Na manhã de sexta-feira, acordei antes de o despertador tocar.
Eram cinco e vinte, mais de uma hora antes da partida do ônibus que Gustavo comprara.
Por um instante, quis ligar para ele apenas para confirmar que Nina estava comigo.
Olhei a menina dormindo e reconheci o absurdo desse impulso: eu começava a desconfiar de coisas que, até a véspera, nunca precisara verificar.
Enviei a Gustavo uma mensagem simples.
Escrevi que Nina estava bem, que não viajaria naquele dia e que eu queria conversar depois de receber orientação.
Ele respondeu que havia cancelado a passagem dela.
Pedi o comprovante.
Minutos depois, chegou uma captura de tela do cancelamento.
Eu a salvei junto com a foto do pré-cadastro, o agendamento da visita e a conversa sobre o apartamento.
Na cozinha, Célia já coava café.
Disse que poderia levar Nina à escola, se a menina quisesse manter a rotina.
Agradeci.
Nina acordou pouco depois e perguntou se tinha perdido o ônibus.
Expliquei que não haveria viagem, mas que o avô Augusto continuava merecendo nosso cuidado.
— Posso ligar para ele hoje? — perguntou.
— Claro.
— Você pode gostar do vovô e sentir saudade dele sem precisar mudar de casa agora.
A resposta pareceu surpreendê-la.
Comecei a entender que Gustavo vinha lhe apresentando alternativas como se fossem escolhas impossíveis: ou ela ia com ele, ou deixava alguém sozinho.
Eu não queria repetir o erro com um discurso diferente.
Depois que Nina saiu com Célia, liguei para a escola particular de Curitiba.
Fui transferida duas vezes até falar com uma funcionária da secretaria chamada Renata.
Expliquei que meu nome aparecia num pré-cadastro feito por outra pessoa e que precisava saber qual era a situação da matrícula.
Não pedi informações de outras famílias nem exigi acesso a dados que ela não podia fornecer por telefone.
Enviei a imagem para o canal indicado pela escola e aguardei retorno.
Renata confirmou apenas o que podia verificar com segurança.
O documento era parte de uma solicitação preliminar, ainda sem matrícula concluída.
Uma declaração de ciência dos responsáveis havia sido anexada pelo solicitante.
A escola exigiria confirmação diretamente comigo antes de avançar.
Aquilo não apagava o problema, mas me deu tempo para agir sem imaginar que Nina já estava inscrita definitivamente.
— A assinatura foi conferida com a senhora? — perguntei.
— Não houve contato direto com a senhora até agora — Renata respondeu.
— Vamos registrar sua contestação e suspender qualquer andamento até esclarecimento.
Agradeci e desliguei.
Senti vergonha de ter ficado tão aliviada por uma providência que deveria ter sido desnecessária.
Mais tarde, conversei com uma advogada de família indicada por uma amiga antiga.
Ela me ouviu sem prometer resultados nem transformar a situação numa sentença pronta.
Explicou a importância de guardar os documentos, registrar minha discordância com a mudança e buscar medidas adequadas se houvesse uma tentativa concreta de levar Nina para residir em outra cidade sem acordo.
Falou também que, enquanto discutíamos o futuro, precisávamos preservar o vínculo da menina com ambos os pais.
Saí da conversa com uma lista pequena de passos possíveis e outra, maior, de perguntas.
Nenhuma resposta jurídica faria o meu casamento voltar a ser o que era na quarta-feira.
Ainda assim, ter um caminho me impediu de passar o dia inteiro imaginando cenários.
À tarde, Gustavo veio até a casa de Célia.
Pedi que conversássemos no quintal, onde Nina não ouviria.
Mostrei a ele a imagem do pré-cadastro.
— Essa assinatura é minha — falei.
— Mas eu não assinei isso.
Ele ficou olhando o telefone.
— Peguei de um documento antigo da escola daqui — admitiu.
A frase saiu de sua boca sem dificuldade, como se estivesse dizendo que havia reutilizado um endereço de e-mail.
— Você copiou minha assinatura?
— Era para adiantar a análise.
— A matrícula nem estava confirmada.
— Então por que disse à escola que eu estava ciente?
— Porque achei que você concordaria quando visse como tudo estava organizado.
Percebi que Gustavo chamava de organização aquilo que para mim era apagar minha participação.
Eu trabalhava, cuidava de Nina, acompanhava as decisões da casa; mesmo assim, ele havia me reduzido a uma assinatura reutilizável.
— Isso não é adiantar uma conversa — respondi.
— É escrever o meu consentimento antes de me ouvir.
Ele pediu desculpas pela primeira vez desde a noite anterior.
Mas em seguida começou a explicar como o apartamento era perto de um parque, como a escola parecia boa e como Augusto ficaria feliz.
Tive de interrompê-lo.
— Não estou avaliando um imóvel.
— Estou perguntando por que você achou que podia fazer isso.
Gustavo me contou que havia visitado Curitiba duas semanas antes.
Tinha dito que passaria um dia resolvendo assuntos profissionais.
Na verdade, conhecera o apartamento, conversara com a escola e mostrado fotos para Nina por chamada de vídeo.
Augusto não participara da visita.
O pai soubera apenas que Gustavo estava pensando em ficar mais perto.
— Ele sabe que você pretendia levar a Nina amanhã? — perguntei.
Gustavo demorou a responder.
— Não exatamente.
Pela primeira vez, compreendi que a história contada ao próprio Augusto talvez fosse diferente da história contada a nós.
Pedi o telefone do sogro, embora já o tivesse salvo.
Não precisava de permissão para falar com ele; queria ver se Gustavo ainda tentaria decidir por todos.
Ele balançou a cabeça.
— Pode ligar.
— Mas meu pai vai ficar muito abalado.
— Ele merece saber a verdade sobre uma decisão feita em nome dele.
Quando voltei à sala, Nina estava desenhando com Célia.
Os três bonecos continuavam diante da casa amarela, mas agora ela havia acrescentado outra casa ao lado, com uma janela azul.
Perguntei que lugar era aquele.
— A casa da vovó — respondeu.
— Assim ninguém precisa ficar sozinho.
Sentei para conversar com ela, sem prometer que os adultos conseguiriam morar em casas lado a lado.
Disse que havia várias formas de uma família cuidar de quem ama e que ainda estávamos procurando a nossa.
À noite, liguei para Augusto.
Ele atendeu depois de vários toques, com a voz cansada de quem ainda se recuperava de uma queda.
Falei de Nina, da escola e das duas passagens.
O silêncio do outro lado durou o suficiente para eu achar que a ligação tinha caído.
— Juliana — disse ele, finalmente —, eu nunca pedi que ele trouxesse a menina sem você.
Respirei fundo.
— Então o senhor não sabia?
— Eu sabia que Gustavo queria mudar.
— Mas ele me disse que vocês estavam discutindo isso juntos.
Fiquei com a mão na testa.
Havia outra mentira, desta vez atravessando duas gerações.
Augusto baixou a voz.
— Preciso contar uma coisa que o Gustavo talvez nunca tenha contado direito.
— Quando ele tinha dez anos, eu também achei que podia resolver a vida da família levando uma criança primeiro e explicando depois.
Aquela história não constava de nenhuma das lembranças que meu marido compartilhara comigo.
E eu estava prestes a descobrir por que Augusto tinha reconhecido tão depressa o erro do filho.
O que aconteceu com Gustavo aos dez anos? Acompanhe a Parte 4 para entender a história que ele carregou até a mochila de Nina.













