Na quarta-feira, Gustavo saiu de Campinas com uma mala pequena e uma passagem só de ida.
Desta vez, Nina sabia para onde ele iria.
Ela sabia que o pai ficaria perto de Augusto por algum tempo, e também que continuaria morando comigo enquanto os adultos organizavam o futuro.
Não lhe prometemos uma data de volta que ainda não existia.
Prometemos telefonemas em dias combinados e avisos claros sobre visitas.
Gustavo veio se despedir na noite anterior, na presença de Célia.
Trouxe um livro que Nina queria ler e perguntou se poderia acompanhar pelo telefone o trabalho escolar que ela faria na semana seguinte.
A menina aceitou.
Quando ele se levantou para sair, correu até a mochila e tirou um pedaço de papel.
Era uma lista com três perguntas sobre o avô: se o corrimão já tinha chegado, se ele estava comendo direito e se o cachorro do vizinho ainda aparecia no portão.
— Você pode perguntar tudo isso pra ele? — Nina quis saber.
— Posso.
— E vou te contar as respostas.
Observei os dois sem interferir.
Meu coração doía, mas era um tipo diferente de dor.
Eu não precisava defender Nina de uma despedida honesta.
Precisava ajudá-la a entender que sentir saudade do pai não significava dever acompanhá-lo para qualquer lugar.
Nos primeiros dias, Gustavo cumpriu os horários das chamadas.
Augusto aparecia às vezes na tela, apoiado numa cadeira, impaciente com as orientações sobre repouso.
Gustavo me enviou uma cópia das despesas que tivera com o apartamento reservado e do valor que conseguira recuperar após cancelar parte do contrato.
O restante foi colocado numa proposta de reposição ao orçamento familiar.
Não era uma demonstração grandiosa de arrependimento.
Era uma providência verificável, e eu começava a distinguir essas duas coisas.
Ele também encaminhou a confirmação da escola de Curitiba de que o pré-cadastro havia sido encerrado e a imagem da assinatura retirada do processo.
Eu conferi a informação diretamente com a secretaria.
Guardar aquele comprovante me trouxe um alívio silencioso.
Não porque encerrasse a discussão, mas porque a decisão sobre a educação de Nina voltava a passar pelas pessoas responsáveis por ela.
Em Campinas, a rotina encontrou um ritmo novo.
Eu levava Nina à escola, Célia a buscava nas tardes em que eu precisava resolver tarefas, e aos sábados continuávamos indo à padaria.
Alguns dias, Nina falava do pai sem dificuldade.
Em outros, ficava irritada por um motivo pequeno e depois perguntava se ele estava triste sozinho.
Eu aprendi a não responder que tudo estava bem quando não sabia.
— Ele sente sua falta — eu dizia.
— E está cuidando de coisas que são responsabilidade dos adultos.
Aos poucos, ela deixou de perguntar se tinha feito alguma coisa para causar a viagem.
A professora me contou que Nina voltara a participar das atividades com mais tranquilidade.
Ainda assim, não tratei esse sinal como prova de que nada havia acontecido.
Quando uma criança aprende a guardar segredo para não entristecer um dos pais, a confiança precisa de tempo para voltar.
Passadas algumas semanas, Augusto me telefonou.
Agradeceu por eu ter permitido que Nina continuasse conversando com ele com a mesma liberdade.
Corrigi a palavra permitido com delicadeza.
Eu não estava concedendo um favor.
Nina tinha uma relação própria com o avô, e não queria usá-la como resposta ao erro do pai.
Augusto ficou emocionado.
Depois disse que gostaria de conversar comigo pessoalmente quando fosse conveniente.
Combinamos uma visita num fim de semana, sem levar Nina naquele momento, pois ela tinha um compromisso na escola e eu não queria criar a expectativa de uma mudança.
Célia se ofereceu para acompanhá-la em Campinas.
Viajei para Curitiba com ida e volta compradas no meu nome.
Olhei as passagens na tela do telefone antes de sair de casa.
A diferença parecia pequena, mas me importava: eu conhecia meu plano, minha data de retorno e as pessoas envolvidas também.
Augusto me recebeu apoiado numa bengala.
O banheiro tinha barras de apoio recém-instaladas, e uma vizinha passava para verificar se ele precisava de alguma coisa.
Não era um cenário de abandono, nem uma situação que pudesse ser resolvida apenas com carinho.
Ele precisava de uma rede organizada, e Gustavo estava finalmente ajudando a construir uma.
Sentamos à mesa, perto de uma janela que dava para o quintal.
Augusto trouxe uma fotografia de Helena e Gustavo quando ele tinha dez anos.
A mãe segurava a mão do menino numa estação rodoviária.
Eu reconheci o mesmo olhar cauteloso que vira em Nina quando mostrou as passagens.
— Eu guardei esta foto por décadas — Augusto falou.
— Na época, achei que o importante era termos voltado para casa.
— Demorei muito a perceber que Helena precisou reaprender a acreditar em mim.
Não soube o que responder.
Ele não me pediu que perdoasse Gustavo.
Também não tentou convencer-me a morar perto dele.
Disse apenas que o filho estava assumindo mais cuidados do que antes e que isso lhe fazia bem, desde que fosse uma escolha honesta.
À tarde, Gustavo apareceu para nos acompanhar a uma consulta de Augusto.
No caminho, conversamos sobre os próximos meses e sobre o fato de que ele poderia permanecer em Curitiba por um período, trabalhando e dividindo os cuidados com a rede de apoio que organizaram.
Eu expliquei que não pretendia mudar Nina de escola nem de cidade por uma decisão tomada às pressas.
Gustavo ouviu sem argumentar sobre o parque, o apartamento ou a suposta vantagem da escola nova.
Depois da consulta, ele me pediu alguns minutos a sós.
Caminhamos até um banco perto da entrada.
Ele tirou do bolso o recibo da quantia que havia reposto às nossas economias até aquele momento.
Eu o guardei sem comentar.
— Fui eu quem colocou a Nina no meio — ele disse.
— Não foi Curitiba, nem meu pai, nem o trabalho.
— Fui eu.
Era a primeira vez que ele assumia a decisão inteira sem apresentá-la como inevitável.
Fiquei olhando as pessoas que entravam e saíam, cada uma carregando uma preocupação que eu não conhecia.
— Você pode ser um pai presente mesmo morando longe por um tempo — respondi.
— Mas presença vai ter que significar compromisso, não surpresa.
Gustavo assentiu.
Então perguntou se eu ainda queria continuar casada com ele.
Não perguntou com raiva nem tentou usar Nina para me convencer.
Talvez por isso a pergunta tenha sido tão difícil.
Eu ainda não tinha uma resposta.
E, pela primeira vez, não achei que precisasse inventar uma para fazê-lo se sentir melhor.
O que eu poderia dizer a Gustavo sem abandonar a mim mesma? Na Parte 7, conto a escolha que fiz quando deixei de confundir manter a família unida com manter tudo como antes.













