Helena não abriu o envelope.
Pegou-o pelas bordas e o levou até a mesa de Júlio, explicando onde o encontrara.
Não queria que ninguém dissesse depois que havia mexido nos papéis de Augusto sem autorização.
Júlio chamou Marcos.
Quando ele viu a data marcada para a segunda-feira, pediu que telefonassem à clínica antes de tirar qualquer conclusão.
A atendente confirmou uma avaliação de ingresso solicitada por Regina, mas explicou que ainda não havia decisão sobre admissão.
— Meu pai sabe desse agendamento? — perguntou Marcos.
A mulher não soube responder.
Regina apareceu no escritório pouco depois.
Estava usando um conjunto impecável e segurava uma pasta contra o peito, como se tivesse se preparado para aquela conversa.
— Eu estava procurando uma solução — afirmou.
— Você não passa o dia aqui e não sabe o que é conviver com alguém que precisa de tudo.
— Eu não sei, mãe.
Essa é uma falha minha.
Mas não é motivo para o pai ser excluído das decisões.
— Você prefere que uma empregada grávida cuide dele?
— Não.
Prefiro que profissionais façam o que é necessário e que ele escolha, com informação suficiente, onde quer viver.
Regina desviou o olhar.
— Ele sempre dizia que não queria dar trabalho.
— Dizer que não quer dar trabalho não é pedir para ser deixado sozinho — respondeu o filho.
Marcos propôs levar o envelope ao quarto e explicar pessoalmente a situação ao pai.
Regina tentou impedir.
Dessa vez foi Júlio quem falou:
— Dona Regina, o senhor Augusto pediu ontem para ser informado dos assuntos da casa.
Ouvi quando ele disse isso.
No quarto, Augusto ouviu a explicação até o fim.
O filho leu em voz alta o nome da clínica e a data da avaliação, sem exagerar o que estava nos documentos.
Depois ofereceu o quadro de letras.
Augusto apontou uma palavra de cada vez.
Levou vários minutos.
“Quero ficar aqui.”
— Tudo bem, pai.
Não vamos organizar mudança nenhuma sem conversar com o senhor e com a equipe de saúde.
Regina estava à porta.
— Augusto, eu só queria um lugar onde pudessem cuidar de você melhor.
O marido olhou para ela por muito tempo.
— Falar… comigo — respondeu, pausadamente.
Regina sentou-se numa cadeira, mas não encontrou uma palavra.
Havia anos que resolvia os problemas domésticos com telefonemas, ordens e cheques.
Aquela resposta curta exigia outra coisa: escutar.
Naquela tarde, a fonoaudióloga Elisa retornou à mansão para uma primeira conversa após a interrupção do acompanhamento.
Marcos se desculpou pelo atraso e pediu que toda a família recebesse instruções claras.
Augusto escolheu fazer a sessão com a porta fechada.
Regina não foi convidada a permanecer.
Helena aproveitou o período para ir à consulta pré-natal que havia remarcado.
Saiu da residência carregando o caderno azul e uma sensação estranha de liberdade.
O ônibus demorou, e ela precisou esperar sentada no ponto, com as mãos pousadas sobre a barriga.
O bebê se movimentou duas vezes.
Na unidade de saúde, contou à enfermeira que tinha sentido um aperto no peito durante a discussão.
A profissional conferiu os sinais vitais e explicou que, diante de qualquer sintoma preocupante, deveria procurar avaliação médica.
Também lembrou a importância de descanso e acompanhamento regular.
— Você tem alguém para ajudar quando o bebê nascer? — perguntou.
— Minha irmã mora perto.
A gente se organiza como pode.
Helena não contou o resto.
Não sabia explicar por que sentia vergonha de estar cansada quando Augusto dependia tanto de outros.
Mas, no caminho de volta, percebeu que não era obrigada a escolher entre proteger um idoso e proteger o próprio filho.
À noite, Marcos pediu que ela fosse à biblioteca.
Não havia ninguém mais na sala.
Ele tinha diante de si os registros de pagamentos e o telefone de uma assessora jurídica independente, com quem combinara uma revisão documental.
— Helena, a doutora Ana Paula foi clara.
Você não pode ficar sozinha com a responsabilidade pelos cuidados do meu pai.
A partir de amanhã, teremos profissionais indicados por ela, com horários e funções definidos.
— E meu trabalho?
— Seu trabalho será respeitado.
Quero também que uma pessoa de confiança explique seus direitos, inclusive durante a gestação, sem minha mãe presente.
Helena sentiu vontade de aceitar tudo de imediato.
Pensou na diferença entre a casa pequena onde vivia e aquela biblioteca, onde uma única luminária talvez custasse mais do que seus móveis.
Depois recordou a mão de Regina apertando seu ombro.
— Eu quero continuar trabalhando enquanto puder — respondeu.
— Mas não quero que o senhor compre meu silêncio com favores.
Marcos ergueu a cabeça.
— Nem eu.
Ela abriu o caderno na página da semana anterior.
— Na terça-feira, seu pai ficou quase uma hora esperando alguém para ajudá-lo a ir até a varanda.
Dona Regina pediu que eu fechasse a porta porque teria visitas.
Ele ficou olhando para o corredor.
Foi nesse dia que comecei a pensar que as ordens dela estavam machucando mais do que ajudando.
Marcos leu a anotação e fez uma cópia com a autorização de Helena, sem fotografar outras páginas.
— Não sei o que vamos conseguir provar — disse.
— Mas não vou fingir que não ouvi.
Dois dias depois, veio a resposta preliminar da Vida Serena.
A empresa dizia ter recebido pagamentos por um pacote de acompanhamento e reconhecia inconsistências entre as visitas lançadas e seus registros internos.
Afirmava que faria uma auditoria.
Marcos não tomou aquilo como sentença.
Queria ouvir os profissionais identificados nas notas e dar à mãe a oportunidade de explicar o contrato.
Entretanto, na mesma correspondência havia uma informação objetiva: o número de telefone indicado para validar os serviços pertencia ao escritório particular de Regina.
Quando Marcos mostrou a mensagem à mãe, ela finalmente parou de dizer que não sabia de nada.
— Eu autorizei os pagamentos — admitiu.
— E pedi que não ligassem para você.
— Por quê?
Regina apertou a pasta contra o peito.
— Porque, se você visse como seu pai estava, perceberia que eu tinha perdido o controle.
Marcos esperou pelo resto da explicação.
Mas a mãe acrescentou algo ainda mais difícil de aceitar:
— E porque eu não queria que Augusto voltasse a tomar as decisões desta casa.
Para entender o que Regina temia perder, continue na Parte 5.












