Clara continuava diante de mim, com a beca aberta na altura do pescoço e os olhos procurando uma resposta que eu não sabia dar. Atrás dela, a professora Sônia chamava os formandos para a fila. O auditório começava a escurecer, e uma música instrumental escapava das caixas de som.
— Eu nunca disse que não queria ir ao recital — repeti, mais baixo.
— Eu também nunca pedi que o senhor ficasse longe — ela respondeu.
Sérgio se aproximou, como se a proximidade lhe devolvesse a autoridade perdida.
— Vocês entenderam tudo errado. Não é hora de discutir isso.
— Então a gente conversa depois — disse Clara. — Mas conversa de verdade.
Ela apertou minha mão uma última vez e correu para se juntar aos colegas. Eu voltei à cadeira reservada, sem saber como acomodar dentro de mim aquela descoberta. Sérgio ficou em pé ao meu lado por alguns segundos.
— Não estrague a noite dela — murmurou.
Olhei para o palco vazio.
— Foi por isso que fiquei calado tantas vezes. E veja aonde isso nos trouxe.
Ele se afastou sem responder. Quando as luzes baixaram, não o vi mais. Fiquei pensando no telefone que tocara na véspera do recital, na voz calma com que ele me dissera que Clara precisava de espaço, e no modo como eu agradecera por ter sido avisado. Naquela ocasião, imaginei estar respeitando a vontade da menina. Agora me perguntava de quem era aquela vontade.
Os formandos entraram em duas filas, sob aplausos. Clara procurou a primeira fileira antes mesmo de encontrar seu lugar no palco. Levantei discretamente a mão. Ela sorriu, mas havia uma tristeza nova naquele sorriso. Quando chamaram seu nome, aplaudi de pé. Não por desafio a Sérgio, e sim porque minha neta me pedira que estivesse ali.
Na saída, famílias se amontoavam para tirar fotografias. Clara recebeu flores de uma colega e abraçou a professora Sônia. Sérgio apareceu com um buquê grande, embrulhado em papel brilhante.
— Vamos tirar a foto da família — disse, chamando um fotógrafo.
Clara olhou primeiro para mim.
— O vô também vai aparecer.
— É claro — respondeu Sérgio, depois de uma pausa pequena demais para os outros perceberem.
Ficamos os três lado a lado. Quando o fotógrafo pediu que nos aproximássemos, senti a mão de Clara procurar a minha atrás dos buquês. Na imagem talvez parecêssemos uma família em paz. Nenhum retrato, porém, teria registrado as perguntas que levávamos para casa.
Ela quis que a deixassem comigo por alguns minutos no jardim da escola. Sérgio concordou, dizendo que nos aguardaria no carro. Sentamos num banco próximo à quadra, onde ainda se ouviam risadas e portas batendo.
— Eu ensaiei aquela música por três meses, vô — contou. — Uma semana antes do recital, perguntei ao Sérgio se o senhor tinha confirmado. Ele falou que não queria assistir.
— Ele me telefonou na véspera. Disse exatamente o contrário.
Clara passou os dedos pela borda do diploma.
— Depois eu fiquei com vergonha de perguntar. Pensei que o senhor achasse minhas aulas uma bobagem.
Aquilo me doeu mais do que a humilhação diante das outras famílias.
— Eu me lembro de você tocando as primeiras notas com um dedo só. Ainda guardo o vídeo que sua mãe fez. Jamais acharia uma bobagem.
— Mas por que ele faria isso?
Demorei a responder. Sérgio havia cuidado de Clara quando ela estava doente, comparecido às reuniões escolares e assumido responsabilidades difíceis depois da morte de Luciana. Eu não queria apagar esses anos para explicar uma crueldade. Tampouco podia fingir que o que ouvimos era um mal-entendido.
— Essa pergunta precisa ser feita a ele — falei. — E ele precisa responder sem nos colocar um contra o outro.
Clara contou que, desde o recital, vinha perguntando menos por mim. Não porque o amor tivesse diminuído, mas porque tinha medo de ouvir outra recusa. Nas tardes em que eu a convidava para almoçar, ela às vezes dizia que estava estudando; em outras, Sérgio respondia por ela, afirmando que tinha compromissos. Percebi quantas vezes aceitei respostas vindas da mesma pessoa.
— Achei que você estivesse crescendo e precisasse de privacidade — confessei.
— Eu estava crescendo, vô. Só não queria crescer sem o senhor.
Ela enxugou uma lágrima com a manga da beca. Fiz o possível para não chorar também. Queria protegê-la daquela noite, mas não tinha mais o direito de protegê-la com silêncio.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — arrisquei. — No seu aniversário de dezesseis anos, você recebeu meu cartão?
Clara franziu a testa.
— O de papel, com uma fotografia da mamãe?
Assenti. Eu o enviara pelo correio, com duas páginas escritas à mão. Nele contava como Luciana tinha aprendido a andar de bicicleta e como minha neta se parecia com ela quando ria.
— Não recebi nada — disse Clara. — Sérgio falou que o senhor tinha esquecido a data, mas eu não acreditei completamente.
Por um instante, o barulho da festa pareceu distante. Eu sabia que cartas se perdiam, que endereços eram anotados errados, que lembranças falhavam. Mas havia agora duas histórias muito parecidas: em ambas, Sérgio transmitira uma mensagem dolorosa que nenhum de nós havia dito.
— Guardei uma cópia do texto — falei. — Posso mostrar a você.
— Quero ver. E quero perguntar a ele sobre o cartão.
Ela hesitou antes de continuar.
— Tem mais uma coisa. Naquele ano, depois que brigamos por causa do recital, Sérgio disse que o senhor não gostava quando eu falava da mamãe. Foi por isso que parei de levar o álbum aos domingos.
Senti a garganta se fechar. O álbum fora meu presente para que Clara pudesse falar da mãe sem medo de entristecer os adultos. Eu nunca o considerara um peso.
— Sua mãe foi minha filha — respondi. — Falar dela é uma das poucas maneiras que tenho de continuar perto das duas.
Clara me abraçou com força. Quando nos separamos, ela pegou o celular e abriu a conversa que mantinha comigo. Voltou a uma data antiga, a noite do recital. Havia uma mensagem curta que eu enviara depois da ligação de Sérgio: “Boa apresentação, minha menina. Estou torcendo por você daqui.”
— Eu lembro dessa mensagem — ela disse. — Ele me falou que o senhor tinha escrito só para não ficar feio.
Eu tinha a prova do que escrevera, mas não de todas as palavras que Sérgio usara depois. Clara também sabia disso. Concordamos em não inventar certezas para preencher os espaços vazios.
Ao atravessarmos o estacionamento, vimos Sérgio encostado no carro, impaciente. Clara parou antes de alcançá-lo.
— Amanhã eu vou à casa do vô — anunciou. — Quero ver a carta do meu aniversário.
— A gente precisa descansar. Já passou da hora — ele respondeu.
— Amanhã, Sérgio. Não estou pedindo que decida por mim.
Ele abriu a porta traseira com força excessiva. Antes de entrar, Clara se voltou e me fez uma pergunta que ficou comigo durante toda a madrugada.
— Se aquele cartão também não chegou, quantas vezes eu fiquei esperando uma coisa que o senhor já tinha mandado?
Para descobrir o que desaparecera entre nossas casas, continue com a Parte 3.













