merecia ser escutada por si mesma.
Sônia perguntou a Clara de que precisaria para continuar se sentindo segura e respeitada. Minha neta havia pensado nisso. Queria falar diretamente comigo, combinar visitas sem recados alterados, participar das decisões sobre estudos e receber sua correspondência. Pediu também que Sérgio não utilizasse o dinheiro que gastava com a casa para medir o valor de outras pessoas.
— Eu continuo reconhecendo que você cuida de mim — disse. — Mas não posso agradecer por uma coisa aceitando outra que me machuca.
Sérgio não gostou de tudo o que ouviu. Perguntou se ainda teria alguma autoridade como responsável por uma menor de idade. Sônia respondeu que responsabilidade e confiança não eram a mesma coisa, e que cuidar também envolvia ouvir e respeitar a vida afetiva da adolescente. Não lhe prometeu uma solução simples. Sugeriu acompanhamento familiar com um profissional, caso todos concordassem.
Eu ofereci ajuda prática. Poderia buscá-la para a oficina aos sábados, cozinhar para nós nos domingos combinados e avisar diretamente a Sérgio sobre horários, sem transformar isso numa disputa. Fiz questão de dizer que não pediria a Clara que escondesse dele nossas conversas. Queria uma relação limpa, inclusive quando discordássemos.
Ao fim, Sérgio olhou para Clara.
— Eu menti sobre o seu avô e sobre a música. Não tenho como pedir que você confie em mim hoje. Desculpa.
Ela demorou a responder.
— Eu ouvi. Só não consigo dizer que está tudo bem.
— Não espero isso — ele murmurou.
Foi a primeira resposta dele que não parecia cobrar algo em troca. Saímos sem abraços e sem promessas de que uma reunião seria suficiente. Clara concordou em voltar para casa com Sérgio, mas quis que eu a encontrasse no sábado, para acompanhá-la à primeira oficina musical. Ele aceitou e anotou o horário que ela mesma lhe informou.
Na porta, minha neta parou e fez um convite inesperado.
— No fim do mês vai ter uma apresentação. Quero que vocês dois possam assistir. Mas não vou impedir nenhum dos dois de entrar para evitar uma briga.
Sérgio olhou para mim. Eu apenas esperei. Pela primeira vez, a decisão de comparecer ou não cabia a ele, sem que pudesse falar em nome de Clara.
— Não sei se você vai querer me ver lá — respondeu.
— Quero que saiba que está convidado — ela disse. — O resto você decide.
Só então percebi como aquela frase era diferente da que ouvira antes do recital. Haveria outro palco, outra plateia e duas pessoas que precisavam escolher, cada uma por si, se estariam presentes. Para descobrir quem teve coragem de aparecer, continue na Parte 7.













