Na segunda-feira, encontrei Clara diante da escola, sem a beca e sem o brilho da formatura. Trazia o envelope do aniversário na mochila e uma pequena pasta transparente para guardar os documentos que Helena lhe mostraria. Não havia me pedido que entrasse com ela. Fiz questão de perguntar.
— Quer que eu espere aqui fora?
— Quero que venha, vô. Mas deixa que eu faça as perguntas.
Concordei. Aquela diferença me pareceu importante: eu podia acompanhá-la sem assumir a sua voz. Fomos até uma sala pequena ao lado da secretaria. Helena já nos esperava, acompanhada por Sônia, que conhecia a história da cadeira na formatura e aceitara participar como uma pessoa de confiança de Clara.
Helena abriu sobre a mesa o programa do recital anterior. Ao lado do nome da minha neta, havia dois ingressos reservados, um deles identificado como “avô João”. Em seguida, mostrou uma cópia da mensagem encaminhada à equipe que organizava o acesso ao auditório.
Sérgio escrevera que o nome do avô precisava ser retirado da lista por uma questão familiar. Pedira ainda que a mudança não fosse comunicada à aluna, para evitar aborrecimentos antes da apresentação. A secretaria respondera confirmando o ajuste, sem consultar Clara. Helena admitiu que só agora, relendo o registro, percebera como aquela decisão a excluíra de algo que lhe dizia respeito.
— Eu devia ter perguntado a você — disse a professora. — Sinto muito.
Clara não respondeu imediatamente. Leu a mensagem outra vez, com cuidado para não confundir o que estava escrito com aquilo que ainda precisava descobrir.
— Então ele não só deixou de convidar meu avô — falou. — Pediu que tirassem o lugar que eu tinha reservado.
Helena confirmou. Acrescentou que não possuía registro de qualquer outra instrução semelhante em eventos anteriores. Por mais tentador que fosse enxergar uma conspiração em cada lembrança, tínhamos evidência concreta apenas daquela mudança e da carta escondida. Clara assentiu quando a professora fez essa distinção.
— Já é suficiente para eu querer uma explicação — respondeu.
Sônia sugeriu uma conversa mediada com Sérgio, caso minha neta concordasse. Não prometeu resolver o problema numa reunião nem tratou a situação como uma simples briga de família. Disse que Clara poderia falar primeiro, escolher o que queria perguntar e interromper o encontro se não se sentisse ouvida.
Na volta, sentamos numa padaria. Pedi dois pães de queijo e um suco de laranja para Clara, como fazíamos depois das consultas de dentista quando ela era menor. Ela guardou a pasta no fundo da mochila e começou a mexer no canudo sem beber.
— Não entendo como alguém consegue tirar o nome de outra pessoa de uma lista e depois fingir que nada aconteceu.
— Talvez tenha sido mais fácil para ele do que admitir o medo que estava sentindo.
— Medo não dá o direito de decidir minhas lembranças.
— Não dá — concordei.
Ficamos um instante quietos. Eu também estava aprendendo a responder sem tentar aliviar imediatamente o sofrimento de quem amava. Durante anos, sempre que Clara parecia triste, procurava distraí-la com comida, consertos ou histórias engraçadas. Naquela manhã, ela precisava que eu suportasse ouvir a sua raiva.
— Quer que eu fale com Sérgio antes da reunião? — ofereci.
— Não. Se ele ouvir do senhor, vai dizer que fui influenciada. Eu quero perguntar olhando para ele.
Respeitei sua escolha. Mais tarde, Helena ligou diretamente para Clara, não para Sérgio, e falou de uma oficina aberta de música que ajudava a organizar num centro cultural do bairro. Haveria encontros gratuitos aos sábados e, no fim do mês, uma apresentação simples para familiares. Clara não precisava decidir naquele dia, nem provar nada a ninguém. Podia apenas aparecer e voltar a tocar, se quisesse.
Vi minha neta prestar atenção àquelas informações de um jeito que não via havia muito tempo. Ela perguntava sobre as músicas, a duração dos encontros e a possibilidade de praticar em um teclado disponível no local.
— E se eu tiver esquecido tudo? — perguntou.
— A gente começa do ponto em que você está — respondeu Helena. — Ninguém vai cobrar a menina que você era no ano passado.
Depois da ligação, Clara ficou olhando para as próprias mãos.
— Eu abandonei as aulas porque achei que não valia a pena fazer uma coisa que deixava o senhor decepcionado. Sérgio disse que o vô tinha comentado que piano era passatempo de gente sem preocupação.
A frase me atingiu como se eu a tivesse ouvido pela primeira vez, embora já suspeitasse de sua origem. Minha aposentadoria era modesta, e eu sabia o custo de cada mensalidade. Mesmo assim, nunca falei da música como perda de tempo. Lembrava de Luciana estudando à noite enquanto Clara praticava escalas num teclado antigo. Era um som que tornava nossa casa menos vazia.
— Eu me preocupava com você ter oportunidades — falei. — E tocar era uma delas. Se um dia não quisesse continuar, eu respeitaria. Só queria que a escolha fosse sua.
Ela pediu que eu repetisse aquela frase. Depois riu, emocionada, dizendo que deveria ter perguntado isso diretamente um ano antes. Respondi que eu também poderia ter perguntado se ela me queria na plateia. Não era desculpa para o que Sérgio fizera; era uma promessa de que não voltaríamos a deixar outra pessoa traduzir nossos sentimentos.
Na quarta-feira, Sérgio aceitou o convite para uma conversa na escola. Sônia confirmou que Clara falaria primeiro e que eu poderia participar como familiar indicado por ela. Minha neta passou a noite preparando três perguntas num papel. Não escreveu acusações nem ameaças. Queria saber por que ele escondera a carta, por que retirara meu nome do recital e se estava disposto a parar de responder por ela.
Quando me mostrou a folha, havia uma quarta frase, sublinhada duas vezes: “Eu quero continuar morando em paz, mas não vou aceitar que me façam escolher quem posso amar.”
Então Clara recebeu uma mensagem de Sérgio. Ele aceitava ir à reunião, porém queria conversar comigo a sós antes, para “acertar os detalhes” sem envolver a menina.
Pela primeira vez, eu teria que dizer a Sérgio que uma conversa sobre Clara não podia mais acontecer sem Clara. A resposta a esse pedido está na Parte 6.













