Augusto me pediu que eu me sentasse antes de continuar.
Não falou como um homem tentando justificar o filho.
Falou como alguém que reconhecia uma lembrança da qual nunca conseguira se orgulhar.
— Eu e Helena passamos por uma fase difícil quando o Gustavo era pequeno — começou.
— Eu tinha uma proposta de trabalho fora da cidade.
— Sua sogra não queria mudar antes de terminar o ano letivo dele e resolver as coisas da casa.
Eu sabia que Helena, mãe de Gustavo, havia morrido anos antes de Nina nascer.
Conhecia fotografias dela na estante de Augusto, mas não aquela parte de sua vida.
— Eu estava convencido de que sabia o que era melhor — ele continuou.
— Levei o Gustavo para passar alguns dias comigo, dizendo que seria uma visita.
— Depois tentei convencer Helena a vir logo, porque o menino já estava lá.
— E ela foi?
— Foi buscá-lo.
— E nunca esqueceu que eu tinha tentado decidir o futuro dela usando nosso filho como argumento.
Augusto fez uma pausa para tossir.
Perguntei se precisava descansar.
Ele disse que falar demoraria menos do que continuar evitando a lembrança.
— Helena e eu conseguimos ficar juntos — explicou.
— Mas por muito tempo ela conferia cada plano de viagem, cada papel de escola.
— Eu achava que era exagero.
— Hoje sei que fui eu quem ensinou a ela a desconfiar.
Pensei em mim naquela manhã, pedindo a Gustavo o comprovante de cancelamento de uma passagem.
O gesto que parecera tão estranho algumas horas antes acabava de ganhar uma explicação dolorosa.
Não queria viver o resto do casamento conferindo se minha própria filha estava incluída em planos secretos.
— Gustavo sabe que o senhor pensa assim? — perguntei.
— Eu já tentei dizer.
— Ele sempre achou que a história terminava porque voltamos a morar juntos.
— Só quem estava dentro da casa sabia o que tinha mudado.
Na ligação, Augusto também me contou que sua queda fora real.
Havia escorregado no banheiro e sofrido uma lesão leve, mas ainda precisava de ajuda para algumas tarefas.
Um vizinho o levara a uma consulta; uma pessoa contratada o auxiliava em horários específicos.
Nada disso era simples, e eu não pretendia minimizar suas necessidades.
O que não fazia sentido era transformar a recuperação dele em autorização para mudar a vida de Nina.
— O senhor pediu que Gustavo fosse morar aí? — perguntei.
— Pedi que a gente conversasse sobre como eu poderia ter mais apoio.
— Ele respondeu que já estava pensando em uma mudança.
— Eu achei que vocês dois estivessem de acordo.
Augusto pareceu mais triste com essa última frase do que com a dor da queda.
— Eu não quero ser o motivo de minha neta achar que precisa abandonar a mãe para cuidar de mim.
Depois da ligação, fiquei algum tempo no quarto de hóspedes.
Na parede havia uma fotografia antiga minha com Célia, num passeio escolar.
Minha mãe trabalhara muito para que eu pudesse estudar e nunca me fizera sentir que a felicidade dela dependia de eu estar fisicamente ao seu lado.
Pensei em como Nina, aos nove anos, já estava aprendendo o contrário.
No sábado, Gustavo veio buscar algumas roupas que havia deixado na casa de Célia quando passávamos fins de semana ali.
Eu o convidei a conversar no quintal.
Ele notou minha expressão antes de sentar.
— Você falou com meu pai.
— Falei.
— E ouvi o que aconteceu quando você tinha dez anos.
Ele apertou os lábios.
— Não foi uma tragédia.
— Meu pai e minha mãe se acertaram.
— O senhor Augusto não descreveu como tragédia.
— Descreveu como a quebra de uma confiança.
Gustavo olhou para o portão.
Disse que guardava daquela época a lembrança de ficar no banco de trás do carro, vendo a mãe se aproximar com uma mala pequena.
Ela não gritou.
Apenas perguntou se ele queria voltar para casa.
— Eu fiquei com medo de dizer sim e magoar meu pai — confessou.
— E agora você colocou a Nina diante da mesma pergunta.
As palavras saíram baixas.
Vi Gustavo encolher os ombros como se tivesse ouvido algo impossível, até perceber que era verdade.
Lembrei o rosto de Nina quando perguntou se o pai ficaria bravo por ela ter contado sobre a viagem.
Gustavo se levantou e caminhou até a ponta do quintal.
Voltou sem tentar me interromper.
— Eu pensei que, se ela gostasse de Curitiba, você também toparia — disse.
— Você queria me convencer com a felicidade dela.
— Mas foi a insegurança dela que apareceu primeiro.
O assunto não terminou ali.
Pedi que Gustavo me mostrasse todas as providências tomadas: o contato com a escola, a reserva do apartamento, a oferta de trabalho, os documentos enviados.
Ele hesitou diante do pedido, mas concordou.
Conversamos sobre marcar uma reunião com orientação profissional, numa tentativa de separar a situação de Augusto da responsabilidade sobre Nina.
Não falei em perdoá-lo.
Ainda não sabia o que essa palavra poderia significar para nós.
Na tarde de domingo, Gustavo levou uma pasta com cópias impressas.
Descobri que o apartamento fora reservado com uma parte de nossas economias conjuntas.
Não era todo o dinheiro da família, mas era uma quantia que havíamos separado para consertos no apartamento de Campinas.
Havia comprovantes e uma cláusula sobre devolução parcial em caso de desistência.
Eu nunca tinha visto aquele contrato.
— Você mexeu no dinheiro que juntamos sem me perguntar — falei.
— Eu pretendia repor assim que começasse a receber.
— Assim como pretendia me contar sobre a viagem?
Ele não respondeu.
Aquilo doeu menos como prejuízo financeiro e mais como sinal de que o segredo estava entranhado em decisões pequenas e grandes.
Eu precisava saber onde terminava o planejamento e onde começava uma tentativa de me deixar sem alternativas.
Abrimos juntos os comprovantes da escola.
O pré-cadastro estava registrado como pendente de confirmação.
A assinatura copiada aparecia anexada, exatamente como eu havia visto.
Pedi que ele enviasse uma mensagem formal reconhecendo a origem do arquivo e autorizando sua retirada, além de explicar à secretaria que não havia meu consentimento.
Gustavo escreveu diante de mim.
Depois, ele perguntou se podia falar com Nina por alguns minutos.
Concordei, desde que não comentasse mudança de cidade sem combinarmos uma explicação adequada.
Observei da porta enquanto ele perguntava sobre um livro e ouvia a filha contar o capítulo preferido.
Não tive vontade de interromper aquele momento.
Tive vontade de que ele pudesse existir sem mentiras ao redor.
Ao se despedir, Nina segurou a manga da camisa do pai.
— Se eu não for para Curitiba, o vovô vai achar que eu não amo ele?
Gustavo se ajoelhou e respondeu que não.
Disse que o avô já sabia do amor dela e que adultos encontrariam uma maneira de ajudá-lo.
Nina fez mais uma pergunta, quase cochichando.
— E você vai embora mesmo assim?
Gustavo olhou para mim antes de responder.
Era a primeira vez que percebia que não bastava explicar uma mudança: ele precisava dizer à filha se ainda haveria um lugar seguro para os dois na mesma família.
O que Gustavo conseguiria prometer sem mentir novamente? Continue na Parte 5, quando Nina finalmente colocou em palavras o medo que todos estávamos evitando.













