Helena não gostou quando sugeri procurar Elias Ferreira por conta própria. Disse que uma conversa mal conduzida poderia assustá-lo, provocar versões defensivas ou dificultar a investigação. Aceitei que fosse ela a fazer o primeiro contato. Dois dias depois, Elias concordou em falar com a advogada, comigo e com Eduardo numa sala cedida por um escritório em Contagem.
Chegou quinze minutos atrasado. Era um homem de ombros caídos, cabelos já quase brancos e mãos grandes, marcadas pelo trabalho de carregar caixas. Não apertou a mão de Eduardo. Sentou perto da porta e ficou olhando um copo de água que não bebeu.
— Eu não sou criminoso — declarou, antes que alguém perguntasse qualquer coisa.
Helena abriu um caderno.
— Ninguém veio aqui para decidir isso. O que precisamos é saber o que aconteceu na noite de dezenove de abril de 2021. Se preferir prestar tudo diretamente às autoridades, podemos encerrar esta conversa.
Elias olhou para mim. Quando falei que era irmão de Tiago, seus olhos foram até a fotografia sobre a mesa. A imagem mostrava meu irmão no pátio, com Trovão junto à perna. Ele a segurou pelas bordas, como se o papel pudesse machucá-lo.
— Eu lembro desse cachorro — disse. — Não largava o rapaz por nada.
Por alguns minutos, Elias repetiu a versão conhecida: levara peças ao depósito secundário, não vira Tiago entrar no veículo e voltara sozinho. Eduardo permaneceu calado. Helena fez perguntas sobre itinerários e horários, sem levantar a voz. Foi uma observação banal que quebrou a história. Elias disse que o portão dos fundos ficava fechado depois das sete. Eduardo mostrou o registro em que constava sua assinatura liberando uma caminhonete às 19h28.
— Essa é sua letra no controle de saída? — Helena perguntou.
Elias inclinou a cabeça.
— O controle era preenchido depois, às vezes. Não quer dizer nada.
— Então por que Vicente mandou você passar pela estrada do Jatobá? — Eduardo perguntou.
O rosto de Elias perdeu a cor. Ele fitou o antigo colega com uma mistura de medo e raiva.
— Você prometeu que não ia falar disso.
O silêncio seguinte pareceu ocupar toda a sala. Helena pediu que Eduardo não interrompesse mais. Elias poderia continuar ou sair. Ele se levantou, deu dois passos em direção à porta e voltou. Quando sentou, não procurou mais desculpas para o horário.
Tiago entrara na caminhonete com Trovão porque Vicente prometera mostrar um arquivo no depósito secundário. Elias dirigia. No início, os três deveriam seguir pela avenida principal, mas Vicente, em outro veículo, telefonou mandando alterar a rota. Depois os alcançou num trecho pouco iluminado da estrada do Jatobá, próximo a uma área de drenagem desativada.
— Ele saiu do carro gritando que não ia entregar cópia nenhuma — contou Elias. — Tinha uma pasta dentro da camisa. Vicente tentou arrancar, e o cachorro avançou. Seu irmão puxou o Trovão pela coleira e correu para a parte de baixo da estrada.
— Você correu atrás? — perguntei.
— Não. Eu fiquei na caminhonete. Vicente desceu com uma lanterna. Ouvi os dois discutindo mais longe. Depois teve um barulho, como alguma coisa batendo em metal. Eu não vi quem caiu nem o que aconteceu.
Quis perguntar por que ele não procurara meu irmão, mas a resposta estava na forma como Elias abraçava o próprio corpo. Ele contou que Vicente reapareceu cerca de vinte minutos depois, sem Tiago, e disse que o mecânico fugira a pé. Ordenou que Elias dirigisse de volta ao depósito e esquecesse o percurso. No dia seguinte, um supervisor apresentou um relatório de viagem com horário de retorno falso.
— Por que ficou quieto? — perguntei, mesmo sabendo que podia ouvir algo que odiaria.
— Porque ele disse que eu tinha ajudado a levar o Tiago para lá. E era verdade. Eu achei que, se contasse o que vi, iam me tratar como cúmplice. Ele pagou minhas dívidas e me transferiu para outra rota. Eu passei cinco anos pensando que talvez seu irmão tivesse saído vivo por outro lado.
Não havia certeza sobre a morte de Tiago naquela fala. Havia, porém, uma coisa nova: a última rota conhecida. Elias fez um desenho com a curva da estrada, a cerca quebrada e um canal de água pluvial que terminava num talude coberto de mato.
Perguntei se Tiago tinha se machucado antes de correr. Elias lembrou que ele segurava o braço esquerdo junto ao corpo, mas não soube dizer se estava ferido ou protegendo os papéis. A lembrança me incomodou justamente por ser incompleta. Eu queria ouvir uma descrição nítida, encontrar ali um detalhe que me dissesse como meu irmão reagira. Em vez disso, havia o relato de um homem que ficara olhando pelo retrovisor. Helena anotou a incerteza sem tentar preenchê-la. Pela primeira vez entendi como uma frase pouco precisa, repetida como certeza, podia arruinar uma investigação inteira. Helena pediu que assinasse uma declaração sobre o que lembrava, deixando claro quais trechos vira e quais eram suposições. Ele concordou em falar oficialmente.
Saí da sala querendo ir direto ao lugar. Helena insistiu que primeiro entregássemos a informação às autoridades. A região havia sofrido alterações em cinco anos; seria perigoso procurar sozinho entre estruturas de drenagem abandonadas. Esperei a comunicação formal ser recebida e, no dia seguinte, acompanhei uma visita preliminar autorizada ao trecho, sem entrar nas áreas isoladas.
A estrada parecia menor do que eu imaginara. Caminhões passavam longe, no asfalto principal. Perto da curva indicada por Elias, havia eucaliptos finos, lixo levado pela chuva e restos de uma cerca. O canal descia por trás de um barranco. Fiquei olhando para aquele lugar pensando no meu pai, que encontrara ali a coleira vermelha e voltara para casa sem me dizer nada.
Trovão permanecera na oficina com Davi. Eu não o trouxera porque não queria usar um animal velho como instrumento de busca improvisada. Mesmo assim, procurei com os olhos alguma marca que ele pudesse reconhecer. Não encontrei nada, apenas um pedaço enferrujado de chapa preso entre pedras. Não toquei nele.
Na volta, telefonei para minha mãe. Ela perguntou se tínhamos encontrado Tiago. Eu disse que ainda não, mas que agora havia um caminho concreto para investigar. Contei sobre Elias, sem omitir a parte em que aceitara dinheiro para se calar. Celina chorou quieto. Antes de desligar, pediu que eu não fizesse nenhuma promessa de final feliz.
Quando cheguei à oficina, Trovão estava esperando junto à porta. Encostou o focinho na minha mão e me seguiu até a bancada, onde deixei a cópia do mapa. Pela primeira vez não me ocorreu perguntar por que ele voltara sozinho tantos anos antes. Pensei apenas que, naquela noite, ele também tinha estado num lugar do qual ninguém sabia voltar.













