Na manhã seguinte, entreguei a folha dobrada de volta a Davi.
Ele estava sentado à mesa, terminando o leite com chocolate, e pareceu surpreso por eu não ter lido.
— É sua — expliquei. — Você decide se quer guardar, rasgar ou entregar.
Davi passou o polegar sobre as dobras.
— Quero que o Rafa leia, mas não quero estar perto quando ele abrir.
— Posso entregar para ele?
Meu filho assentiu.
— E você não precisa me contar o que escreveu, a menos que queira.
— Eu quero que ele responda uma coisa — disse. — Só não quero que ele ache que vou perdoar porque escreveu uma resposta bonita.
Combinei com Rafael que buscaria alguns objetos pessoais naquela tarde e lhe entregaria a carta.
Antes de ir, confirmei com Davi que não havia problema se Rafael precisasse de tempo para responder.
Ele disse que preferia esperar a receber outra explicação apressada.
No apartamento do amigo, Rafael leu a folha diante de mim, em silêncio.
Eu não procurei olhar por cima de seu ombro.
Quando terminou, ele pediu permissão para me mostrar o texto.
Expliquei que não era minha decisão.
Então ele releu sozinho, dobrou a carta com cuidado e a colocou sobre a mesa.
— Ele escreveu que, quando a Beatriz mandou sair, esperou que eu dissesse «fica» — contou, com a voz presa. — E que queria saber se poderia confiar que eu diria isso da próxima vez.
Rafael apertou os olhos por um instante.
— Eu não tenho como prometer que nunca vou errar. Mas posso prometer que não vou esconder quando alguém fizer uma coisa errada com ele.
— Promessa é o que você fez antes de casar comigo — respondi. — Agora ele precisa ver se suas atitudes vão mudar. E talvez não queira ficar perto para conferir.
Meu marido concordou.
Não pediu que eu intermediasse o perdão.
Escreveu uma resposta curta, que li apenas depois que Davi autorizou.
Nela, Rafael assumia ter visto a lista e aprovado o álbum, sem acrescentar que a irmã o pressionara ou que tudo fora um mal-entendido.
Reconhecia que Davi tinha o direito de não querer conversar.
Meu filho leu a resposta na mesma noite.
Guardou as duas folhas na gaveta, perto da fotografia enviada por Isabela.
— Não quero falar com ele ainda — disse.
— Está bem.
No sábado, Helena tomou uma decisão que deveria ter sido dela desde o início.
Mandou uma mensagem ao grupo da família dizendo que o álbum dos setenta anos não seria distribuído na forma planejada.
Escreveu que pedira registros de todas as pessoas importantes de sua vida, incluindo Davi, e que a ausência dele não representava sua vontade.
Depois acrescentou uma frase que eu li três vezes:
«Eu estava presente quando meu neto foi mandado sair da foto. Fiquei calada tempo demais e peço desculpas por isso.»
Beatriz respondeu poucos minutos depois.
Afirmou que a mãe estava sendo influenciada e que nenhuma família deveria ser obrigada a modificar suas tradições.
Alguns parentes preferiram não comentar.
Lúcia escreveu que também tinha se omitido, e outra irmã de Rafael lembrou que os filhos de seus cônjuges sempre haviam sido acolhidos nos encontros.
Eu não participei daquela discussão.
Não queria que minha presença servisse de desculpa para desviarem o assunto da própria responsabilidade.
Então surgiu uma mensagem de Rafael.
«A Beatriz me mostrou a lista antes da festa. Eu concordei e não contei à Alice. Também aprovei o álbum sem a página do Davi. Minha mãe não foi a única pessoa que falhou. Não responsabilizem Alice por ter reagido ao que nós fizemos.»
Li aquilo com uma sensação difícil de nomear.
Era a primeira vez que Rafael assumia sua parte diante das mesmas pessoas cujo julgamento tanto temera.
Não apagava o domingo, mas finalmente o silêncio tinha terminado.
Beatriz saiu do grupo por algumas horas e voltou depois, dizendo que ninguém considerava o esforço que ela fizera para organizar a comemoração.
Helena respondeu apenas que trabalho e carinho não davam a ninguém o direito de humilhar uma criança.
Não houve uma reconciliação repentina.
O assunto continuou doloroso para todos, especialmente para quem preferia acreditar que nada sério acontecera.
Na segunda-feira, Helena telefonou para perguntar se poderia usar a foto da cozinha e aquela imagem espontânea de Davi com Isabela no novo álbum.
— Quero que seja ele quem escolha — falei. — Talvez nem queira participar.
— Vou respeitar.
Contei a Davi sobre o pedido sem explicar detalhes das mensagens entre os adultos.
Mostrei apenas as duas fotografias e perguntei se gostaria de vê-las impressas no álbum da avó.
Ele olhou as imagens por algum tempo.
— Posso escolher só a da cozinha?
— Pode.
— Na outra, a Isabela está bonita, mas ainda me lembra o dia da festa.
A honestidade dele me fez perceber quanto eu tinha subestimado o peso de certos lugares.
Uma imagem podia guardar um momento feliz e, ao mesmo tempo, lembrar o que acontecera minutos depois.
Helena aceitou a escolha e agradeceu por ter sido consultada.
Alguns dias mais tarde, Rafael perguntou se Davi aceitaria encontrá-lo em uma praça, por meia hora, comigo presente.
Conversei com meu filho, sem insistir.
Para minha surpresa, ele concordou, mas pediu que não levássemos presente algum.
Sentamos num banco perto do parquinho onde os dois costumavam andar de bicicleta.
Rafael não se aproximou para abraçá-lo.
— Eu li o que você escreveu — disse. — Você tem razão. Eu devia ter falado naquela hora, e antes dela também.
— Se a tia mandar eu sair outra vez, você vai falar? — Davi perguntou.
— Vou dizer que ela está errada. E, se ela insistir, não vou fingir que está tudo bem.
— Por que você não fez isso antes?
Rafael respirou fundo.
— Porque tive medo de brigar com minha irmã e deixei você pagar por esse medo. Foi covardia minha.
Davi ficou olhando um homem passar com um cachorro.
— Eu não quero voltar a ir às festas dela.
— Você não precisa — respondeu Rafael.
Quando nos despedimos, Davi não pediu abraço.
Rafael também não pediu.
Na volta, meu filho disse que estava contente por ter feito a pergunta, mas ainda não sabia se confiava na resposta.
Naquela noite, conversei com Rafael sem Davi presente.
Falei que não estava pronta para retomar o casamento e que continuaríamos morando separados.
Ele não discutiu.
Pela primeira vez, percebi que não estávamos tentando resolver o sofrimento do menino com uma decisão apressada dos adultos.
Ainda faltava uma escolha difícil: como permitir que Davi guardasse o carinho que sentia por Rafael sem obrigá-lo a confiar de novo, antes da hora?
A decisão de Alice e a nova fotografia de Davi encerram a história na Parte 7.













