Na quinta-feira, encontrei Rafael numa cafeteria perto do escritório dele.
Não levei Davi.
Pedi que meu marido viesse sozinho e trouxesse o celular, porque não queria conversar sobre lembranças vagas enquanto existiam mensagens com datas e respostas precisas.
Mostrei a cópia do e-mail da gráfica.
Rafael reconheceu o assunto antes mesmo de terminar de ler.
— A Beatriz pediu que eu olhasse as páginas — disse.
— E você olhou?
— Olhei.
— Viu que não havia uma página para Davi?
Ele baixou os olhos.
— Vi.
Essa palavra, repetida tão calmamente, me deixou sem força para levantar a voz.
Eu esperara encontrar uma confusão técnica, uma versão que ele não tivesse aberto, alguma explicação que tornasse tudo menos deliberado.
Mas Rafael não me deu nenhuma.
— Pensei que fosse um álbum da história da família antes de você e Davi chegarem — continuou.
— Tem fotos tiradas no Natal passado, Rafael. Você estava ao lado dele naquele dia.
— A Beatriz falou em separar as páginas dos descendentes.
— E você concordou mais uma vez.
Ele mexeu no guardanapo.
— Concordei porque era mais fácil terminar logo. Achei que não teria importância para o Davi se ele nem visse o álbum.
— Você não pensou no que aconteceria quando ele descobrisse. Pensou em não precisar enfrentar sua irmã.
Rafael assentiu.
Não havia satisfação em ouvi-lo admitir.
Aquilo só tornava mais claro o tamanho do hábito que tínhamos permitido crescer dentro da nossa casa.
— Eu gosto daquele menino — ele disse. — Você sabe disso. Levei ao médico quando ele quebrou o braço, ensinei a andar de bicicleta, fui às reuniões da escola.
— Eu sei. E ele sabe também. É por isso que a sua escolha doeu tanto.
Meu marido segurou o copo de café sem beber.
— Quero consertar.
— Então comece sem pedir que ele facilite o seu arrependimento. Ele não tem que entrar numa foto, sorrir e fazer você se sentir perdoado.
Rafael perguntou se eu ainda o amava.
Respondi que não era uma pergunta para ser decidida naquela mesa.
A confiança que eu tinha nele se quebrara em várias situações pequenas e numa decisão muito grande.
Não sabia se poderia reconstruí-la, nem queria prometer uma resposta para aliviar sua ansiedade.
— Vou continuar no apartamento do meu amigo — ele disse.
— Por enquanto, sim. Depois conversaremos sobre o que fazer com o casamento. Davi precisa de estabilidade.
Antes de nos despedirmos, Rafael perguntou como poderia pedir desculpas sem piorar as coisas.
Sugeri que escrevesse o que realmente tinha feito e aguardasse até Davi querer ouvi-lo.
Não era uma receita para reconciliação.
Era o mínimo de respeito que ainda lhe cabia oferecer.
Naquela tarde, Beatriz me telefonou três vezes.
Atendi na quarta, porque não queria que continuasse mandando mensagens para meu marido como se eu não participasse da própria vida.
— Você foi até a casa da minha mãe mexer nos papéis dela? — perguntou, sem cumprimento.
— Sua mãe me convidou. Conversamos sobre o álbum.
— Esse álbum é uma homenagem, Alice. Você está tentando arruinar uma coisa que deu muito trabalho.
— Não quero arruinar nada. Quero que você pare de tratar Davi como alguém que precisa ser escondido.
— Você insiste em misturar sentimentos com o que é família de verdade. Minha mãe tem filhos e netos; isso é um fato.
— Davi não está pedindo certidão de nascimento com o sobrenome de vocês. Ele perguntou se podia ficar perto da avó numa fotografia.
Beatriz fez uma pausa.
— Rafael sempre soube que eu organizaria desse jeito.
— Eu sei. E vou conversar com ele sobre a responsabilidade dele. Você continua responsável pela sua.
Ela respondeu que eu tinha transformado uma festa bonita num escândalo.
Pela primeira vez, não tentei convencê-la de que estava sendo injusta.
— Não autorize mais ninguém a retirar meu filho de uma foto nem use a imagem dele para criar outra discussão. Se precisar falar comigo, fale comigo. Não ligue para Davi.
Desliguei antes que ela transformasse meu limite em mais uma disputa.
Fiquei tremendo por alguns minutos, mas era diferente da sensação de impotência que me acompanhara desde domingo.
Eu não havia mudado Beatriz.
Tinha deixado de pedir a ela permissão para proteger meu filho.
Quando Davi voltou da escola, perguntou se Rafael viria buscar as roupas que deixara no quarto.
Expliquei que sim, em um horário combinado para os dois não se encontrarem por acaso.
— Vocês vão se separar por minha causa? — ele perguntou.
Sentei ao seu lado no tapete da sala.
— Não. Estamos tendo problemas por escolhas que os adultos fizeram. Você não criou esses problemas e não precisa resolvê-los.
— Eu gostava quando o Rafa fazia pipoca e deixava eu escolher o filme.
— Você pode continuar gostando dessas lembranças. Elas não desaparecem porque alguma coisa ruim aconteceu.
Davi começou a dobrar uma folha de caderno ao meio.
— Eu também posso ficar bravo com ele?
— Pode. Não precisa escolher um sentimento só.
Ele pensou por um momento e desenhou uma linha na margem da folha.
Não me mostrou o que escrevia.
Eu respeitei o silêncio.
No início da noite, Isabela enviou a Davi uma fotografia tirada no celular durante a festa.
Os dois apareciam ao lado de Helena, perto do bolo, rindo de alguma coisa que eu não me lembrava.
A imagem tinha sido feita antes da fila organizada por Beatriz.
Meu filho a abriu várias vezes.
— Nessa ninguém mandou eu sair — comentou.
Eu não respondi que bastava aquela foto para tudo ficar bem.
Sabia que não bastava.
Mas perguntei se queria imprimi-la, e ele disse que sim, desde que não precisasse mostrar a ninguém.
Ele escolheu uma moldura simples que estava guardada no armário, mas mudou de ideia antes de colocarmos a fotografia na estante.
Preferiu deixá-la na gaveta da escrivaninha.
Entendi que não queria transformar uma lembrança boa numa resposta pública à vergonha que tinha passado.
A foto era dele, não um argumento para eu apresentar aos parentes de Rafael.
Respeitei a escolha e ajudei a guardar a moldura.
Mais tarde, quando fui apagar a luz, encontrei a folha dobrada sobre a mesa da cozinha.
Do lado de fora, Davi escrevera apenas: «Para o Rafa, se ele quiser saber.»
Não abri.
Pela primeira vez em dias, meu filho tinha encontrado palavras próprias, e cabia a mim decidir como protegê-las sem tomar a voz dele.
O que Davi escreveu e como Rafael reagiria quando finalmente ouvisse o menino? Continue na Parte 6.













