No sábado, acordei antes das seis, como fazia quando Luciana ainda morava comigo e precisava pegar o ônibus para a faculdade. Coloquei água para o café e arrumei a mesa para duas pessoas. Deixei a cadeira de Clara perto da janela, onde ela gostava de desenhar enquanto esperava o pão esquentar.
Eu podia ter passado a noite procurando motivos para odiar Sérgio. Em vez disso, reli as mensagens antigas da minha neta e tentei perceber onde nossas conversas tinham começado a mudar. Havia meses em que ela respondia com fotografias da escola e histórias sobre amigas. Depois do recital, as respostas haviam ficado curtas, como se ambos tivessem aprendido a não incomodar o outro.
Clara chegou às nove, com uma mochila e os cabelos ainda úmidos. Trouxe o diploma enrolado num tubo e pediu para deixá-lo sobre a estante, ao lado do retrato de Luciana.
— Quero que a mamãe também veja — explicou.
Não corrigi o verbo nem tentei esconder a emoção. Servi café com leite para ela e fui buscar a pasta onde guardava documentos e cartas. Entre comprovantes de farmácia e fotografias, encontrei um caderno de capa verde. Sempre escrevia primeiro nele as cartas que considerava importantes, para não me esquecer de alguma coisa quando passava a limpo.
Na página do aniversário de Clara estava a mensagem inteira. Falei do dia em que ela pedalou sem rodinhas, caiu sobre a grama e se levantou rindo, com Luciana correndo atrás. Havia também uma frase que agora parecia ter sido escrita para aquela manhã: “Se um dia você achar que estou longe, me pergunte antes de acreditar na distância.”
Clara leu em silêncio. Voltou ao começo e passou o indicador sobre meu traço irregular.
— O senhor escreveu isso mesmo para mim?
— Escrevi. Coloquei uma fotografia de sua mãe dentro do envelope e fui ao correio no dia seguinte.
— Eu teria guardado essa carta.
— Eu sei.
Ela ficou olhando o caderno, tentando segurar o choro. Percebi que não bastava provar que eu lembrara seu aniversário. Precisávamos compreender por que alguém havia transformado meu carinho em uma ausência.
Clara pegou o telefone e abriu uma conversa com Sérgio. Escreveu uma pergunta simples: “Você recebeu uma carta do vô no meu aniversário de dezesseis anos?” Antes de enviar, mostrou a tela para mim.
— Não precisa pedir minha autorização — falei. — A pergunta é sua.
Ela tocou em enviar. A resposta não veio de imediato. Enquanto esperávamos, mostrei o álbum que montara para ela e que eu julgava ter deixado de interessá-la. Clara reconheceu fotografias da mãe diante do fogão, de uma viagem curta ao interior e de seu primeiro dia na escola.
— Eu sentia falta de olhar isso com o senhor — confessou. — Mas depois daquela história do recital, parecia que todas as nossas lembranças tinham virado um assunto proibido.
— Eu também senti. E, por não querer te entristecer, deixei que o silêncio decidisse por nós.
Ela puxou uma cadeira até a estante, sentou ao meu lado e escolheu uma fotografia. Luciana aparecia ajoelhada no quintal, amarrando o cadarço da filha. Clara não se lembrava do momento, mas me pediu que contasse tudo o que eu soubesse. Ficamos quase uma hora falando de coisas pequenas. A discussão sobre Sérgio continuava presente, sem precisar ocupar cada minuto.
Mais tarde, Clara me perguntou se eu ainda tinha contato com Helena, sua antiga professora de piano. A última vez que a vira tinha sido num encontro de pais, antes de Luciana morrer. Procurei o número em uma agenda antiga e o entreguei à minha neta.
Clara ligou pelo próprio telefone, colocou no viva-voz e explicou que estava tentando esclarecer uma confusão sobre o recital do ano anterior. Helena se mostrou surpresa ao descobrir que eu não comparecera porque me haviam dito que as famílias não seriam recebidas.
— Mas a apresentação era aberta aos familiares — respondeu. — Cada aluno podia reservar dois lugares. A Clara pediu um para o avô, lembro perfeitamente.
Minha neta endireitou as costas.
— Eu pedi mesmo. A senhora sabe o que aconteceu com essa reserva?
Helena fez uma pausa. Disse que não tinha os documentos diante de si e não queria afirmar o que não podia verificar. Lembrava apenas que as comunicações de ingresso haviam sido encaminhadas ao responsável indicado na ficha da aluna. Na época, esse responsável era Sérgio.
— Posso procurar o programa e os e-mails da secretaria na segunda-feira — ofereceu. — Se houver algum registro relacionado a você, Clara, conversamos pessoalmente.
Agradecemos. Depois de desligar, ficamos ouvindo o relógio da cozinha. A professora não acusara ninguém; ainda assim, confirmara que a explicação dada a mim era falsa. O recital não excluía familiares e minha neta reservara meu lugar.
— Ele falou que eu tinha vergonha do senhor — Clara murmurou. — Disse que eu não queria que aparecesse porque meus colegas levavam parentes mais bem vestidos.
Olhei para o paletó que pendurara atrás da porta depois da formatura. A barra da manga estava gasta, e o tecido perdera a cor perto dos bolsos. Pela primeira vez, entendi o que Sérgio tentara fazer com aquela diferença de dinheiro: transformá-la numa explicação para uma vergonha que Clara nunca sentira.
— Você já me viu vestido de todo jeito — respondi. — E sempre me abraçou do mesmo modo.
Ela concordou, com os olhos vermelhos.
No início da tarde, o telefone vibrou. Sérgio escrevera: “Recebi seu recado. Não sei por que estão desenterrando coisas antigas. Fiz o que achei necessário.”
Clara leu a mensagem duas vezes e digitou: “Necessário para quem? A carta chegou à nossa casa?”
Dessa vez, ele respondeu logo: “Chegou. Eu guardei. Não queria que você ficasse confusa naquela fase.”
Uma parte da história enfim estava clara. A carta não se perdera no correio; fora retirada do caminho que deveria percorrer. Mas Clara não respondeu com raiva. Pediu que Sérgio não destruísse nem escondesse mais nada e que deixasse a carta sobre a mesa quando ela voltasse.
Eu a acompanhei até o portão no fim da tarde. Antes de sair, ela me perguntou se poderia voltar no domingo seguinte para almoçar. Respondi que a cadeira já tinha dono, com ou sem convite.
Ela sorriu, mas o sorriso desapareceu ao olhar uma nova mensagem. Sérgio dissera que conversaria, desde que eu não estivesse presente. E acrescentara uma condição: Clara não deveria contar à professora Helena que os dois estávamos fazendo perguntas.
Por que uma conversa sobre um recital antigo precisava permanecer escondida da própria professora? Para saber o que Clara encontrou ao voltar para casa, siga para a Parte 4.













