Helena não respondeu à mensagem naquela noite.
Mostrou o telefone à irmã, Patrícia, durante o jantar simples que dividiram na cozinha do apartamento.
— Você não precisa ir — disse Patrícia.
— Ela já teve oportunidade de falar com você na frente de todos.
Helena concordou, mas voltou a olhar para a tela.
Queria compreender se Regina realmente havia percebido o que fizera ou se buscava apenas uma forma discreta de encerrar o assunto.
No dia seguinte, escreveu uma resposta curta.
Aceitaria conversar em uma cafeteria perto da unidade de saúde, durante o dia.
Não permitiria que a conversa interferisse no trabalho nem iria a um lugar escolhido pela antiga patroa.
Regina aceitou sem discutir.
Quando chegou, sentou-se diante dela sem a bolsa enorme que costumava carregar na mansão.
O estabelecimento era pequeno, e a máquina de café fazia tanto barulho que precisaram esperar para conseguir falar.
— Não vou pedir que você diga que está tudo bem — começou Regina.
— Não está.
Helena manteve as mãos sobre a mesa.
— Então por que me chamou?
— Porque eu queria pedir desculpas sem meu filho me obrigar a fazer isso.
E porque você precisa saber que aquela violência não aconteceu por sua causa.
Helena sentiu o bebê se mover.
Não gostava de ouvir palavras que pareciam tirar dela toda a capacidade de julgamento.
— Eu sei que não fiz nada errado ao alimentar o senhor Augusto — respondeu.
— O problema é que a senhora me fazia duvidar disso todos os dias.
Regina abaixou a cabeça.
— Eu me convenci de que precisava controlar tudo para que ninguém percebesse como a nossa vida tinha mudado.
Quando Augusto deixou de conseguir fazer certas coisas sozinho, eu comecei a agir como se ele tivesse deixado de ser a mesma pessoa.
— E ele estava ali o tempo inteiro — disse Helena.
— Estava.
Helena lembrou o primeiro dia em que encontrara Augusto tentando alcançar o copo de água.
O copo estava perto da mão, mas longe o bastante para que ele não pudesse pegá-lo.
Ela o ajudara e ouvira um agradecimento tão fraco que quase não entendera.
Desde então, prestava atenção àqueles pequenos pedidos.
— A senhora não precisa gostar de mim — continuou.
— Precisa tratá-lo como seu marido e não como um problema que deve ficar escondido.
Regina não tentou se defender.
Contou que havia aceitado colaborar com a revisão dos pagamentos e que entregara as mensagens e contratos solicitados.
Também havia começado a conversar com uma profissional sobre o medo de perder o lugar que ocupara durante o casamento.
Não apresentou nenhuma dessas medidas como pagamento por perdão.
— Eu tinha esperança de que você me perdoasse hoje — admitiu.
— Mas não vou exigir isso.
Helena olhou pela janela para as pessoas esperando o ônibus.
— Eu ouvi seu pedido.
O resto leva tempo.
Quando saiu, estava cansada, mas não assustada.
A diferença lhe pareceu maior do que qualquer desculpa.
Nas semanas seguintes, a vida na mansão mudou de maneira menos visível do que Marcos imaginara.
Não houve festa, anúncio ou comunicado para justificar as ausências de Regina.
Houve apenas uma rotina mais honesta.
Augusto voltou a fazer as sessões de reabilitação no ritmo indicado pelos profissionais.
Alguns dias conseguia pronunciar frases inteiras.
Em outros, precisava do quadro de letras até para pedir que abrissem a janela.
Os avanços não apagavam as limitações, mas ninguém voltou a tratá-las como vergonha.
Marcos passou a visitá-lo em horários que o pai escolhia.
Às vezes ficavam em silêncio, ouvindo músicas antigas.
Outras vezes Augusto pedia para falar sobre pequenas decisões: que roupa usar, quais amigos receber, em que lugar almoçar.
O filho descobriu que ouvir aquelas respostas exigia menos tempo do que viver meses sem perguntar.
Helena cumpria suas tarefas domésticas, sem substituir os profissionais que acompanhavam Augusto.
Quando cruzava com ele, os dois trocavam notícias.
Ele perguntava do bebê.
Ela perguntava da fisioterapia.
Certo dia, Augusto conseguiu escrever no quadro uma pergunta que a fez sorrir:
“Já escolheu nome?”
— Clara — respondeu.
— Minha irmã diz que combina com o jeito como ela se mexe quando ouve música.
O velho sorriu.
— Bonito — falou, sem precisar soletrar.
No oitavo mês de gestação, Helena conversou com uma orientadora sobre seu afastamento e seus direitos como trabalhadora doméstica.
Marcos garantiu que seriam cumpridos os procedimentos aplicáveis à licença-maternidade e ao salário, sem transformar isso em recompensa por ter cuidado de Augusto.
Era uma obrigação da relação de trabalho, não um favor da família.
A separação entre as duas coisas lhe trouxe paz.
Ela podia ser uma boa profissional e, ao mesmo tempo, alguém que precisava de descanso, atendimento médico e uma vida própria.
Quando entrou na última semana prevista da gravidez, deixou de frequentar a mansão por algum tempo.
Augusto pediu que Marcos levasse a ela um bilhete simples, escrito com ajuda da fonoaudióloga, mas composto com as palavras que ele escolheu.
“Cuide de você e de Clara. Aqui estamos bem acompanhados.”
Helena chorou ao lê-lo.
Por meses, acreditara que sair daquela casa significava abandonar Augusto.
Agora ele próprio lhe mostrava que a segurança dele não dependia da renúncia dela.
Na madrugada de uma quinta-feira, as contrações começaram.
Patrícia a acompanhou à maternidade, onde a equipe confirmou que o trabalho de parto estava em andamento.
Helena avisou apenas as pessoas próximas.
Queria atravessar aquele momento sem transformar o nascimento da filha em assunto da mansão.
Clara nasceu naquela tarde, e seu primeiro choro encheu o quarto de um som que Helena jamais esqueceria.
A mãe segurou a menina junto ao peito e percebeu que já não tinha medo de pedir ajuda.
No dia seguinte, ao olhar as mensagens recebidas, encontrou uma de Marcos.
Augusto estava feliz com a notícia e perguntava se um dia poderia conhecer Clara.
Regina também enviara felicitações, sem insistir em visita.
Helena observou a filha adormecida.
Conhecia o afeto que Augusto lhe oferecia, mas sabia que a criança não deveria herdar obrigações nem dívidas de gratidão.
Ela ainda precisava decidir que lugar aquela família teria na vida das duas.
A escolha de Helena e o primeiro encontro de Clara com Augusto estão na Parte 7.












