Gustavo ficou tanto tempo olhando a data que ouvi a água pingar da torneira mal fechada.
Aquela demora me deu uma resposta antes que ele abrisse a boca: a escolha não tinha sido feita naquela semana.
Tinha sido feita sem mim, com antecedência suficiente para visitar uma escola e planejar uma vida inteira.
— Há quase dois meses apareceu uma oportunidade em Curitiba — ele disse, por fim.
— Oportunidade de quê?
— De trabalho.
Por alguns segundos, senti alívio por ele finalmente estar dizendo alguma coisa concreta.
O alívio desapareceu quando percebi o tamanho da omissão.
Gustavo e eu sempre conversávamos sobre nossas contas, mesmo quando discordávamos.
Morávamos num apartamento simples, pagando financiamento, e acompanhávamos juntos os gastos com a escola de Nina.
Uma proposta em outra cidade não era um detalhe que pudesse ser escondido até a véspera da partida.
— Você aceitou?
— Ainda não assinei tudo.
— Mas comprou duas passagens só de ida e procurou escola para a nossa filha.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Achei que, quando estivesse resolvido, você entenderia.
— Entenderia que minha filha tinha ido embora?
Gustavo ergueu a cabeça como se a palavra embora o ofendesse.
— Eu não ia impedir você de ir depois.
— Depois de quê, Gustavo?
Ele ficou quieto novamente.
Eu o conhecia havia onze anos e sabia reconhecer quando tentava ganhar tempo.
Naquela noite, porém, não havia espaço para respostas incompletas.
— Vou fazer uma pergunta e quero que você me responda sem falar do seu pai — pedi.
— Você pretendia embarcar amanhã com a Nina, mesmo se eu dissesse não?
— Eu pretendia conversar com você.
— Não foi isso que perguntei.
Ele olhou para o envelope.
— Sim — respondeu num fio de voz.
A sinceridade tardia teve um peso estranho.
Eu esperava sentir vontade de gritar, mas o que veio foi uma necessidade quase física de proteger a tranquilidade de Nina.
Ela ainda estava na sala, com os lápis espalhados em volta da casa amarela.
— Então escute com atenção — falei.
— Amanhã nossa filha não embarca.
— Você pode ir visitar Augusto e cuidar dele, mas não vai decidir sozinho onde Nina mora.
— Você não pode simplesmente proibir que eu veja minha filha.
— Não estou proibindo nada.
— Estou dizendo que uma mudança permanente precisa ser discutida pelos dois.
— E Nina precisa saber que não será levada enquanto nós brigamos.
Ele se sentou finalmente.
Eu guardei as passagens, sem rasgá-las e sem escondê-las.
Precisava lembrar que eram documentos, não um objeto contra o qual descarregar a raiva.
— Você está com medo de alguma coisa? — perguntei.
— De uma dívida, de perder o emprego, de me contar outra verdade?
Gustavo pareceu surpreso com a pergunta.
— Não tenho outra família, se é isso que você está pensando.
— Eu não falei em outra família.
— Estou tentando entender por que você achou necessário fugir de uma conversa comigo.
Ele contou que vinha se sentindo inseguro havia meses.
O trabalho tinha deixado de oferecer a estabilidade que ele esperava, e o contato de Curitiba parecia uma saída.
Antes mesmo da queda, já havia imaginado morar perto do pai.
Quando Augusto se machucou, Gustavo passou a tratar a ideia como uma obrigação urgente.
— Eu sabia que você não queria abandonar sua mãe — ele disse.
— E pensei que fosse melhor resolver primeiro.
— Minha mãe não é um obstáculo a ser contornado.
— E não fui eu quem pediu à Nina para guardar segredo.
A última frase o fez abaixar os olhos.
Eu não sabia se o arrependimento era verdadeiro ou apenas a vergonha de ter sido descoberto.
Não tinha condições de decidir isso às nove da noite.
Fui até a sala e perguntei a Nina se queria dormir na casa de Célia, onde às vezes passava as noites de sexta.
Ela perguntou se eu também iria.
Respondi que sim.
Não queria transformar a casa da avó num refúgio secreto, então expliquei que eu e Gustavo precisávamos conversar sobre assuntos de adultos e que ambos continuaríamos presentes na vida dela.
— O papai vai ficar bravo comigo? — ela perguntou.
— Você não fez nada que mereça bronca.
Gustavo ouviu a pergunta da porta.
Ajoelhou-se perto da filha e disse que ela podia falar comigo sobre qualquer coisa.
Nina demorou a abraçá-lo.
Quando o fez, Gustavo fechou os olhos, como se só naquele instante percebesse a confusão que havia criado.
No carro, a caminho da casa de minha mãe, recebi uma mensagem dele.
Não era um pedido de desculpas.
Era uma fotografia de um apartamento pequeno em Curitiba, com uma janela voltada para árvores e uma parede pintada de amarelo.
Abaixo, estava escrito: «Já paguei a reserva. Pensei que você acabaria gostando.»
Deixei o telefone sobre o banco do passageiro.
Nina dormia na cadeirinha, abraçada ao estojo que trouxera na mochila.
A parede amarela explicava o desenho.
Meu marido não havia apenas pesquisado escolas: já tinha mostrado à nossa filha o lugar onde esperava que ela morasse.
Célia abriu a porta antes que eu tocasse a campainha.
Não fez perguntas na frente da neta.
Preparou leite morno, estendeu o sofá-cama do quarto de visitas e só voltou à cozinha depois de Nina adormecer.
Contei tudo sem procurar palavras que diminuíssem a gravidade do que havia acontecido.
Minha mãe escutou até o fim.
— Você sabe que eu gosto do Gustavo — disse.
— Mas carinho por alguém não dá a essa pessoa o direito de tomar decisões pelos outros.
Pedi que ela ficasse com Nina pela manhã, enquanto eu procurava orientação sobre como proteger a rotina da menina sem transformar o assunto numa disputa em que ela precisasse escolher um lado.
Célia concordou.
Depois colocou diante de mim o papel da escola, que eu havia guardado dentro da bolsa.
— Tem mais alguma folha? — perguntou.
Lembrei que Nina mencionara uma lista de documentos.
Tirei da bolsa o segundo lado da impressão, quase invisível porque estava dobrado para dentro.
Havia ali um formulário de pré-cadastro.
No campo reservado à mãe, estava meu nome completo.
No espaço destinado à ciência dos responsáveis, havia uma imagem da minha assinatura.
Eu reconheceria aquele traço em qualquer lugar.
Só que não me lembrava de ter assinado documento algum para uma escola de Curitiba.
Não era apenas uma viagem comprada em segredo.
Alguém havia usado meu nome para fazer parecer que eu já sabia.
Como aquela assinatura tinha ido parar ali? Continue na Parte 3 para descobrir por que o papel mudou tudo o que eu pensava sobre a decisão de Gustavo.













