A busca começou numa terça-feira de céu claro, depois de vários dias sem chuva. Ana me avisara que não faria sentido eu acompanhar o trabalho de perto. Respeitei o isolamento e fiquei na oficina com o telefone sobre a bancada. Naquela manhã, consertei duas motocicletas pequenas sem lembrar depois a ordem em que tinha apertado os parafusos. Davi conferiu o serviço comigo, percebeu minha cabeça longe e sugeriu que eu fosse para casa.
Fui até a casa de Celina. Trovão estava comigo. Minha mãe abriu o portão e nos recebeu sem perguntas. Passamos boa parte da tarde tirando poeira de uma estante e separando livros que Jaime deixara.
Ela encontrou um manual de motores que Tiago rabiscara quando tinha dezessete anos. Nas margens havia desenhos malfeitos, setas e uma receita de bolo que eu escrevera por cima para irritá-lo. Celina riu pela primeira vez em dias. Disse que os dois tínhamos disputado aquele livro durante anos, até meu pai ameaçar guardá-lo no alto do armário. Fiquei algum tempo olhando os rabiscos. Eram lembranças pequenas, anteriores ao acidente, ao desaparecimento e às mentiras. Gostei de descobrir que ainda conseguíamos falar de Tiago sem começar pela tragédia. Aquilo nos deu forças para enfrentar o telefone quando ele tocasse. Era um trabalho inútil para a investigação, mas necessário para o corpo aguentar a espera. Entre dois romances antigos, encontrei uma fotografia minha e de Tiago adolescentes, diante do primeiro letreiro da oficina.
Ele aparecia segurando uma chave de roda, como se fosse um troféu. Eu estava com a testa manchada de graxa e um sorriso que não cabia no rosto. Minha mãe encostou a foto na geladeira. Não falou sobre o que poderia acontecer naquele dia.
No meio da tarde, Ana telefonou. A equipe tinha encontrado, sob sedimentos acumulados junto a uma estrutura de drenagem, partes de tecido e uma bota de trabalho. Não era possível identificar a quem pertenciam. O local continuaria preservado para exame. Ela pediu que eu fornecesse informações sobre roupas e calçados usados por Tiago na data do desaparecimento, sem tentar interpretar fotografias parciais.
Lembrei da bota marrom que meu irmão comprara numa loja perto da rodoviária. Tinha uma costura reforçada no tornozelo. Quase afirmei que era aquela, mas a lembrança podia ter sido contaminada pelo desejo de reconhecer algo. Disse apenas o que recordava e encaminhei a foto da bota que aparecia numa imagem antiga de família.
Dois dias depois, a polícia informou que havia localizado restos humanos no mesmo trecho. O material seguiria para perícia e eventual comparação genética. Não divulgaram identidade. Recebi a notícia diante de minha mãe, que segurava uma xícara vazia. Ela fechou os olhos e perguntou se havia certeza. Eu disse que não, porque era a única resposta verdadeira.
A descoberta trouxe uma movimentação que me incomodou. Um conhecido enviou mensagem dizendo ter visto comentários sobre um corpo encontrado. Outro perguntou se a oficina ficaria fechada para velório. Desliguei as notificações e pedi que Davi não compartilhasse detalhes. Tínhamos passado anos sofrendo por informações inventadas; não deixaria que a notícia mais importante de nossas vidas também fosse feita de suposições.
Enquanto os exames prosseguiam, as declarações mudaram o rumo da apuração. Lígia confirmou a existência da ficha de bloqueio. Elias indicou o ponto da estrada e aceitou reconstituir o caminho que percorreu, sem afirmar ter visto o que acontecera depois que Vicente seguiu Tiago a pé. Eduardo apresentou o registro adulterado e o comprovante do dinheiro recebido. Os antigos arquivos disponíveis na Rota Norte foram requisitados para comparação.
Vicente Braga negou responsabilidade por qualquer irregularidade. Por intermédio de defesa, afirmou que Tiago tinha saído por vontade própria e contestou a credibilidade dos antigos empregados. Não houve confissão diante de uma câmera nem prisão instantânea que resolvesse tudo. Ao ouvir a negativa, senti uma raiva que quase me fez telefonar para ele. Helena pediu que eu olhasse para a pilha de documentos organizada sobre a mesa.
— O trabalho está aqui — disse. — Você já conhece a diferença entre ter certeza de alguma coisa e conseguir demonstrá-la.
Também havia uma escolha a fazer com Eduardo. Ele pediu que eu dissesse à polícia como tinha colaborado nas últimas semanas. Isso era verdade, mas não apagava sua declaração falsa de 2021. Quando Ana perguntou sobre nossos encontros, contei integralmente o que acontecera. Eduardo soube disso por mim. Ficou quieto e depois assentiu.
— Achei que você fosse tentar me proteger — disse.
— Não seria justiça pelo Tiago se eu escondesse sua parte — respondi. — Nem pelo Marcos.
Naquela noite, fomos à casa de Alice para mostrar a ela, com autorização e sem expor informações reservadas, o andamento das provas relativas à revisão. Ela estava à mesa com a filha, Beatriz, que já trabalhava e estudava à noite. As duas tinham passado anos ouvindo que Marcos deveria ter percebido o defeito no veículo. Quando souberam que existia uma ordem anterior impedindo a liberação, Beatriz perguntou por que ninguém a tinha encontrado antes.
Não havia resposta que coubesse numa frase. Contei sobre a maleta escondida pelo meu pai, a decisão de Lígia de guardar o e-mail, o silêncio de Eduardo e o medo de Elias. Era um conjunto de omissões pequenas e grandes, nenhuma capaz de devolver a vida que fora perdida.
Beatriz nos acompanhou até a porta. Disse que não precisava de alguém para lhe prometer uma condenação; queria que, no registro da história, seu pai deixasse de ser o homem que teria saído irresponsavelmente com um caminhão quebrado. Prometi apenas continuar colaborando para que os fatos fossem esclarecidos.
Na manhã seguinte, voltei a abrir a oficina no horário habitual. Trovão deitou perto da bancada, encostado na sombra do carro suspenso. Percebi que ele envelhecera nos últimos meses. Não era mais o filhote da fotografia, tampouco o cão vigoroso que retornara sozinho pela estrada. Quando minha mão caiu ao lado da perna, quase repeti o sinal de Tiago. Parei no meio do gesto e me agachei para fazer carinho nele.
Ainda não havia confirmação sobre os restos encontrados. Havia, porém, algo que já não dependia do resultado dos exames: eu não podia continuar chamando meu irmão de covarde enquanto exigia dos outros coragem para contar o que sabiam.













